(Lucas Neves – Paris - Folha de S.Paulo, 02) Depois de um 2017 hostil, com perdas de governo em França, Áustria e República Tcheca, a esquerda tradicional europeia, encarnada em legendas socialistas e social-democratas, terminou o ano de 2018 mais uma vez com pouco a celebrar.
Na Itália, o Partido Democrático foi apeado do poder por uma associação excêntrica e oportunista entre uma agremiação que diz contestar o sistema político tradicional (o Movimento 5 Estrelas) e a Liga (direita radical), de retórica xenófoba e anti-integração europeia.
Na Alemanha, o Partido Social-Democrata (SPD), que já vinha de um duro revés na eleição nacional de 2017, amargou maus resultados em dois importantes pleitos regionais (nos estados de Hesse e Baviera), especialmente no segundo, em que chegou apenas na quinta colocação.
Internamente, a sigla é palco de um conflito geracional entre a ala jovem, que acha que o SPD se desnaturou depois de anos de coalizão governamental com a CDU (União Democrata-Cristã) de Angela Merkel, e os baluartes, apegados aos cargos e benesses do poder.
Conforme escreve para a revista New Statesman o professor de Cambridge Chris Bickerton (em artigo intitulado “O Colapso da Centro-Esquerda Europeia Tradicional”), a legenda alemã tinha uma “tempestade perfeita” a seu favor.
A precarização do mercado de trabalho (com contratos temporários e/ou de meio período, além de salários baixos) e um sentimento de descompasso entre uma economia com indicadores macroeconômicos saudáveis e o cotidiano áspero do cidadão comum, deveriam em teoria oferecer um trampolim à social-democracia germânica.
Na prática, porém, o que o SPD fez foi sangrar eleitores para o partido A Esquerda (Die Linke) e para o Alternativa para a Alemanha (AfD, de direita radical).
Já na Suécia, onde os sociais-democratas eram até há pouco força quase hegemônica, não há governo formado passados quase quatro meses das eleições legislativas.
Os progressistas, sem maioria no Parlamento, precisariam compor com o bloco conservador, mas hesitam.
Se não houver definição até 23 de janeiro, uma nova votação será convocada.
Enquanto isso, o impasse vai aumentando a simpatia pela formação de direita populista Democratas Suecos, segundo pesquisas de popularidade recentes.
Mesmo na Espanha, onde os socialistas conseguiram desalojar o Partido Popular (centro-direita) do Palácio da Moncloa, o ano passado terminou com um sobressalto local: a não recondução do PSOE ao governo regional da Andaluzia, depois de 36 anos de supremacia.
Alguns analistas atribuem a retração do establishment progressista à forma como, na esteira da crise mundial de 2008 (e, dois anos depois, da crise da dívida grega, que por pouco não contagiou toda a zona do euro), os socialistas e sociais-democratas em postos de comando se curvaram aos imperativos de austeridade fiscal, abandonando a agenda de proteção social tradicionalmente associada à esquerda.
Mas o professor Jan Rovny, da Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris), vê raízes mais profundas no fenômeno, segundo expõe em artigo para o site da London School of Economics (“O Que Aconteceu com a Esquerda da Europa?”). Para ele, mudanças estruturais e tecnológicas profundas no continente reconfiguraram a sociedade europeia —e, por extensão, o eleitorado esquerdista.
O traço comum dos grandes partidos de esquerda do continente no pós-guerra, escreve Rovny, era a defesa dos direitos dos trabalhadores, grupo relativamente homogêneo dotado de forte consciência de classe (transmitida de geração em geração).
Por meio de políticas que impulsionavam o acesso à educação superior e incentivavam a expansão dos direitos civis, ajudaram a fazer do proletariado uma nova classe média.
Por outro lado, destaca o professor, o novo proletariado (ou “precariado”, como ele e outros autores têm chamado) se viu acossado pela automação maciça da cadeia produtiva e pela atomização do trabalho, quase sempre de baixa qualificação. Com isso, perdeu a sensação de pertencer a uma comunidade e a capacidade e a vontade de se articular em grupo.
O (res)sentimento se acentuou com a circulação de grandes contingentes de trabalhadores “baratos” decorrente da integração europeia.
São esses “perdedores da globalização” que desertaram a esquerda e seu elogio do cosmopolitismo multiculturalista, ao qual preferem um nacionalismo tradicionalista.
É na fenda aberta por essa decomposição da base eleitoral da esquerda que o populismo tem se insinuado —basta pensar na Itália de Matteo Salvini—, com um receituário que alia promessas de proteção econômica e conservadorismo nos costumes.
A prova dos nove dessa mudança sísmica virá em maio de 2019, quando acontecem as eleições para o Parlamento Europeu, em que os sociais-democratas devem assistir como coadjuvantes ao embate entre o front globalista encabeçado pelos combalidos Emmanuel Macron e Angela Merkel e a confraria eurocética puxada por Salvini, Marine Le Pen (França) e Viktor Orbán (Hungria).
Esquerda tradicional em crise na Europa
Alemanha
O Partido Social-Democrata (SPD) vive uma crise interna entre a ala mais jovem e a geração mais antiga e amargou resultados ruins em eleições locais em 2018
Itália
No comando do país desde 2013, o Partido Democrático acabou derrotado nas últimas eleições, em março de 2018, e cedeu o poder para uma coalizão entre a Liga (direita radical) e o Movimento 5 Estrelas (antissistema)
Suécia
Principal força política do país, os sociais-democratas terminaram a última eleição sem maioria no Parlamento, colocando o país em um impasse que pode levar a uma nova votação e beneficiar a direita radical
Espanha
Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) perdeu para a direita radical o governo regional da Andaluzia após 36 anos de hegemonia.
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