Trump já definiu como terroristas 14 grupos na América Latina
Seis países da região foram alvo desse tipo de classificação, antes do Brasil
O Departamento de Estado dos EUA, comandado por Marco Rubio, um republicano com raízes familiares cubanas e base eleitoral na Flórida, já designou como terroristas grupos envolvidos em crimes de seis países da região: México (6), Colômbia (1), Venezuela (2), Equador (2), El Salvador (1) e Haiti (2).
Desses, apenas o Equador, de Daniel Noboa, e El Salvador, de Nayib Bukele, têm governos ideologicamente alinhados com Donald Trump e são considerados em Washington como parceiros no combate à criminalidade organizada transnacional. Os demais governos mantêm colaboração, mas divergem politicamente do presidente americano.
Noboa e Bukele estavam entre os líderes regionais convidados por Trump para a iniciativa Escudo das Américas, que discutiu combate à criminalidade, lançada em março, nos EUA.
Embora a lei americana não autorize ataques militares a partir da designação de terrorismo, é comum que organizações colocadas na lista sejam alvo de operações fora de seu território americano. Este cenário aumentou vertiginosamente as tensões entre os EUA e dois antigos aliados no combate ao crime organizado: México e Colômbia.
Nos últimos meses, a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, passou boa parte do seu tempo negando que os EUA tenham autorização para realizar qualquer operação dentro do México.
Já o presidente colombiano, Gustavo Petro, chegou a bater boca com autoridades americanas - incluindo Trump, que o acusou de ser narcotraficante. Na ocasião, Petro respondeu que o americano tem um "cérebro senil".
Segundo Petro, Trump costuma chamar líderes de "narcoterroristas" quando eles se recusam a atender a interesses econômicos dos EUA. "O rótulo que Trump me dá, de foragido do narcotráfico, é um reflexo de seu cérebro senil. Ele vê os verdadeiros libertários como narcoterroristas porque não entregamos nem o carvão nem o petróleo", afirmou o presidente colombiano, em janeiro, durante uma das muitas crises com Trump.
O fantasma de uma operação militar americana também é um temor do governo brasileiro. Antes da operação em Caracas, para capturar o ditador Nicolás Maduro, os EUA designaram como terroristas as facções venezuelanas Tren de Aragua e Cartel de los Soles, uma organização obscura que seria liderada pelo comando do exército venezuelano.
O Departamento de Justiça dos EUA chegou a acusar formalmente Maduro de liderar o Cartel de los Soles, mas depois recuou. A medida anunciada nos EUA tem duas etapas: inicialmente, PCC e CV serão classificados como grupos terroristas especialmente designados (SDGT, na sigla em inglês).
Assim, os chefes dessas organizações e todos aqueles que se associarem a eles podem ser rapidamente submetidos a sanções por parte do Departamento do Tesouro americano, que já conta com uma lista de 18 mil nomes, entidades e empresas que vem aumentando há décadas.
Em seguida, a partir de 5 de junho, segundo Rubio, as duas facções passarão a ser consideradas "organizações terroristas estrangeiras" (FTO, na sigla em inglês). Essa designação tem consequências mais sérias, pois equipara PCC e CV a grupos como Al-Qaeda e Estado Islâmico.
Grupos terroristas e narcotraficantes têm muito em comum: são criminosos que utilizam a violência para chegar a um objetivo. E é aí que as duas coisas se separam. Organizações como Al-Qaeda e Estado Islâmico têm propósitos políticos. Os cartéis de Sinaloa e Jalisco, assim como PCC e CV, visam ao lucro.
Organizações criminosas já sofrem restrições econômicas nos EUA, como bloqueio de ativos e de transações. Neste aspecto, a mudança de status parece irrelevante. No entanto, uma vez na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO), há também a criminalização do apoio material recebido por esses grupos.
Na prática, empresas e indivíduos podem sofrer penalidades severas por fornecer bens, serviços ou capital a qualquer membro de um grupo designado como FTO - ou pegar até 20 anos de cadeia se receberem, arrecadarem ou distribuírem dinheiro dessas organizações.
Esse cenário traz uma nova camada de risco para investidores na América Latina. Uma vez que o crime comum - como mostrou a Operação Carbono Oculto, no Brasil - está misturado com a economia legal, uma empresa pode estar sujeita à acusação de "apoio material" mesmo quando realiza transações aparentemente legítimas.
Estadão Conteúdo e Correio do Povo

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