Como Neymar reverteu a expectativa e foi convocado por Ancelotti para a Copa do Mundo

 Camisa 10 do Santos, e provavelmente da Seleção Brasileira, irá disputar a quarta Copa do Mundo da carreira, mas desta vez em condição bem inferior das anteriores

João Paulo Fontoura


Quando Neymar, então com 22 anos, era a esperança de um time sem grandes estrelas em 2014, as redes sociais não tinham o poder que têm hoje. Mais de uma década depois, o fenômeno em que elas se transformaram somado à transformação de um craque em popstar e, principalmente, a falta de identidade dessa geração hoje convocada ajudam a entender o chamado de Carlo Ancelotti de alguém que desde o Catar, em 2022, teve média de 15 jogos disputados por temporada. O fato é que Neymar vai para o seu quarto Mundial novamente carregando um peso nas costas.


Quando assumiu a Seleção Brasileira em meio a um conturbado ciclo, o italiano de posse do currículo de treinador mais vitorioso em clubes ao redor do mundo, simbolizava a devolução de estofo para o cargo. Em outras palavras, alguém que não se sujeitasse à pressão externa para que esse ou aquele jogador fosse chamado. Ou ficasse de fora. Acostumado a trabalhar com cobras criadas no mais variados vestiários, Ancelotti era a certeza de que, recuperado ou não de uma grave lesão no joelho, Neymar não era mais o cara para servir as cores do Brasil.


Time ainda não correspondeu à expectativa

Os cabelos brancos do treinador carregam experiência de sobra. De novidade, a condução de um elenco não no dia a dia, mas eventualmente, como ocorre nas seleções. Ancelotti deu chances a muita gente, teve o azar de perder dois de seus principais atacantes, Rodrygo e Estevão, e, de fato, não montou um time a tempo e à altura da expectativa de quem ocupa o cargo que ele garantiu até 2030. Nesses detalhes apareceram a pista para a volta de Neymar.


Sem muito tempo para exercer influência e à medida que a competição se aproximou, nomes de destaque nos clubes, mas de menor sucesso na Seleção como o capitão Casemiro, 'repatriado' pelo treinador, Raphinha e Vini Jr. usaram entrevistas recentes para engrossar o coro pelo acolhimento do camisa 10 do Santos. A bolha falou mais alto. Não só a do atual ambiente, mas de quem já esteve nele.


Jogadores incentivaram a convocação

Oito em cada dez ex-jogadores, principalmente campeões, incentivaram a convocação que só teve menos apelo do que a de Romário em 2002. No entanto, ao contrário de Felipão que sentia um vestiário seguro distante do baixinho, o de agora demonstra o contrário. Talvez Ancelotti tenha entendido o recado. O elenco que ele assumiu vê em Neymar um escudo para um possível fracasso e um endosso no improvável êxito.


Por fim, sem contar os efeitos ligados ao business que um nome como o de Neymar traz para a competição, pode ter contado também um fator que transcende a qualquer entendimento racional de futebol. Justiça seja feita, a Copa do Mundo até aqui tem sido injusta com Neymar.


Solução de um time em busca de uma cara

Em 2014, ele deixou o torneio após uma falta criminosa de Zúñiga nas quartas de final contra a Colômbia. Depois, na Rússia em 2018, mal havia se recuperado de uma lesão no pé quando a Bélgica foi o algoz. E no Catar há quatro anos quando se preparou muito melhor do que para Estados Unidos, Canadá e México, ele estava levando o Brasil para a semifinal com um golaço contra a Croácia quando viu, sem poder fazer a sua cobrança, o sonho do hexa ir embora pelos pênaltis.


Restando menos de um mês para a bola rolar, quem até ontem era dúvida para ser chamado, pode se tornar certeza de muitas coisas. De preocupação com o comportamento demonstrado ao longo da carreira dentro e fora de campo, mas de solução para um time em busca de uma cara. Ou de um cara. E Neymar foi chamado para ser esse cara, não só pelo seu novo chefe, mas pelos seus antigos e novos companheiros. E esse é um peso real e incapaz de ser medido pelas redes sociais.


Correio do Povo

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