Guerra no Oriente Médio completa um mês sem que Estados Unidos e Israel tenham atingido plenamente seus objetivos
Por Jurandir Soares
Ao completar-se um mês de guerra, sem que Estados Unidos e Israel tenham atingido plenamente seus objetivos, os indicativos são de que o governo de Donald Trump prepara um ataque por terra ao Irã. A dedução decorre do anúncio inicial de que mil soldados norte-americanos – paraquedistas e fuzileiros navais – estariam se dirigindo para a região do Golfo Pérsico. A suposição se reforça com a informação de que esse contingente será, na realidade, de 20 mil a 40 mil soldados, tropas de primeira linha.
Tampouco se sabe onde esse contingente atacará. No entanto, a principal hipótese recai sobre a ilha de Kharg. Afinal, ali está o ponto de escoamento do petróleo iraniano. Porém, ainda mais importante, por sua localização, é a ilha de Qeshm, situada junto ao Estreito de Ormuz, bloqueado e sob o controle do Irã. O regime dos aiatolás só permite a passagem de navios de “nações amigas”.
METAS
Israel e EUA conseguiram gerar grandes perdas entre os iranianos, tanto em termos de sua liderança político-religiosa quanto de sua infraestrutura administrativa, científica e militar. Apesar disso, ainda há muita resistência por parte do Irã. Pelo que consta, suas instalações nucleares mantêm urânio enriquecido a 60%, portanto, em níveis próximos do necessário para a produção de uma bomba atômica, e seus sistemas de mísseis balísticos, embora afetados, continuam muito poderosos.
O Irã demonstrou esse poder ao atingir, com um míssil, a base americana de Diego Garcia, situada no Oceano Índico, a quatro mil quilômetros de distância. Além disso, teria abatido, em solo, em uma base norte-americana na Arábia Saudita, um avião espião da Força Aérea dos EUA, segundo a BBC, avaliado em 575 milhões de dólares.
Tanto EUA quanto Israel afirmam estar próximos de alcançar suas metas nesta guerra, o que pode ocorrer em questão de dias. O presidente Trump está ansioso para anunciar sua vitória; no entanto, só haverá triunfo se ele conseguir, no mínimo, liberar o Estreito de Ormuz.
RESISTÊNCIA
Ocorre que a resistência do Irã parece estar sendo maior do que EUA e Israel esperavam. Um dos objetivos explícitos dos atacantes era promover uma mudança de regime no país, pondo fim ao sistema repressivo dos aiatolás. No entanto, essa hipótese não se vislumbra no momento. E, pior, pode ocorrer o que afirmou Fabio Rosenfeld em comentário no programa Hora Israelita, na Rádio Guaíba: um endurecimento ainda maior do sistema.
Algo esperado era uma reação da oposição diante do enfraquecimento do regime. No entanto, isso não tem sido observado, em razão do temor da repressão. Basta lembrar que, somente nos protestos de janeiro último, morreram mais de 3,5 mil pessoas, de acordo com fontes mais moderadas – há quem diga que o número de mortos tenha ultrapassado 10 mil. Assim, poucos se encorajam a protestar.
NOVIDADE
Um ponto novo é que a guerra revelou, nos últimos dias, um novo ator: os Houthis, movimento radical situado no Iêmen, mais um dos grupos apoiados por Teerã. Daí o fato de terem, pela primeira vez, atacado Israel. Esse grupo tem histórico de atos contra embarcações petrolíferas no Mar Vermelho, o que já levou a múltiplas mobilizações dos Estados Unidos naquela região para garantir o tráfego.
Agora, o grupo representa uma nova ameaça. Vale lembrar que a Arábia Saudita, cuja produção de petróleo se concentra no litoral do Golfo Pérsico, construiu um oleoduto que leva o produto através de seu território até a costa oeste, junto ao Mar Vermelho – uma forma de contornar as dificuldades, ao menos parcialmente.
BLOQUEIO
A ameaça feita pelo grupo é fechar o Estreito de Bab el-Mandeb, localizado na entrada do Mar Vermelho, entre o Iêmen, de um lado, e Djibouti e Eritreia, de outro. Ou seja, não bastará liberar Ormuz; será necessário também garantir a abertura desse outro gargalo estratégico. Como se observa, ao completar um mês – marco ocorrido no sábado, dia 28 –, a guerra dá mais sinais de escalada do que de recuo.
Correio do Povo
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