Por que o El Niño deve se intensificar?






 A ilustração acima mostra a anomalia de temperatura do mar nas últimas semanas no oceano Pacífico Equatorial (entre as longitudes 100º Leste e 60º Oeste). Detalhe na ilustração que ela mostra a anomalia da temperatura das águas entre a superfície (0m) e 450 metros de profundidade. É um recorte vertical térmico do oceano. E o que salta aos olhos? Cresce rapidamente uma enorme área de águas muito mais quentes que o normal abaixo da superfície. A tendência é que esta grande quantidade de águas quentes no que se denomina tecnicamente de Onda Kelvin, alcance a superfície, o que deve determinar que as águas superficiais aqueçam nas próximas semanas. Hoje o El Niño no Pacífico Central (região Niño 3,4) é fraco com anomalia de + 0,7ºC, mas existe água até 5ºC mais quente que o normal abaixo da superfície. O Pacífico Equatorial Leste (Niño 1,2) já teve aquecimento rápido. Por isso, a crença da MetSul é que o episódio de El Niño fraco nos dias de hoje deve se intensificar no restante deste outono.


Fonte: Correio do Povo, coluna Tempo e Clima, página 19 de 16 de abril de 2015.

Padrão lembra Super El Niño de 1997/1998

O El Niño agora está nas manchetes, mas é tema na coluna Tempo e Clima do Correio do Povo há meses. Os australianos anunciaram o retorno do fenômeno agora, contudo a MetSul alerta desde o começo do ano e os americanos confirmaram em março. Volta do El Niño, assim não é novidade. O que é novo? O El Niño está configurado no Pacífico Equatorial e se intensificando. Hoje, a anomalia de temperatura da superfície do mar (TSM) no Pacífico Leste (Niño 1+2) de +2,3ºC é a mais alta da região desde 10/6/1998, quando a anomalia era de +3,0ºC no Super El Niño de 1997/1998. O Pacífico Central (Niño 3,4), área usada na classificação da intensidade do fenômeno, está com +1ºC, no limite de El Niño fraco e moderado, e aquecerá. Os sinais oceânicos e atmosféricos no Pacífico agora recordam muito maio de 1997, início do Super El Niño de 1997/1998, o que preocupa. Os efeitos de El Niño serão sentidos nos próximos meses com excesso de chuva e risco crítico de enchentes no Sul do Brasil, sobretudo no inverno e na primavera.


Fonte: Correio do Povo, página 19 de 14 de maio de 2015.

Os ensinamentos budistas

 Buda, que viveu provavelmente durante o século VI a.C. No Nepal, começou a vida como um aristocrata. Após renunciar ao seu palácio, harém e luxo, ele atingiu, por meio da meditação, uma iluminação na qual descobriu o grande princípio da roda da lei ou da roda do Buda. Isso pode ser definido como uma teoria da “origem dependente” da vida: que tudo está condicionado por outro fator em uma sequência fechada, de tal forma que a infelicidade da vida depende de certas condições e que, pela eliminação dessas condições, é possível eliminar a infelicidade em si. Então o desejo – que, em última análise, leva à infelicidade – origina-se da dependência das sensações, que, por sua vez, origina-se da dependência do contato e dos seis sentidos, e assim por diante. O objetivo budista, portanto, era cortar a corrente de condições que atava a pessoa a essa consequência de paixões, desejos e apegos. Dessa premissa de que a infelicidade é condicionada e que as condições podem ser destruídas, os primeiros budistas fizeram derivar muitas teorias.
Uma ideia central de grande interesse nos dias de hoje é a dos darmas. É, na verdade, uma teoria de elementos ou átomos de acordo com a qual uma entidade não existe em si, mas é formada por todas as suas partes. Os velhos monges budistas acreditavam que o homem é um mero composto dessas diversas partes ou darmas; ele não tem personalidade, alma ou ego. Existem vários tipos de darmas. Alguns estão ligados à forma e à essência, outros à sensação, e outros, à atividade mental. Vistos em conjunto, constituem uma bela explicação da experiência e formam uma base para a navegação da existência do ego. Isso era exatamente o que os budistas procuravam, como uma forma de escapar da infelicidade da vida.
Já que todos os elementos da experiência podiam ser analisados como dissociados, desconectados e atomizados, tanto no espaço como no tempo, sustentava-se que a devida percepção dessa verdade poderia levar à eliminação da ilusão do ego e a uma libertação da roda da lei. Esse tipo de fuga ou iluminação, como se preferir, tem sido perseguido por místicos do mundo inteiro e era buscado avidamente na China medieval.
O budismo, em seus primórdios, era institucionalizado em uma ordem monástica que pode ser comparada e contrastada com o monasticismo cristão de um momento posterior. Foram esses primeiros monges que finalmente registraram por escrito os sutras (sermões e ensinamentos tradicionais de Buda).
No momento de sua expansão do Norte da Índia em direção ao Extremo Oriente, a escola budista Mahayana ( o “grande veículo”) introduzira grandes mudanças as antigas doutrinas, tornando-as mais atraentes para a população e geral. Um desses desdobramentos era a ideia de salvação, que se tornou possível pelas intercessão dos bodhisattvas (ou “iluminados”), que tinham obtido a iluminação do Buda mas continuaram sua existência neste mundo para salvar os outros. A mais famosa dentre essas divindades era a deusa chinesa da misericórdia ou Guanyin, uma abstração do princípio da compaixão. Outra era o Buda da Luz Infinita, Amitabha (em chinês, Emitrofo ou O-mi-to-fo). A salvação de outras pessoas por meio dos esforços desses iluminados era possível devido à teoria de que o mérito era transferível. Junto a essa noção corria o conceito de caridade, que completava a fé budista original e fez dela na China e no Japão uma força social mais efetiva.
A escola Mahayana também desenvolveu uma doutrina positiva do nirvana, o estado que do objeto do empenho budista, mas o próprio Buda considerava tão indescritível que nada comentara sobre ele.
Os ensinamentos budistas foram estipulados pelo grande cânone budista ou tripitaka. A tradução dos sutras desse cânone tornou-se o principal trabalho dos primeiros monges de budistas da China. Ele e seus grandes criadores enfrentaram enormes problemas linguísticos e intelectuais – como fazer uma tradução do sânscrito, que era polissilábico, cheio de inflexões e alfabético como o inglês e como as demais línguas indo-europeias, para a escrita monossilábica, sem inflexões e ideográfica da China: e como transmitir com aquele meio lacônico e concreto as abstrações tão imaginativas e metafísicas do misticismo indiano.
Na tentativa de transferir ou “traduzir” suas ideias novas e estranhas em termos significativos para o público chinês, os primeiros missionários budistas deparam-se com o problema que desafiou todos os propagadores posteriores de novas ideias na China: como selecionar determinados termos chineses, caracteres escritos carregados de sentidos, preestabelecidos, e investi-los de novos sentidos sem deixar que, com isso, as ideias estrangeiras fossem minimamente alteradas, na verdade achinesadas. Por exemplo, o caractere chinês dão (“o caminho”), já bastante utilizado no daoísmo e no confucionismo, podia ser empregado tanto para o darma indiano como para a ioga ou para a ideia de iluminação, enquanto WUWEI, a “inação” do daoísmo, era empregado para nirvana. O resultado era no mínimo ambíguo, senão uma certa diluição da ideia original.
Ideias abstratas do estrangeiro, quando expressar em caracteres chineses, dificilmente conseguiam escapar de algum grau de achinesamento. Além disso, havia resistência a valores exóticos e indutores de corrupção social. Como observa Arthur Wright (1959), “A posição relativamente alta que o budismo dava à mulheres e mães foi modificada nessas primeiras traduções. Por exemplo, “Marido sustenta a esposa” virou “O marido controla sua esposa”, e “A esposa conforta o marido” ficou “A esposa reverencia seu marido”.
Os invasores não-chineses do Norte da China, do século IV em diante, aceitaram o budismo em parte porque, como eles, também ele era um elemento externo da velha ordem que estavam dominando. Os sacerdotes budistas podiam ser aliados na promoção da docilidade entre as massas. Para a alta sociedade chinesa que fugira para o sul, o budismo também oferecia explicação e consolo intelectualmente sofisticados e esteticamente satisfatórios para o colapso de sua velha sociedade. Tanto os imperadores como o povo buscavam a salvação religiosa em uma época de colapso social. Grandes obras de artes, estátuas e templos esculpidos em rocha são provenientes desse período. Comparações e contrastes frutíferos podem ser estabelecidos entre as funções do clero e do monasticismo, entre o crescimento das seitas e o relacionamento igreja Estado, durante essa era da fé budista na China e sua contrapartida cristã mais recente na Europa medieval. Os monastérios budistas, por exemplo, serviam de hospedarias para viajantes, locais de refúgio e fontes de caridade. Além disso, tornaram-se grandes latifundiários e assumiram cargos semioficiais na administração.
O período inicial de empréstimos e domesticação foi seguido por outro de aceitação e crescimento independente. O budismo nativo chinês foi influenciado pelo daoísmo e influenciou-o, por sua vez, em um grau até hoje controverso. Novas seitas surgiram na China, atendendo às necessidades chinesas. A mais conhecida hoje, por sua influência na arte oriental, era a escola que buscava a iluminação por meio de práticas de meditação (chamada em chinês de Chan, ou, na pronúncia japonesa, Zen). Talvez o que foi dito seja suficiente para indicar a interação tão complexa entre elementos como o budismo indiano, os invasores bárbaros, o daoísmo nativo e o crescimento, o florescimento e a decadência do budismo chinês.


Fonte: China – Uma Nova História, páginas 83 a 85.

O vírus HPV

Por Lia Nasser (lnasser@ig.com)

O clima está esquentando, parece que a coisa vai rolar, mas ôpa, cadê a camisinha? Não é só com a AIDS e com a gravidez que a gente deve se preocupar em prevenir quando transamos. As doenças sexualmente transmissíveis, como o papilomavírus humano (HPV), herpes genital, além de serem extremamente incômodas, podem se transformar em um baita problemão.
De acordo com o INCA (Instituto Nacional do Câncer), estudos recentes mostram que o HPV, um vírus que podemos pegar principalmente ao transar com um parceiro contaminado e com lesão no pênis, é o responsável por 99% dos casos de câncer do colo do útero. Outro dado importante é que estudos realizados no Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer apontam que 25% da população feminina no Brasil tem HPV, “Com destaque para os jovens” coloca o site do Hospital do Câncer. Os jovens representam o grupo com o maior número de infectados.
Isso acontece pois é na adolescência que as pessoas têm maior número de relações e mudam com mais frequência de parceiro e nem sempre usam preservativo.

Peculiaridades: importante saber

Assim como o herpes, o vírus HPV só se manifesta se a pessoa estiver com imunidade fraca, com resistência baixa. Existem muitas pessoas que têm um dos vírus HPV, mas não desenvolvem as lesões, tipo verrugas ou até mesmo câncer de colo de útero.
A ginecologista Mônica Andrade explica que o vírus se manifesta quando a pessoa que hospeda está com baixa imunidade. Isso significa que uma pessoa pode ficar vários anos hospedando o vírus mas não manifestar as lesões. Sentiu o perigo?

Saiba como identificá-lo

Este vírus atua dentro das células modificando-as e fazendo com que se multipliquem de forma desordenada. Ou seja, bagunça tudo dentro das células. As consequências são bastante desagradáveis – e perigosas.
Os sintomas são: verrugas genitais visíveis e perceptíveis pelo tato, pode causa ardor, vermelhidão e coceira na região genital. As lesões que são causadas no colo do útero não são visíveis. Daí a importância do exame ginecológico periódico.
No caso da doença se agravar, sangramentos e dor podem aparecer. Milhares de mulheres morrem por ano no Brasil por causa do câncer de colo de útero causado por alguns tipos de HPV (existem mais de setenta subtipos diferentes do vírus). Segundo o INCA, aproximadamente 3% das mulheres infectadas pelo HPV vêm a ter câncer.

Prevenindo

Camisinha na cabeça! Mesmo que você confie no seu parceiro, ele pode ter o vírus a bastante tempo e apresentar lesões no pênis “invisíveis” a olho nu, e por isso não precisa necessariamente te trair para te contaminar. Por isso é tão importante usar a camisinha mesmo que a pessoa te mostre o exame de AIDS negativo e que você não esteja em período fértil.
Com exames periódicos (do casal) é possível diagnosticar cedo qualquer lesão e controlar a infecção. Os exames importantes são: o famoso papanicolau, a vulvoscopia e a colposcopia. O exame que o parceiro deve fazer é a penioscopia (exame minucioso do pênis) e ele deve ser feito principalmente se o papanicolau estiver alterado. O tratamento deve ser feito em conjunto, ao mesmo tempo pelo ginecologista e urologista (para realizar o exame do pênis).
Procure o ginecologista pelo menos uma vez por ano. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia, somente 15% das mulheres no Brasil fazem regularmente os exames.

A contaminação acontece a dois”

Esta é uma frase da psicóloga Vera Zaccari, do Instituto Paulista de Sexualidade, segundo ela não existe culpado nos casos de contaminação de HPV, “cada um é responsável pelo seu corpo” diz ela. Não precisa ter preconceito da doença nem se sentir mal por isso.
O HPV não é uma doença só de gente promíscua e ter esse vírus não significa que a pessoa deve ter vergonha. Procurar ajuda e tentar aprender é o melhor caminho pra não acabar em uma enrascada. “Procure se conhecer, se toque, se olhe, fique atenta para seu corpo e conectada a ele”, diz a psicóloga. Todos estão sujeitos a pegar a doença e só você pode se proteger.

Fontes:
Mônica Andrade, ginecologista
Vera Zaccari, psicóloga do Instituto Paulista de Sexualidade

Sites:
Centro de Tratamento e Pesquisa
Hospital do Câncer – AC Camargo
Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer
Grupo de Virologia:

Instituto Nacional do Câncer

Sociedade Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia

Ministério da Saúde

Agência de Notícias dos Direitos da Infância


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O Tempo de Nassau

A invasão da Bahia só trouxe prejuízos para a jovem Cia. Das Índias Ocidentais. Em 1628, porém, a companhia capturou, ao longo de Cuba, a frota anual da prata espanhola e obteve um butim de 14 milhões de florins (o dobro do seu capital inicial). Enriquecida, a WIC planejou nova invasão ao Brasil. O alvo escolhido desta vez foi a maior e mais rica região produtora de aç[ucar do mundo. Além de possuir 130 engenhos (responsáveis por mil toneladas de açúcar/ano), Pernambuco era uma capitania particular, e não real, sendo, portanto, mal aparelhada na sua defesa. No dia 15 de fevereiro de 1630, uma armada com 77 navios, 7 mil homens e 170 peças de artilharia surgiu diante de Marim – mais tarde chamada de Olinda. Embora a resistência do governador Matias de Albuquerque (neto do velho donatário Duarte Coelho) fosse, mais uma vez, heroica – e, antes de partir, ele ainda conseguisse incendiar 24 navios fundeados no porto - , Recife foi rapidamente tomada. Desta vez, a ocupação iria durar mais de 20 anos.
O domínio holandês em Pernambuco (de onde se estendeu para sete das então 19 capitanias que constituíam o Brasil) divide-se em três fases. A primeira, de 1630 a 1637, seria marcada pela valorosa resistência lusa no interior. De 1637 a 1644, o Brasil holandês floresce em relativa paz: é o chamado “período nassoviano”. De 1645 a 1654, trava-se a guerra que resultaria na expulsão dos invasores. Três séculos e meio depois, a experiência holandesa no Brasil continua associada ao tempo de Nassau.
Johann Mauritius van Nassau-Siegen nasceu em 17 de agosto de 1604, em Dillenbourg, na Alemanha. Foi neto do conde João VI, que era irmão do príncipe Guilherme de Orange, fundador dos Países Baixos. Pelo lado da mãe, seu bisavô foi Cristiano III, rei da Dinamarca. Embora ingressasse aos 14 anos na carreira militar, Nassau teve formação humanista: na Universidade da Basileia, estudou teologia, filosofia, matemática, música, ciências de guerra, boas maneiras, esgrima e equitação. Tornou-se coronel aos 25 anos, lutou contra a Espanha, encomendou quadros de Rambrandt e iniciou a construção de uma mansão em Haia. Em agosto de 1636, foi convidado pela WIC para governador-geral do Brasil holandês. Como o salário de 1.500 florins mensais (mais um adiantamento de 15 mil florins e 2% sobre o total das presas de guerra) fosse atraente – e os gastos com a nova casa, grandes – , Nassau aceitou. Em 23 de janeiro de 1637, chegou a Recife, com 3 mil soldados, 800 marinheiros e 600 índios e negros.
Tolerante, competente, dedicado e ágil. Nassau fez um governo brilhante. Primeiro, tomou Porto Calvo, último foco da resistência lusa Depois, atraiu os plantadores luso brasileiros, concedendo-lhes empréstimos para reerguer seus engenhos – e os defendeu da agiotagem dos negociantes holandeses e judeus, limitando os juros a 18% ao ano. Deu liberdade de culto, tratou bem aos índios, aumentou a produção de açúcar, urbanizou Recife, protegeu os artistas, apaziguou o país. Foi um príncipe.


Foi nas terras baixas localizadas na confluência dos rios Capiberibe e Beberibe (Zona alagadiça que lembrava a Holanda) que Nassau ergueu a Cidade Maurícia, símbolo de sua administração. Ali, na ilha de Antônio Vaz (hoje bairro de Santo Antônio), construiu à própria custa, o Vrijburg, sua residência oficial, também chamada Palácio Friburgo ou das Torres. “No meio daquele areal infrutuoso, plantou um jardim e todas as castas de árvores de fruto que dão no Brasil”, escreveu frei Calado, padre luso que conheceu o lugar. Entre milhares de flores e frutos, Nassau plantou também 2 mil coqueiros. Fez um zoológico com todos os tipos de animais encontráveis no país. O conde adorava “que todos fossem ver suas curiosidades”.
Nassau não agiu apenas em benefício próprio. Deu ao povo pão e circo: contrário à mono cultura, obrigou senhores de engenho a plantar mandioca, “o pão do Brasil”. Por decreto, proibiu a derrubada dos cajueiros, já quase em extinção. Ladeou as ruas com mamoeiros, jenipeiros e mangueiras.
Proibiu por edital, “o lançamento do bagaço de cana nos rios e açúdes”, evitando mortandade de peixes que alimentavam os obres. Promoveu cavalhadas, peças de teatro e a famosa farsa do boi voador. Convocou a primeira assembleia legislativa democrática do continente. Permitiu a construção de sinagogas, aproximou calvinistas e católicos (só não fez concessões a jesuítas). O povo comparava a Santo Antônio, “a quem ninguém recorria sem ser atendido”.


Fonte: História do Brasil (1996), página 59.

O perigoso análogo que começa a aparecer

El Niño entre 1997 e 1998 foi um dos mais intensos registrados ao longo do século XX

Há sinais que nos próximos meses o El Niño poderia se intensificar muito, o que já é indicado por alguns modelos. Hoje, as águas estão muito mais quentes que a média no Pacífico Oeste (região Niño 4). Preocupam análogos, ano passado com condições parecidas e que oferecem sinais do que pode vir. No caso, o análogo que têm aparecido é 1997, ano que levou o El Niño forte. Nunca desde 1997, no período que precedeu o forte Niño, os ventos de Oeste (westerlies)estiveram tão intensos no Pacífico Oeste, o que tende a levar forte aquecimento do mar no Pacífico Central e Leste Equatorial. Há muita água quente abaixo da superfície e que deve alcançar a superfície do oceano. O nível de instabilidade atmosférica no Pacífico Oeste é o maior desde 1997. E há indicadores do Ártico com perfis Oeste é o maior desde 1997. Com forte El Niño, choveu demais com enchentes no Rio Grande do Sul no segundo semestre de 1997, sobretudo entre outubro e dezembro. O cenário está longe de definitivo, mas exige atenção.


Fonte: Correio do Povo, coluna Tempo e Clima, página 14 de 21 de março de 2015.

O mapa da mina

Por 200 anos, mais do que uma obsessão, o ouro – ou a ausência dele – fora uma maldição para os portugueses que viviam no Brasil. Ao contrário do que acontecia nos territórios conquistados pela Espanha, não havia, na terra do pau-brasil, “coisa de metal algum” como, em 1502, diagnosticara Américo Vespúcio. O padrinho do Novo Mundo fora mais cético do que o primeiro cronista do Brasil. Em abril de 1500, ao redigir sua carta para o rei D. Manuel, Pero Vaz de Caminha revelava toda a esperança dos descobridores em achar o “fulvo metal” na terra nova: o simples fato de um indígena ter olhado para o colar de ouro que ornamentava o peito de Cabral e, em seguida, apontar para as montanhas, foi tomado como sinal inequívoco de que, naquelas serrarias, deveria haver ouro, muito ouro.
A ilusão perduraria por dois séculos – e reclamaria muitas vidas antes de se tornar uma espantosa realidade.
Embora algumas pepitas tenham sido encontradas no sopé do pico do Jaraguá, em São Paulo, em 1590, e certos ribeiros do litoral do Paraná revelassem areia aurífera, o fato é que, até 1693, no Brasil quase nada do que refulgia era ouro – com exceção, é claro, da pedra conhecida como o “ouro de tolos”, a pirita. No entardecer do século 17, porém, Portugal e Brasil se encontravam numa crise financeira tão profunda que, em 1674, o próprio regente Pedro II (Coroado rei em 1683) escrevera aos “homens bons” da vila de São Paulo encorajando-os a partir para o sertão em busca de metais. Não dissera, em 1519, o capitão Hernán Cortez ao imperador asteca Montezuma que os espanhóis sofriam de uma “doença do coração que só o ouro pode curar”? Um século e meio mais tarde, Portugal e o Brasil estava de tal forma enfermos que só um Eldorado poderia salvá-los. Pois ele existia e logo seria achado - embora trouxesse outras moléstias.
Alguns historiadores acham que não se devem desconsiderar “os efeitos psicológicos” que as missivas reais teriam exercido sobre os 11 sertanistas que as receberam. Mas o fato é que aos bandeirantes de São Paulo não restava outra forma de manter suas vidas nômades senão caçando ouro: seus currais indígenas estavam esgotados. Ao rei também não sobrava outra opção: anos antes, enquanto perdurava a União Ibérica, foram enviados da corte especialistas em minas para estudar as potencialidades minerais do Brasil. O único deles que resistiu às agruras do sertão – o espanhol Rodrigo Castelo Branco – foi assassinado por Borba Gato, genro de Fernão Dias, assim que chegou à mina que o “caçador de esmeraldas” acabara de descobrir. Depois desse crime sem castigo, quem não fosse bandeirante e paulista não se arriscaria a percorrer os ermos do Brasil. Aos paulistas caberia a façanha de encontrar a maior jazida de ouro já descoberta no mundo. Mas não seriam eles que lucrariam com ela.
A discussão acadêmica sobre qual o primeiro ouro descoberto nas Gerais é tamanha que não restam dúvidas de que os achados foram simultâneos, o que indica também que havia várias expedições percorrendo a serra da Mantiqueira e os valores dos rios das Velhas e das Mortes em busca do metal. Borba Gato teria sido o primeiro a achar ouro, mas, após o crime de lesa-majestade que cometera, fora obrigado a se esconder em matos remotos. Em 1693, por sua vez, chegava ao Espírito Santo o paulista Antônio Ruiz de Arzão “com 50 e tantas pessoas, entre brancos e carijós domésticos de sua administração, todos nus e esfarrapados, sem pólvora ou chumbo”: vinham do sertão de Minas, onde, durante a caça aos escravos, haviam sido duramente atacados por ferozes cataguás. A expedição, porém, fora vitoriosa: entre os trapos que o cobriam, Arzão trazia 10 gramas de ouro. Impossibilitado de voltar ao sertão, deu o mapa da mina para o concunhado, Bartolomeu Bueno de Siqueira, que, pouco antes, perdera toda a sua herança no jogo. Siqueira partiu no rumo indicado e em janeiro de 1695 se viu obrigado a informar ao governador do Rio, Castro Caldas, que o ouro não era mais uma miragem: a “grandeza das lavras” e a “fertilidade das minas” eram evidentes. Em fins de 1696, já se contavam aos milhares os paulistas que saíam de Taubaté (ponto de partida de Arzão e Siqueira) rumo ao “sertão dos Categuases”, do outro lado da Mantiqueira. A jornada até as minas durava cerca de dois meses e meio e o roteiro conduzia de Taubaté a Lorena (via Guaratinguetá). Do vale do Rio Paraíba, cruzavam-se a serra da Mantiqueira pela garganta do Embaú atingindo-se, então, os três principais polos mineradores: nas nascentes do Rio das Mortes, tendo por centro São João del Rei; na região de Ouro Preto e Mariana, na serra do Tripuí, e no Sabará e sua vizinha Caetê. Em 1699, Garcia Paris (filho de Fernão Dias), abriu um caminho bem mais curto, que conduzia do Rio de Janeiro às minas em 14 dias. Nessa época, a região já populava com toda a espécie de aventureiros: levas de peregrinos que partiam de todos os os contos do Brasil, “os mais pobres deles só com suas pessoas e seu limitado trem às costas”.
De acordo com um cronista, eram “indivíduos tão alucinados que, vindos de distância de 30 ou 40 dias de jornada, partiam sem provimento algum – assim, pelo caminho, muitos acabaram de irremediável inanição e houve quem matasse o companheiro para lhe tomar uma pipoca de milho”. Um grande surto de fome assolou as minas em 1697-98. Muitos mineiros, com os alfajores cheios de ouro, morreram sem encontrar um pedaço de mandioca, pelo qual dariam uma pepita. Mas os horrores da fome seriam apenas os primeiros a cometer o efervescente sertão dos cataguás e as fulgurantes “minas de Taubaté”. Novas desgraças estavam sendo fermentadas.


Ouro branco! Ouro preto! Ouro pobre! De cada ribeirão trepidante e de cada montanha, o metal rolou na cascalhada para fauto d'El-Rei, para glória do imposto. Manoel Bandeira.
Manoel Bandeira.


Fonte: História do Brasil (1996), página 66.

O Japão e o confucionismo

 O japonês é o povo que mais poupa no mundo; tradição que vem de 2.500 anos atrás, com a filosofia de Confúcio, com os seguintes mandamentos: “Trabalho árduo, sacrifício pela família, pela empresa, fazer sempre o melhor, estudar muito, planejar tudo, colocar a poupança acima do consumo, sobrepujança da economia sobre a política e cultivar o orgulho nacional sob quaisquer condições.


1997/Brasil

O General Jacobino

Napoleão Bonaparte, poucos sabem, quando jovem oficial, esteve bem próximo dos jacobinos, em razão do que chegou a ficar preso por algumas semanas quando Robespierre foi deposto e executado em 1794. Graças às instâncias de Augustin Robespierre, o irmão do tirano, Napoleão Bonaparte tornou-se general aos 24 anos de idade – um general jacobino.

Fu vera gloria? Ai posteri l'ardua sentenza.”
(Foi verdadeira sua glória? Aos pósteros caberá a sentença)

Manzoni – Ode a Napoleão


Testemunhando uma humilhação

No verão de 1972, o jovem Napoleão Bonaparte, então um desconhecido tenente, um corso que vivia e se educara na França, caminhava com um amigo pelas ruas de Paris convulsionada quando resolveu acompanhar a multidão que se dirigia ao Palácio das Tulherias. A grande edificação era a morada de Luís XVI desde que ele fora removido de Versalhes três anos antes. Napoleão se indignou com que viu. Observou de longe o rei ser conduzido a força até a sacada do palácio e obrigado a vestir o barrete frigio, o gorro vermelho da revolução. Lá de cima, constrangido, ainda teve que abanar para a massa que exultava. Para Napoleão, tudo aquilo poderia ter sido evitado se o rei, como o mínimo de coragem, houvesse determinado a que disparassem uma precisa canhonada sobre aquela gente. Desprezou Luís XVI por sua hesitação e pusilanimidade frente “à hedionda populaça”. Ele, por sua vez, nunca esquecendo aquele 20 de junho de 1792, saberia dispor das baterias para fazer carreira. Jamais se deixaria aviltar frente às multidões, vindas elas em trajos civis ou em uniforme.

Leitor Voraz

Desde que se inscrevera em 1779, ainda um garoto, na Escola Militar de Brienne, na Champanha, e depois para a de Paris, onde foi aluno do matemático Monge e de Dagelet, que incendiou sua imaginação com seu relato de viagens feitas pelo mundo, aquele pequeno corso de comportamento recluso, revelara-se um leitor voraz. Em Brienne, para poder ler em paz nos recreios, chegou a construir no pátio da escola uma pequena cabana com folhagens para que não o atrapalhassem. Foi assim, em meio aos intensos exercícios de matemática, que deixou-se embriagar pela conquista da cidade santa pelos cruzados, narrada por Tasso no Jerusalém Libertada, experimentando então “as primeiras emoções da glória”, como assegurou ao conde de Las Cases, o seu memorialista (Memorial de Santa Helena). Nada escapava à sua curiosidade. Além da sua paixão pela história e pela geografia, devorou Voltaire, Rousseau, D'Alembert, Mably, o padre Raynal com a mesma tranquilidade que passou pelos clássicos antigos, particularmente pelas máximas de Plutarco e por Tito Lívio, e pelos grandes do teatro francês: Racine, Corneille e Molière.


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