O mediador Xi Jinping

 Líder chinês está querendo se projetar como um pivô da diplomacia internacional

Por Jurandir Soares

Poucos dias depois de receber em Pequim o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o presidente chinês Xi Jinping recebe o seu homólogo russo, Vladimir Putin. Ou seja, recebe os dirigentes que estão envolvidos nas duas principais guerras em desenvolvimento atualmente. Aliás, foi revelado que, durante as conversas da semana passada com Trump, Xi teria dito que Putin deve estar se arrependendo de sua invasão da Ucrânia. Fica a curiosidade para saber se Xi vai dizer isto também para o próprio líder russo, a quem recebe para uma visita de dois dias.


As especulações são de que Xi está querendo se projetar como um pivô da diplomacia internacional. Afinal, ele tem reiterado que não quer guerra com ninguém, quer apenas fazer negócios. E, para fazer negócios, é preciso aprimorar a diplomacia.


NEGÓCIOS


E justo o que Putin está fazendo em Pequim é negócios. Aproveitando que a China se tornou o maior comprador dos produtos russos, desde que passaram a vigorar as sanções contra Moscou em função da guerra com a Ucrânia. A China, que carece de fontes energéticas, duplicou a sua compra de petróleo e de gás russos.


E, para manutenção e ampliação desse fluxo, já anunciaram a construção do gasoduto Sibéria 2. Trata-se de um megaprojeto que transportará até 50 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano da península de Yamal, na Rússia, para o norte da China, cruzando o território da Mongólia. O gasoduto visa redirecionar o gás natural que a Rússia fornecia à Europa antes da guerra na Ucrânia para o mercado chinês. A extensão total da rota é de cerca de 6,7 mil quilômetros, sendo 2,7 mil quilômetros em solo russo, mil quilômetros na Mongólia e o restante na China.


COOPERAÇÃO


Putin e Xi Jinping negociaram a assinatura de mais de 20 acordos bilaterais em Pequim, abrangendo energia nuclear, comércio e cooperação tecnológica. A pauta principal incluiu o avanço das tratativas do gasoduto Sibéria 2. Outro ponto muito peculiar: o fortalecimento de uma aliança contra a influência ocidental. A Rússia busca a importação de chips e tecnologia chinesa para alimentar seus modelos de Inteligência Artificial, driblando as sanções ocidentais.


Fica flagrante também a cutucada que dão nos Estados Unidos, o que é constatado pela assinatura de uma extensa declaração conjunta defendendo um mundo multipolar e criticando a hegemonia dos Estados Unidos. Eles também criticaram o escudo antimísseis ("Domo de Ouro") proposto pelo governo norte-americano e estabeleceram o compromisso em expandir os exercícios militares conjuntos e aprofundar a interoperabilidade entre os dois países, que compartilham uma vasta fronteira.


EXERCÍCIOS


Putin, que enfrenta muita pressão interna, busca aproveitar o momento para mostrar força, tanto pelo fortalecimento de sua amizade com Xi, como com o manuseio de seu poderio nuclear. Vale lembrar que, desde que iniciou a guerra contra a Ucrânia, em 2022, Putin fala constantemente no uso de armas nucleares se sentir-se ameaçado. Para isto, está usando o Estado vassalo, a Belarus de Aleksander Lukashenko.


Ao longo de três dias, estão sendo realizados os maiores exercícios nucleares desde 1991, para o caso de “ameaça de agressão”. A mobilização envolve 64 mil militares, 7.800 equipamentos bélicos, 200 lançadores de foguetes, 140 aeronaves, 73 navios e 13 submarinos.


PENSAMENTO


Nada transpareceu sobre o que pensa Xi, que quer ser um mediador de conflitos, a respeito dessas manobras provocativas. Aliás, as mesmas se dão num momento em que a Ucrânia consegue fazer seus drones atacar até em Moscou, que dista 500 quilômetros da fronteira. Resta saber se Xi falou com Putin sobre o que dissera para Trump, ou seja, que o russo deveria estar arrependido de ter feito a guerra contra a Ucrânia. E também se Xi está se portando mesmo como um mediador ou como um aliado da Rússia.


Correio do Povo

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