Por Felipe Vieira
O rombo de R$ 4,1 bilhões nas estatais federais apenas nos dois primeiros meses de 2026 não é um acidente. É um sintoma, e dos mais claros, de um modelo que insiste em repetir erros conhecidos.
Trata-se do pior resultado para o período em mais de duas décadas. E o mais grave: em apenas dois meses, o prejuízo já se aproxima de todo o déficit registrado ao longo de 2025. Não há como relativizar.
O governo tenta tratar números como peças técnicas, mas o problema é político e gerencial. Estatais não são apenas instrumentos de política pública, são estruturas que exigem eficiência, governança e responsabilidade. E é exatamente isso que está faltando.
O caso dos Correios é emblemático. Uma empresa com monopólio em parte relevante de sua atuação, protegida da concorrência em segmentos estratégicos, acumula prejuízos bilionários e depende de empréstimos com garantia do Tesouro. Traduzindo: quando a estatal falha, a conta volta para o contribuinte.
E volta sempre.
O empréstimo de R$ 12 bilhões, somado à perspectiva de novos aportes, revela algo mais profundo do que um problema operacional. Revela incapacidade de ajuste. Revela uma estrutura que se mantém de pé não por eficiência, mas por sustentação política.
O argumento clássico de que estatais cumprem função social não pode servir de escudo para má gestão. Função social não é sinônimo de ineficiência permanente.
Outro ponto preocupante é a fragmentação do problema. Não se trata de uma única empresa em crise, mas de um conjunto de estatais que, mesmo fora do radar das gigantes como Petrobras e Eletrobras, vêm acumulando déficits crescentes.
São estruturas menores, menos visíveis, mas que, somadas, geram impacto fiscal relevante.
O Banco Central utiliza uma metodologia baseada na variação da dívida, um conceito internacionalmente reconhecido. Já o governo tende a adotar métricas mais flexíveis. No fim, a diferença de leitura não muda o essencial: as estatais estão gastando mais do que arrecadam.
E isso, no setor público, nunca é neutro.
O Brasil volta a flertar com um modelo em que empresas públicas deixam de ser instrumentos de eficiência e passam a operar como centros de custo com baixa cobrança por resultados. Sem metas claras, sem pressão competitiva e, muitas vezes, com indicações políticas pesando mais do que critérios técnicos.
O risco é conhecido, e já foi vivido.
Quando a governança falha, o prejuízo se acumula. Quando o prejuízo cresce, a solução recai sobre o Tesouro. E quando o Tesouro entra, quem paga é a sociedade.
Não se trata de ser contra ou a favor de estatais. Trata-se de exigir que funcionem.
Porque, do jeito que está, o Brasil não está apenas administrando empresas públicas, está financiando ineficiência.
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