Cuba, entre resistência e necessidade

 Havana tenta sobreviver aos duros embargos dos EUA em meio à pior crise econômica desde o fim da União Soviética

Por Jurandir Soares

As velhas tensões entre os Estados Unidos e Cuba voltaram a ganhar intensidade nos últimos anos, recolocando a ilha caribenha no centro de uma disputa geopolítica que envolve também Rússia e China. Especialmente depois da ação norte-americana que desbancou Nicolás Maduro do poder na Venezuela. Washington alterna sinais de pressão máxima com gestos diplomáticos limitados, enquanto Havana tenta sobreviver à mais grave crise econômica desde o fim da União Soviética. O resultado é um ambiente de permanente instabilidade política e social, marcado por apagões, escassez de combustíveis e crescente descontentamento popular.


Ao mesmo tempo, enquanto setores conservadores nos EUA defendem o endurecimento total contra o governo cubano, outros grupos apostam na reaproximação gradual e no diálogo institucional. Entre ameaças de intervenção, sanções econômicas, processos judiciais e propostas de ajuda humanitária, a ilha caribenha segue sendo um dos temas mais sensíveis da política externa estadunidense, especialmente em um cenário internacional de rivalidade crescente entre as grandes potências.


PRESSÃO


A política dos EUA para Cuba voltou a ser influenciada por setores que defendem medidas mais duras contra o regime comunista. Nos últimos anos, parlamentares ligados à comunidade cubano-norte-americana da Flórida passaram a exigir ações mais severas, alegando violações de direitos humanos e repressão política. Embora uma invasão militar seja considerada improvável por especialistas, o simples fato de o tema voltar ao debate já provoca tensão em Havana. O governo cubano frequentemente denuncia supostos planos de desestabilização patrocinados pelos EUA, acusando Washington de estimular protestos internos e agravar a crise econômica. Além do embargo do petróleo, o que leva Cuba a enfrentar apagões quase diários, o problema afeta hospitais, transporte, comércio e a própria produção industrial, aprofundando o desgaste social do governo.


JUSTIÇA


Outro elemento de forte desgaste diplomático surgiu com iniciativas judiciais envolvendo o ex-presidente Raúl Castro. Grupos de exilados cubanos e autoridades norte-americanas voltaram a pressionar por responsabilizações relacionadas ao episódio de 1996, quando dois aviões da organização “Brothers to the Rescue” foram abatidos pela aviação cubana em espaço aéreo próximo à ilha, causando a morte de quatro pessoas. Cabe destacar que se torna difícil levar a julgamento nos EUA um homem que atualmente tem 94 anos.


DIPLOMACIA


Em meio às tensões, o secretário de Estado dos EUA, filho de imigrantes cubanos, apresentou uma proposta que gerou repercussão internacional. Marco Rubio defendeu o envio de ajuda humanitária de cerca de 100 milhões de dólares para Cuba, condicionando a distribuição dos recursos à Igreja Católica, sem participação direta de Havana. A proposta foi interpretada de maneiras distintas. Defensores afirmam que a medida poderia aliviar o sofrimento da população. Já o governo cubano considerou a iniciativa uma tentativa de interferência política e de enfraquecimento institucional, mas sinalizou disposição em aceitá-la para não se indispor ainda mais com a população.


REAÇÃO


A crescente pressão norte-americana provocou reações imediatas de China e Rússia, países com vínculos tradicionais com a ilha. Moscou e Pequim declararam oposição a qualquer tentativa de intervenção externa e reafirmaram o princípio da soberania. Para russos e chineses, Cuba representa não apenas um aliado político histórico, mas também um ponto estratégico no hemisfério ocidental.


A Rússia foi fornecedora de Cuba durante muitos anos, mas, desde o colapso da União Soviética, em 1991, essa ajuda e influência cessaram. Já a China, que busca expandir seus negócios globalmente, reduziu seu avanço na região depois que Donald Trump afastou os empreendedores chineses que controlavam o Canal do Panamá. Nesse cenário, Cuba permanece dividida entre a necessidade urgente de reformas econômicas e a resistência política de um sistema construído sob permanente estado de confronto externo.


Correio do Povo

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