Ataque, lei e consequências

 Por Jurandir Soares

A retirada de ditadores do poder cabe à população dos respectivos países ou, então, a uma ação internacional aprovada pela ONU. É preciso destacar que defender o cumprimento da lei internacional não significa compactuar com esses nefastos regimes repressivos

Há consenso internacional entre os defensores da democracia de que ditadores como Nicolás Maduro e Ali Khamenei não poderiam continuar governando seus respectivos países. Poderia acrescentar-se a essa lista uma série de outros nomes, a começar pelo norte-coreano Kim Jong-un. Agora, a retirada desses ditadores do poder, pela lei internacional, cabe à população dos respectivos países ou, então, a uma ação internacional aprovada pela ONU. É preciso destacar que defender o cumprimento da lei internacional não significa compactuar com esses nefastos regimes repressivos.


Os Estados Unidos já foram líderes de uma ação internacional aprovada pela ONU. Em 1991, foram autorizados pelo Conselho de Segurança a liderar uma força multinacional, com o objetivo de retirar do Kuwait as forças do Iraque que, por ordem de Saddam Hussein, haviam invadido aquele país. Nesse caso, a correlação que poderia ser estabelecida é o fato de o Irã dar suporte a várias organizações terroristas que servem como “ponto avançado” de seus objetivos. Aí se incluem Hamas, Jihad Islâmica, Hezbollah, Houthis e Al Qaeda.


AÇÕES


Uma ação nesse sentido deveria ser feita contra a Rússia de Vladimir Putin pela invasão da Ucrânia. Aliás, trata-se de um caso em que fica flagrante a violação de um dispositivo legal da ONU, o qual estabelece que não se pode tomar território de outro país pela força. Mas essa seria uma guerra que poderia escalar. Pois a atual guerra iniciada por EUA e Israel contra o Irã já escalou. Além de Israel, outros seis países do Oriente Médio já foram atacados pelo Irã.


A comunidade civil passa a ser diretamente impactada em decorrência do conflito. E aí se inclui o absurdo de um ataque a uma escola no Irã, no qual teriam morrido mais de uma centena de crianças, conforme agências noticiosas. Assim como civis foram mortos em Israel, com ataque a prédio residencial. Ou seja, civis pagando o preço do conflito.


DECORRÊNCIA


Então, vê-se a decorrência do conflito. E o que seria o principal objetivo do ataque desfechado por EUA e Israel – a derrubada do regime iraniano – não apresenta perspectiva de acontecer. Os aiatolás já preparam um sucessor de Ali Khamenei. Embora tenha ocorrido a eliminação de cerca de 40 militares de altos comandos, o que se percebe é que a chamada Guarda Revolucionária continua fiel à teocracia, indicando que tudo deve continuar como antes.


Isso se dá por dois motivos. Um deles é o forte sentimento antiamericano dos fundamentalistas islâmicos e de parte da população iraniana, destacando-se que outra parte é saudosa dos tempos de liberdade anteriores à Revolução Islâmica de 1979. O outro motivo é a falta de uma liderança de oposição no Irã. Basta observar que não se ouve falar em nenhum nome oposicionista. O único que é mencionado é Mohamed Reza Pahlevi, filho do último xá, que mora no exterior e não tem muita expressão. E tampouco há perspectiva para a volta de uma monarquia. Diferentemente da Venezuela, onde existe uma oposição forte e bem estruturada, isso não acontece no Irã.


VISÃO


Outro problema decorrente dessa guerra, que se cogitava, já está acontecendo: o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 30% da produção mundial de petróleo – produto que abastece boa parte do Ocidente e da Ásia. Ou seja, há a perspectiva de um novo choque do petróleo, com todas as suas consequências econômicas e financeiras.


O que se observa é que, a cada momento, chegam novas informações com aumento do número de mortos e feridos no Irã, em Israel e nos seis países árabes do Golfo Pérsico envolvidos. O risco de expansão do conflito é grande. Tudo isso como decorrência de Donald Trump apresentar-se como o justiceiro do mundo. E com um detalhe: ele cria conflitos longe do território norte-americano, assim a população dos Estados Unidos não sente na própria pele aquilo que estão sentindo as populações dos demais países envolvidos.


Mas Trump encontrou em Benjamin Netanyahu o parceiro ideal para a empreitada. Este estava havia muito tempo querendo realizar esse ataque, mas não encontrava respaldo na Casa Branca – o que agora ocorreu. Mexeram com uma colmeia.

Correio do Povo

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