Nova opção em energia elétrica

A evolução em busca de melhores condições de vida e de produção é um processo contínuo , Agora, uma nova notícia vem servir de alento para a nossa matriz energética. Trata-se da implementação da primeira termelétrica com aproveitamento do lixo de um aterro sanitário. A unidade está localizada na cidade gaúcha de Minas do Leão e deverá funcionar nos próximos dias, assim que for emitida uma licença ambiental da Fepam. O investimento é privado e tem um custo de R$ 30 milhões. A estimativa é que seja gerado um montante de eletricidade suficiente para abastecer uma cidade de 200 mil habitantes.
Sem dúvida, o fato de se poder conciliar um destino adequado do lixo com a produção de energia se reveste de uma importância fundamental, tanto para aumentar a oferta disponível como para propiciar novas oportunidades de emprego e renda. Ao todo, são 3,5 mil toneladas de lixo orgânico por dia. Porto Alegre envia mais da metade desse montante e mais de uma centena de outras cidades gaúchas serão contempladas. A potência instalada, que hoje é de 8,55 MW, pode chegar a 15 MW numa futura ampliação. A energia limpa é uma conquista que vai beneficiar a população sem descuidar do meio ambiente.
Iniciativas semelhantes são esperadas para que o país possa ter a energia suficiente para seu desenvolvimento. A dependência de gerá-la somente com usinas que dependem de fatores climáticos ou com termelétricas de alto custo é uma questão a ser equacionada. O lixo pode ter um papel nesse contexto.


Fonte: Correio do Povo, editorial da edição 3 de junho de 2015, página 2.

Nassau, arquiteto da cultura, por Voltaire Schilling*

Andava o Príncipe Conde de Nassau tão ocupado em fabricar a sua cidade, que para afevorar os moradores a fazerem a casa, ele mesmo, com muita curiosidade lhe andava deitando medidas, e endireitando as ruas, para ficar a povoação mais vistosa, e lhe trouxe a entrar por meio dela, por um clique, ou levada, a água do Rio Capiberibe...”

Frei Manoel Calado Salvador – Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade, 1648...

Pois não é que até os moradores do vilarejo de Recife, ocupado pelos holandeses desde 1630, deram para colaborar voluntariamente com o Conde de Nassau. Espantados e intrigados, nunca haviam visto um fidalgo tão envolvido com o lugarejo. Encontravam-no pelas vielas pelas vielas empunhando uma trena posto a medir a largura das ruas e a dimensão das casas e palácios que se pusera a constituir. Espontaneamente, vendo que aquele alemão não deseja apenas extorqui-los, começaram a trazer-lhe madeira, telhas, tijolos e pedras, a título de colaboração.
Apesar de ter seus costados amparados no Nassau-Siegen, uma família de aristocratas germânicos que tinham raízes fincadas no Sacro Império Romano-Germando, o Conde José Maurício atendia a todos com muita simplicidade.
Desembarcando no nordeste do Brasil com uma equipe de arquitetos e engenheiros, o conde foi fundo na construção da Mauristaad, a cidade de Maurício. Célebres por aplacar tiranias do Mar do Norte, os técnicos de José Maurício “arquitetos da cultura”, devem ter achado bem mais fácil domar o Rio Capiberibe e secar mangues e os pântanos circunvizinhos à minúscula Recife de então,.
A intenção dele era fazê-la estupenda, a capital do império holandês das Américas (composto então por uma cadeia de fortalezas que iam do Forte Schoonenbourg, no Ceará, até o Forte Maurits, na embocadura do São Francisco, ao sul de Alagoas, uns 1,5 mil quilômetros mais ao sul). Controlado diretamente o açúcar de uma lado do oceano e o tráfico negreiro do outro, o “ouro doce”ficava inteiramente nas mãos da WIC (West Indische Compagnie), a grande empresa holandesa daqueles tempos, a qual ele representava como general-governeur (de 1637 a 1644).
Enquanto na Europa monarcas católicos e protestantes se enfezavam na terrível Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), João Maurício criou em Pernambuco o único espaço em que se praticou a liberdade religiosa, autorizando o funcionamento das igrejas católicas e da sinagoga judaica (aberta em 1642, a primeira da América do Sul), num raro convívio harmônico com os templos calvinistas.
Ao embarcar para Nieuw Holland, a Nova Holanda (o nordeste do Brasil), em outubro de 1636, na frota não trouxe apenas soldados, por por igual uma plêiade de naturalistas e pintores. Enquanto Frans Poste Albert Eckhout imprimiam em telas memoráveis as paisagens e os “exóticos” habitantes da província açucareira, usando na composição delas o que havia de melhor e mais avançado dos equipamentos de observação da época (são os únicos testemunhos pictóricos do Brasil do século 17), dois outros homens de ciência, o médico Wilhelm Piso e o naturalista alemão Georg Marggraf, lançaram-se ao estudo da farmacopeia local, das doenças tropicais, da fauna e da flora de um modo geral.
A expedição científica de Nassau, que se encerrou com a volta dele para a Holanda em 1644, depois de ele desentender-se com a Companhia, foi a única que o Brasil até então conhecera. Outra igual importância somente deu-se nos tempos de dom João VI, 175 anos depois!
Residindo por fim em Haia, José Maurício, que no seu diário deixou páginas de embevecimento com os anos que passou no Brasil, tornou o palácio de Stadhouder, do governo holandês, no Mauritshuis, uma galeria de arte. Há pouco, no 17 de junho passado, três cidades celebraram 400 anos do nascimento dele, ocorrido em 1604: Dillenbourg, na Alemanha, sua cidade natal; Recife, no Brasil, que ele transformou; e Haia, na Holanda, onde ele administrou. Para muitos “o parêntesis luminoso” de Nassau foi um dos poucos governos sérios que o Brasil teve nos seus primeiros três séculos.

*Historiador


Fonte: Zero Hora, página 8 de agosto de 2008, página 13.

Napoleão e a Egiptologia

Acreditam que o Império do Oriente e talvez a sujeição de toda a Ásia não valem uma bombacha e um turbante?” - Napoleão Bonaparte – 1798

Os preparativos para a expedição

      M.me. Monge exasperou-se. Não podia imaginar o seu Gaspard metido nos areais do Egito, assolado pelo frio noturno e pela incandescência diurna do Sol do deserto. Mas o jovem general Bonaparte insistia. Gaspard devia acompanhá-lo. Monge era um matemático celebérrimo e Napoleão não podia dispensá-lo da aventura que planejara. Convencida, Cathérine Huart, a esposa do Monge, concordou por fim que ele partisse. Assim como Monge, outros 166 sábios foram arrebatados pelo entusiamo do comandante, entre eles o químico Berthollet, o geólogo Dolomieu, o físico Fourier, Mechain, um técico em lunetas, e o grande naturalista Geoffrey de Saint-Hilaire. Até um aeróstata, Nocolas Conté, e um poeta chamado Parceval de Grandmaison embalaram-se. Contagiou Napoleão inclusive a École Polytechnique – a hoje celebrada Poly – inteira.
O governo do Diretório levantou as mãos aos céus por se ver livre daquele general de 29 anos com a ambição de um César. O jovem titã desembarcou da sua nau capitania, o L'Orient, em Alexandria, no Egito, no dia 1º de julho de 1798 – 40 dias após a sua partida do sul da França. Supõe-se que o lugar do desembarque dos regimentos de Bonaparte não distou muito dos das legiões de Pompeu, das de César e, depois, das de Otávio, que, quase 2 mil anos antes do conquistador francês haviam levado para aquele grande país as desavenças políticas da Roma Republicana.
A expedição militar francesa compunha-se de 300 navios e 35 mil soldados, além, naturalmente, do seu departamento de sábios. Devido à atenção que os cientistas mereciam da parte de Napoleão, não demorou muito para que os oficiais do Exército, ciumentos, apelidassem a corte de sábios de “amante favorita do general”. Daí entender-se a preocupação que Bonaparte teve para com eles, para com os cientistas, quando, na sua marcha para o Cairo, deu a cômica mais necessária ordem: les bêtes et les savant au demí! (os burros e os sábios no meio!), dita um pouco antes dele se deparar com as tropas inimigas na Planície de Guizé.
A estratégia de Napoleão ao atacar o Egito era atrair a Inglaterra para fora das Ilhas Britânicas, bloqueando-lhe o contato com seu império indiano. Azucriná-la bem longe de casa era sua meta. Evidentemente que o jovem general imaginava-se um outro Alexandre, tão moço e tão audacioso como ele. Napoleão – tal como o conquistador macedônio (que levara, em 334 a.C., um conjunto de especialistas e de filósofos gregos para estudar o Oriente) – queria somar à conquista militar os ganhos científicos que iria revelar ao mundo. Ao abrir o Egito aos olhos da Razão, esmiunçando-o com as lentes cartesianas, a ciência europeia iria afastar as milenares teias de aranha e o pó sagrado que envolviam
o passado daquele magnífico país, classificando os achados e recompondo-os pelo crivo crítico das Luzes.
Na época do Renascimento, muitos pensadores e filósofos, como Marcílio Ficino e Giordano Bruno, sentiam-se atraídos pelo seu mistério, pela escrita hermética que se acreditava provir de lá e pelos seus indecifráveis hieróglifos (tidos por muito como alfabeto de Deus). Nada disso desejava Napoleão. Nem mistérios, nem catar almas danadas vagando pelas tumbas ilustres, nem tentar desvendar segredos insolúveis. Isso era coisa para hierofantes e para místicos. Orientou seus sábios para que tudo o que fosse encontrado nas areias e nas tumbas do Egito fosse arrolado, estudado e classificado segundo os últimos recursos da ciência. Fugia-se da superstição e do ocultismo. Acreditavam os cientistas que aquilo que não se sabia no momento seguramente seria revelado no futuro. A Razão é paciente e perseverante.

A inspiração da expedição

A inspiração direta para a expedição ao Oriente Médio viera-lhe de uma obra que o impressionara: a “Voyage em Égypte et em Syrie”, do Conde de Volney, editada em dois volumes em 1787. Na época, Napoleão era um tenente pobre, mas visionário. Não seguiu Volney, no entanto, na sua indisposição anti-islâmica. Ao chegar ao Egito, na Proclamação aos Muçulmanos, afirmou: “nous sommes les vrais musulmans!” (nós somos os verdadeiros muçulmanos!)
Napoleão entendia que era uma rematada loucura indispor-se com a imensa população local por motivos de fé. Havia que respeitá-los. Surpreendeu seus próximos quando, no Cairo, trajando-se como se fora um xeque, um chefe do divã, de turbante e tudo, enfiou-se em longas conferências com os líderes religiosos islâmicos, orientando os imãs, os muftis e os ulemás para que interpretassem o Corão a seu favor. Proclamou-se cheik El Beled, o grande xeque do Egito, e émir Hagi, o encarregado e protetor dos peregrinos, cuidando para que todos os seus decretos fossem traduzidos para a língua árabe.
Depois de ter dado sovas na cavalaria mameluca, espantando-a a canhonadas – na célebre Batalha das Pirâmides – ele mesmo não resistiu em participar de algumas expedições. Em dezembro de 1798, na companhia dos sábios, Napoleão rumou para o Sinai, atrás do antigo Canal dos Faraós. Curiosamente, o relatório que o engenheiro-chefe J-M Père fez naquela época sobre os vestígios da desaparecida artéria também caiu nas mãos dos ingleses. Décadas depois, o diplomata Ferdinand de Lesseps, quando era cônsul da França, na cidade de Alexandria, em 1832, inspirou-se naquela exposição feita pelo seu compatriota para construir o Canal de Suez (inaugurado em 1869). Desde que vira a planta feita por J-M Père, Lesseps fora possuído pela ideia de reconstruir aquela artificial passagem soterrada nas areias do Sinai.

O início da Egiptologia

Em um só ano, a equipe dos sábios franceses tinha levantado enorme material. A tal ponto que Napoleão decidiu-se por fundar lá mesmo, em agosto de 1799, o Institut d'Egypte. Dividido em quatro seções, a função da instituição seria a publicação dos achados e tudo o mais que lhe dissessem respeito. Para tanto, escolheu como sede o mais belo palácio do Cairo, o Hassan Cachef, que se tornou o berço da moderna egiptologia. O próprio Napoleão inscreveu-se como membro do Departamento de Matemática.
Uma das maiores contribuições da expedição à ciência, entretanto, só iria revelar-se bem mais tarde, quando o próprio império napoleônico já tinha desaparecido. Em 1799, um soldado francês, deambulando perto da aldeia de Rosetta, encontrara uma estranha pedra. Descobriu-se que era um decreto de Ptolomeu V Epifanes (210 – 180 a.C. ) e que estava calcado em três línguas: o hieróglifo, o demótico e o grego. Mas ninguém, naquele momento, conseguiu decifrá-lo. Os ingleses se apoderam da pedra quando os franceses capitularam em 1801, levando-a para o Museu Britânico.
Coube a Jean-François Champollion, de apenas 32 anos, traduzi-la em 1822. ele, um gênio da filologia, dominava seis antigos idiomas orientais, fora o grego e o latim. Dois anos depois, em 1824, ele concluiu o seu “Précís du système hièrolyphique des anciens égyptiens”, que tornou-se a chave da revelação de todas as inscrições encontradas desde então nos templos, nas pirâmides, e nas tumbas reais do Egito.
Desde etão, um novo continente do conhecimento se abriu e, gradativamente, uma das mais antigas civilizações da Terra pôde, ainda que aos poucos, desvelar-se perante a curiosidade do homem moderno. A decifração dos hieróglifos feitas por Champollion foi um dos mais extraordinários legados do Iluminismo, enquanto a expedição de Napoleão ao Egito, apesar de só ter durado três anos e três meses, revelou-se, sob o prisma científico, uma das mais profícuas de todos os tempos.



Napoleão e a Campanha da Itália

O ano de 1796 foi aquele em que a carreira militar de Napoleão Bonaparte, então um jovem general republicano, decolou. Nomeado comandante dos exércitos franceses que acampavam na fronteira da Itália e inspirando-se em Aníbal, atacou de uma maneira fulminante as províncias italianas do império austríaco, as quais conquistou una sensacional operação relâmpago.

Um Mês e Tanto

“... não se pode mais amar um outro general depois de ter visto Napoleão agir”. Stendhal – Napoleão

O mês de março de 1796 foi um mês prodigioso para o jovem general Napoleão Bonaparte. No dia dois – após ter salvo o regime do Diretório com as canhonadas do Vindimário (seis de outubro de 1795), quando esmagou um levante monarquista – , recebera formalmente como compensação pelos serviços prestados a nomeação para assumir o exército da Itália. Uns dias depois, antes de desabalar-se para ir à guerra, esposou Josefina, a viúva Beauharnais, e, na metade do mês, estava em Nice, sede do QG do comando.

A Espera de um Comando

A França estava em pé de guerra há sete anos. A princípio contra sua própria nobreza, a quem exilou ou guilhotinou, depois lançou-se contra todo o feudalismo europeu, liderando a célebre guerra das choupanas contra os palácios. As convocações em massa feita na época da ditadura jacobina, entre 1793-4, haviam dotado a nação de meio milhão de homens em armas. Faltava ainda àquela multidão fardada o cérebro, a liderança, a espada que lhes indicasse o rumo a seguir. Alguém que transferisse a energia revolucionária, despertada pelos acontecimentos de 1789, na volúpia de uma guerra de conquista.

Um Exército de Pés-rapados

O velho exército real francês se desfizera. Centenas de oficiais experientes, devido a suas origens sociais e sua identificação com o Antigo Regime, haviam emigrado. Muitos deles colocando-se abertamente a serviços de monarcas que se mobilizavam contra a França. A república revolucionária tratou então de promover, no lugar deles, a gente comum, vindas das fileiras e daquilo que Balzac chamou de “a borra social”. Os companheiros de armas de Napoleão eram um ex-sargento, um ex-barbeiro e alguns oficiais subalternos. Ele mesmo era um joão-ninguém nativo da ilha da Córsega. Um dos seus ditos favoritos era assegurar que no regime dele “cada soldado francês trazia na mochila o bastão do marechalato!” Na França revolucionária, o exército, logo depois da política tornou-se uma “carreira aberta a todos os talentos”.


Muitas pessoas julgam o seu caráter pelo seu saldo bancário, por Lúcio Machado Borges*

Lamentável que muitas pessoas aqui no Brasil julguem um caráter de uma pessoa pela sua situação financeira, pelo seu saldo em sua conta bancária. Vejo que muitas pessoas julgam uma pessoa pela casa onde mora, ou pelo veículo que possui. Isso não significa muita coisa. Muitas vezes a ostentação pode ser fruto de atitudes criminosas. Algumas pessoas julgam as outras, por exemplo pelo fato de uma pessoa morar em uma vila (ou “comunidade”, no politicamente correto). Ora , a maioria das pessoas que residem em vilas são pessoas de bem, que saem cedo de casa para pegar a sua condução para ir trabalhar. Estas pessoas passam por verdadeiro sufoco, já que enfrentam todos os dias os precários meios de transportes que existem em todo o Brasil. Enfrentam ônibus sujos, em péssimo estado de conservação, veículos lotados, que não cumprem os horários e assim por diante.
Se a conta bancária fosse determinante para a formação de um caráter, em Brasília só teria gente boa e honesta. Infelizmente a falta de cultura existente neste país é que fazem as pessoas pensarem desta determinada forma.
Concordo que existe os malandros, mas a maioria das pessoas que passam por dificuldades financeiras muitas vezes atrasam as suas contas, mas não é por serem pessoas de caráter duvidoso, mas por não ter condições de pagarem as suas contas. Pessoas desempregadas muitas vezes acabam não honrando os seus compromissos e assim por diante. Também é verdade que muitas pessoas não conseguem emprego decente pela falta de qualificação ou até mesmo pela sua idade.
Espero que algum dia a sociedade brasileira evolua e se dê conta dessas coisas, destes preconceitos que infelizmente fazem parte da vida de milhares de brasileiros.

*Editor do site RS Notícias


Artigo escrito no dia 2 de junho de 2015

Mudança social: a transição Tang-Song

Dos vários movimentos de mudança durante o final da dinastia Tang, o de maior duração foi o de declínio das famílias aristocráticas que tinham dominado o governo. A dinastia Han Posterior viu uma distinção social marcada, embora não oficial, entre as famílias da elite (shi) e o povo comum (shu), além das pessoas humildes (jianmin). Em seu sentido original, o termo shi designava “servidores”, referindo-se à elite erudita que servia o Estado. Dos Han até o final dos Tang, o status “aristocrático” dos grandes clãs coincidiu com a posse de altos cargos no governo pelos membros desses clãs. As famílias da elite eram listadas nos registros sociais oficiais. O casamento entre elas e gente do povo era visto com maus olhos. Durante o período de desunião pós-Han, a elite era fonte de cerca de três quartos oficiais do governo. Durante o início da dinastia Tang, a proporção era de mais da metade e, mais tarde, de três quintos. Embora os clãs aristocráticos do Noroeste tivessem uma origem principalmente não-chinesa, eram uma grande fonte de funcionários para o governo central. Como diz Divid Johnson (1977), “Diferente da Inglaterra ou da França, onde um homem podia chegar a uma posição social de vulto por meio de uma carreira no direito, na medicina, no comércio, na igreja ou no exército, na China só havia uma hierarquia profissional significativa: a do serviço civil”.
A ausência de primogenitura na China significava que uma divisão equânime da propriedade entre homens era a prática mais comum em caso de morte do chefe da família. O código legislativo imperial exigia herança divisível e, assim, impediu o surgimento de uma nobreza latifundiária como ocorreu na Europa. Se um membro da família se tornasse um funcionário do governo por duas ou três gerações, a família mais cedo ou mais tarde entraria em declínio. Cada geração era potencialmente insegura e tinha de provar seu valor na vida oficial. O status decairia. No entanto, foi criada uma medida protetora em que os Tang mantinham vários grupos de status fora da burocracia categorizada a partir dos quais eles poderiam retornar ao serviço social.
As nomeações para cargos eram feitas por intermédio de recomendações, primeiro pelo prefeito, de quem se esperava a categorização de todos os membros da elite dentro de sua jurisdição conforme uma escala que acabaria por consistir em nove categorias, cada uma dividida em superior e inferior. As avaliações oficiais de cada candidato em sondagem para a nomeação eram acumuladas em dossiês. Com esse sistema, a elite perpetuava-se. Embora o sistema de exames tenha começado na época Sui-Tang, o processo de seleção de funcionários não prevalecia. O recrutamento era mais um processo social que legal, já que no campo social os contatos pessoais (guanxi) constituíam a matriz pela qual os candidatos a cargos progrediam e o status familiar era mantido. Por exemplo, os Wei do Norte criaram sua própria lista de grandes clãs e tornaram-na equivalente à lista chinesa, de forma que famílias de ascendência nômade podiam ingressar na vida chinesa em postos elevados. Foram elaboradas listas oficiais das genealogias dos grandes clãs entre 385 e 713 d.C., obviamente com base nas listas de recomendação enviadas pelos prefeitos. Essas genealogias estabelecidas eram as bases para os casamentos arranjados.
Os fundadores da dinastia Tang sentiram que esse sistema obstruía a probabilidade de talentos e sublevaram-se contra ele. Assim, as novas famílias sino bárbaras do Noroeste, que estavam tomando o poder nessa época, fizeram com que as grandes famílias chinesas a nordeste da planície do Norte da China sofressem um baque. Os fundadores da dinastia Tang também denunciaram os enormes presentes exigidos pelas famílias antigas quando suas famílias casavam. Em 659, houve um censo da genealogia nacional de duzentos capítulos, contendo 2.287 famílias de 235 clãs. Um dos objetivos da revisão era, evidentemente, conter as famílias do Noroeste.
No século VIII, aparentemente a manutenção de cargos tornara-se o principal critério de status familiar, e o pedigree dos grandes clãs perdeu importância. Agora tudo dependia da categorização oficial da pessoa listada, e não de suas origens familiares. Legalmente, os funcionários não eram mais considerados uma elite especial. Embora seus filhos recebessem uma categorização menor no código legal Tang, não havia mais um status de classe elevada assinalado no código que desse direitos especiais à nomeação para cargos. A instituição imperial tinha prevalecido sobre os interesses sociais dos grandes clãs.
Segundo Denis Twitchett (in CHOC 3) sugere, foi assim que os Tang iniciaram a transição do governo de famílias aristocráticas, em que a casa imperial era apenas primus inter pares, para o governo da China por uma burocracia treinada selecionada pelo mérito – em parte pelos exames. A decadência das famílias aristocráticas tornou o o poder central mais capacitado a dominar as regiões locais. O imperador se tornaria um governante sacrossanto isolado em seu palácio, distante dos companheiros de batalha e dependente dos conselheiros que ascendiam com a nova burocracia.
A perda do domínio do governo pelos clãs aristocráticos no final do período Tag foi acompanhada por outra grande mudança – o governo encerrou seu intenso domínio sobre a vida econômica chinesa. O colapso do sistema de campo igualitário de distribuição de terras rurais e dos mercados oficiais e preços fixos nas cidades mostrou que a economia estava crescendo além do controle estatal. As propriedades começaram a se acumular nas mãos dos magnatas locais. Procurando ancorar o poder estatal, o sistema de impostos foi racionalizado com o estabelecimento de cotas anuais a serem cobradas sobre a terra, e não sobre a pessoa, no verão e no outono. Ficar conhecido, a partir de 780, como o sistema de dois impostos, ou seja, a combinação de impostos territoriais com impostos prediais. As cotas de impostos eram estabelecidas previamente e forneciam alguma segurança ao governo central, embora o novo sistema tenha confirmado a incapacidade de o governo continuar controlando o enriquecimento individual e o livre comércio no país.
Após a rebelião de 755-763, a superintendência de comércio do governo também começou a decair. A política Tang tinha sido de conservar a regulamentação do comércio, para que os mercados oficialmente supervisionados com preços estáveis auxiliassem a produção camponesa e não permitissem a ignóbil propensão humana a perseguir o lucro. A venda tributária do comércio só era considerada importante quando ocorria uma crise fiscal, embora isso sempre acontecesse em épocas de necessidade militar ou decadência dinástica. A rede de comunidades comerciais da China (conforme descrita na Introdução) logo emergiria sob os Song e seria prolífica para o Estado controlar.
Finalmente, devido à rebelião de An Lushan, a China havia se militarizado, mesmo que os postos Tang na Ásia Central tenham sido tomados e a maior parte do Noroeste estivesse ocupada por um povo tibetano, os Tangut. Dentro da China, as novas províncias totalizavam, num primeiro momento, trinta unidades, a maioria sob governantes militares cujas guarnições lhe concediam poder sobre o governo local. Em contraste, o governo central quase não tinha exércitos próprios e foi várias vezes ameaçado de ser tomado pelos invasores Tangut. Após 763, o poder do imperador baseava-se precariamente em quatro regiões – a província metropolitana, a zona fronteiriça a noroeste, o baixo Yangzi e a zona ao longo do Grande Canal, que era o cordão umbilical da capital. Várias províncias do Norte da China mantinham-se fora do controle central e, assim, desfalcavam o sistema de impostos de renda de cerca de um quarto da população do império, deixando que as regiões do baixo Yangzi e do vale Huai fosse a principal fonte de renda da dinastia.
Após a rebelião, alguns poucos imperadores Tang conseguiram reorganizar-se e centralizou o poder, mas a época áurea dos Tang já passara. Nessa época, a Corte Interna estava abalada pela confiança do imperador no poder dos eunucos, enquanto a Corte Externa era destruída por um partidarismo extremo.
Em geral, a introdução do serviço civil Tang contribuiu para uma renovação do confuncionismo, outro aspecto da transição Tang-Song, sobre a qual a pesquisa mais recente é a de David McMullen (1988). Os Tang promoveram um desenvolvimento contínuo da cultura clássica por meio do sistema escolar, dos exames, do culto a Confúcio e do rtual estatal, bem como pela historiografia e a literatura secular. Esse crescimento da elite budista durante os Tang preparou o terreno para o florescimento intelectual dos Song do Norte.
Em 845, o imperador Tang decretou uma repressão ampla e sistemática aos monastérios budistas, como seus enormes latifúndios isentos de impostos e resplandescentes templos urbanos abrigando centenas de ocupantes. Duzentos e cinquenta mil sacerdotes e freiras foram obrigados a retornar à vida laica. Daí em diante, o governo controlou o crescimento budista por meio da emissão de todos os certificados de ordenação para monges. O esplendor dos Tang e o budismo chinês foram decaindo juntos.
As relações de poder no Norte da China nessa época sugerem que o verdadeiro interregno do poder central durou desde a rebelião de 755 até 979. Os governantes militares sobreviventes da dinastia Tang e seus sucessores estabeleceram regimes centralizados, conduzidos pessoalmente, que se tornaram o modelo de governo durante o interregno e no início da dinastia dos Song do Norte.
Em seu século final, os Tang foram uma lição concreta de anarquia. Os funcionários, tantos civis como militares, tornaram-se tão cinicamente corruptos e os camponeses aldeões foram oprimidos de modo tão grosseiro que o abominável virou lugar-comum. A lealdade desapareceu. A bandidagem assumiu o comando. Gangues glutinaram-se em hordas armadas, saqueando tudo o que viram pela frente, de província em província. Os imperadores, seus eunucos e funcionários perderam o controle e eram execrados. Por seis anos (878-884) o importante bandido Huang Chao liderou sua horda por todos os lugares da China, de Shandong a Fuzhou e Guangzhon, depois houyang e Chang'an, que foi destruída. Em 907, o fim oficial da dinastia Tang, os turcos e outros povos não-chineses ocuparam boa parte do Norte da China, e o poderio militar floresceu em outro lugar.
Desses escombros emergiram estados regionais conhecidos no Norte da China como as Cinco Dinastias e, no Centro e Sul, como os Dez Reinos. O problema do poderio militar generalizado só seria resolvido pela dominação de um exército imperial na nova capital, com a chegada da dinastia Song, em 960.


Fonte: China – Uma Nova História, páginas 91 à 94.

Migração, direitos humanos e dignidade, por Karina D'Avila

Esta semana a prefeitura de Porto Alegre foi surpreendida com a notícia de que o estado do Acre estaria enviando aproximadamente 400 imigrantes haitianos e senegaleses a Porto Alegre, seguindo o mesmo procedimento adotado em novembro de 2014. Relembrando o ocorrido naquela ocasião, em torno de imigrantes haitianos desembarcaram na rodoviária durante a madrugada em ônibus fretados pelo governo do Acre com recursos obtidos de convênio com o governo federal (Ministério da Justiça). No entanto, a maioria desejava rumar a São Paulo, Paraná e Santa Catarina, onde possuía amigos e familiares já estabelecidos e até garantia de trabalho.
Face à emergência configurada naquele momento visando a garantir os direitos fundamentais dos imigrantes, montou-se uma força-tarefa humanitária envolvendo Estado e município. Daquele grupo enviado pelo Acre permaneceram em Porto Alegre apenas nove imigrantes, que atualmente residem na Lomba do Pinheiro e trabalham na OAS. Durante o período que transcorreu até o recebimento do primeiro salário, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos acompanhou os imigrantes fornecendo cestas básicas e outros bens necessários emergencialmente.
A Prefeitura de Porto Alegre não desconhece a grave situação do abrigo para imigrantes em Rio Branco, bem como compreende que o estado do Acre não consegue oferecer condições mínimas de trabalho e renda ao grande contingente que tem migrado ao Brasil entrando por aquela unidade da federação. No entanto, embora se solidarizando com os imigrantes e empreendendo esforços para lhes oferecer a melhor acolhida possível, crítica a omissão do governo federal em adotar uma nova política migratória, mais humana e inclusiva, defendida na Conferência Nacional sobre Migrações e Refúgio no Brasil, e em não compartilhar com os municípios a responsabilidade de garantir os direitos humanos das pessoas em mobilidade que chegam a nosso país sem visto de entrada, a grande maioria pagando US$ 2 mil a US$ 3 mil a coiotes. Buscando emprego, casa e comida, visando a uma melhor qualidade de vida para si e suas famílias.
De outro lado, questiona o procedimento irresponsável do governo do Acre em relação aos imigrantes quando os envia a outras unidades federativas, algumas vezes diferentes daquelas onde desejavam se estabelecer, e por ter adotado, mais uma vez, a estratégia de não estabelecer contato prévio com os gestores municipais para lhes proporcionar espaço adequado ao planejamento da recepção e das ações necessárias para auxiliar as pessoas que chegam a se integrar nas cidades das quais foram enviadas.

Secretária adjunta de Direitos Específicos da SMDH/POA


Fonte: Correio do Povo, página 2 de 27 de maio de 2015.

Marca 'Hitler' provoca polêmica

Nova Délhi – A marca de sorvetes Hitler, êxito de vendas na Índia, tem provocado polêmica. Comercializados por todo o país, em lojas e por ambulantes, são alvos de crítica os sorvetes de casquinha Hitler Ice Cream Cones, marca que leva o nome e o rosto do ditador nazista. O jornal alemão Bild classificou a marca como um desrespeito e um “macabro truque publicitário”. Nas redes sociais, internautas estão pedindo que a empresa M.V.F. Products interrompa a distribuição dos sorvetes.


Fonte: Correio do Povo, página 6 de 1º de junho de 2015.

Manuel Antônio de Almeida – Dados Biográficos

1831

A 17 de novembro, nasce no Rio de Janeiro Manuel Antônio de Almeida, filho do humilde casal de portugueses.

1848

Após os preparatórios no Colégio São Pedro de Alcântara, e um curso de Desenho na Academia de Belas-Artes, matricula-se na Faculdade de Medicina.

1852-1853

Publica em folhetins semanais de “A Pacotilha”, mas Memórias de um Sargento de Milícias, sob o pseudônimo de “Um Brasileiro”.

1854

Publica em livro o primeiro volume do romance.

1855

Publica em livro o segundo volume do romance. Forma-se em Medicina, mas continua com os trabalhos em jornalismo.

1857

É nomeado diretor da Imperial Academia de Música e Ópera Nacional, cargo que ocupa até a extinção da entidade, em 1860.

1858

É nomeado administrador da Tipografia Nacional, onde conheceu o ainda aprendiz Machado de Assis.

1859

Ocupa o cargo de 2º Oficial da Secretaria dos Negócios da Fazenda.

1861

Publica o drama lírico Dois Amores, com música da Condessa Rafaela Rozwadowska. Falece no naufrágio do vapor “Hermes”, nas costas da Província do Rio de Janeiro, a 28 de novembro.


Fonte: Livro Memórias de um Sargento de Milícias

Mais verbas para o Samu

O governo federal está anunciando que vai liberar recursos para a manutenção do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu 192) em diversos estados, beneficiando municípios de São Paulo, Santa Catarina, Pernambuco, Minas Gerais, Goiás, do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, Paraná, Pará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão, Amazonas, da Paraíba e Bahia. Ao todo, o valor destinado para esse fim totalizará R$ 24,6 milhões, oriundos do Fundo Nacional de Saúde (FNS).
Pela Constituição de 1988, o país adotou o atendimento universal na Saúde. Essa sistemática levou milhões de pessoas a serem usuárias do SUS sem precisar de contrapartida financeira. O mesmo não ocorre na Previdência, órgão que só concede o benefício mediante contribuição. Com isso, o volume de verbas necessárias para dar conta das atribuições do sistema aumentou consideravelmente, inclusive para serviços paralelos, como o Samu. Sem dúvida, o primeiro atendimento, notadamente em casos de acidentes graves, é fundamental para que uma vida possa ser salva. Dessa maneira, é preciso investir para que as tarefas sejam cumpridas com celeridade.
Diante do contingenciamento implementado pela área econômica do governo federal, a expectativa é que setores essenciais como saúde, educação, segurança e saneamento não sejam atingidos. O Samu todos os dias evidencia sua relevância e sua valorização financeira permitirá que sua emergencialidade seja revestida da eficiência que dele se espera.


Fonte: Correio do Povo, editorial da edição de 2 de junho de 2015, página 2.