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O fenômeno El Niño e o Atlântico Norte

O retorno do fenômeno El Niño pode prolongar ainda mais a trégua de furacões que os Estados Unidos vivem. A última vez que um furacão intenso (categoria 3, 4 ou 5)tocou na terra no país foi em 2005 na tempestade Wilma. Desde então, foram registrados ciclones tropicais intensos no Atlântico Norte, mas nenhum alcançou a costa norte-americana. O jejum de furacões intensos atingindo a área continental dos Estados Unidos, que já dura quase uma década ou mais de 3 mil dias, é sem precedente na história de monitoramento destes fenômenos que teve início ainda no século 19.O fenômeno El Niño, conforme a literatura especializada, tende a aumentar a divergência de vento do Caribe, que tem o efeito de não apenas reduzir o número de ciclones tropicais que se formam como reduzir a força dos que atuam na região. A ciência dos ciclones tropicais, porém, é exatamente complexa, e surpresas são possíveis. Outros fatores, como a areia trazida do deserto do Saara, podem interferir na gênese de tempestades da natureza tropical no Atlântico.


Fonte: Correio do Povo, coluna Tempo e Clima, página 12 de 5 de abril de 2015.

Os livros para os futuros leitores

O desenvolvimento literário e lúdico da primeira infância é promovido na Beteca, um dos espaços mais visitados da Biblioteca Pública Municipal João Palma da Silva, localizada no centro de Canoas. Em destaque, entre as atividades, está “contação” de histórias, realizada nas terças-feiras, das 10h e 15h, e, quartas, às 10h.

Coordenado há mais de 16 anos pelas servidoras Sônia Petry e Maristela Bongiorni, o local oferece também empréstimo de livros para os usuários. “A Bebeteca é um espaço destinado para crianças de zero a cinco anos, mas todas as idades são bem-vindas, já que nos dias de contação recebemos crianças, jovens e adultos”, ressaltam as funcionárias. Elas destacam a participação de crianças moradoras do bairro, parentes de frequentadores da biblioteca e do posto de saúde local são os que mais comparecem aos encontros fixos.

A dupla salienta que facilmente consegue identificar as crianças que têm o hábito de manipular livros. Segundo elas, normalmente, nos lares, brinquedos estão mais em evidência do que os livros. Quando o gosto pela leitura é estimulado, essa situação é transformada. Os pais são incentivados a contar histórias para os filhos já na gravidez. “Desde a gestação é importante que a mãe conte histórias ao seu filho. Desde muito pequena, ele prestará atenção no que está sendo falado, e por mais que não entenda a história, compreenderá que o tom da voz lhe causa bem-estar”, relata Maristela.

O funcionamento da Bebeteca é diário, das 8h30min às 18h, mas pode-se agendar visita orientada, com recepção do Boneco Juca, mascote do espaço, e contação de história, pelo telefone (51) 3462-1622.

BIBLIOTECA DO FUTURO

A Biblioteca do Futuro somente será aberta em 2113. O projeto conceitual da artista Katie Paterson foi estreado pela canadnse Margaret Atwood, que recentemente escreveu It's Scribbler Moon. A cada ano, mais 99 obras serão criadas por escritores. Todos os manuscritos serão armazenados em uma biblioteca pública de Oslo, na Noruega, onde foram plantadas mil árvores que serão usadas para imprimir 3 mil cópias dos trabalhos.

Livros são sorteados

Concurso cultural da biblioteca localizada na Estação do Mercado da Trensurb distribuirá um total de seis livros, três para um sócio atual e outros três para um novo associado. A promoção é válida até dia 30 de junho, e o sorteio será no último dia do mês. A iniciativa busca fazer com o que mais usuários do metrô tornem-se leitores assíduos. “Divergente”, de Veronica Roth, que será doado, encontra-se em destaque na lista de livros mais lidos. Os outros títulos são de Clarice Lispector.

Fonte: Arte&Agenda, capa da edição de 7 de junho de 2015.

O El Niño no Rio Grande do Sul em 2015

O El Niño passou de fraco (anomalia de temperatura da superfície do mar ou TSM entre 0,5ºC e 1ºC) a moderado (anomalia de 1ºC a 1,5ºC) no Pacífico Equatorial Central, a região Niño 3.4. A marca de +1,1ºC nesta parte do Pacífico foi a mais alta desde março de 2010, no El Niño de 2009/2010. Naquele evento, a maior anomalia no Pacífico Central foi de +1,9ºC, de El Niño forte, em dezembro de 2009. Já o Pacífico Equatorial Leste, a região Niño 1+2, alcançou uma anomalia de TSM nos últimos dias de +2,6ºC, a maior nesta parte do Pacífico desde junho de 1998, no Super El Niño de 1997/1998. Em agosto de 1997, o desvio chegou a +4,6ºC no Pacífico Leste. Modelos indicam que este evento atual do fenômeno seguirá se intensificando com tendência de muita chuva no Rio Grande do Sul agora no inverno e durante a primavera.


Fonte: Correio do Povo, coluna Tempo e Clima, página 12 de 13 de maio de 2015.

O declínio da dinastia Tang

O terceiro imperador Tang era, infelizmente, um fraco, embora a imperatriz Wu tenha compensado esse fato controlando o poder autocrático por meio século (de cerca de 654 a 705), primeiro por intermédio dele, depois por meio de seus jovens sucessores e finalmente, durante algum tempo, como imperatriz de uma dinastia recém-declarada. Única governante mulher que a China já teve, a imperatriz Wu era sempre uma política impecavelmente talentosa e hábil, mas seus métodos assassinos e ilícitos de conservação do poder arruinaram sua reputação junto aos burocratas do sexo masculino. Também incentivou o excesso de pessoal no funcionalismo e diversas modalidades de corrupção. Em 657, o governo Tang usava apenas 13,5 mil oficiais para controlar uma população estimada em cinquenta milhões. Obtendo uma milícia local (fubing) de fazendas autossuficientes e exigindo que elas cumprissem trabalhos em cada localidade, o governo cortou seus gastos. A administração ainda queria ver os fazendeiros independentes e donos legítimos de suas terras, e portanto, sob o sistema de campos igualitários (juntian), redistribuía periodicamente a terra segundo os registros populacionais. Mas ao passo que o segundo imperador governou por um método prático e ativo, trabalhando com seus conselheiros todos os dias, as manipulação da imperatriz Wu fizeram do poder imperial algo mais remoto, conspiratório e despótico. Ela rompeu o poder dos clãs aristocráticos do Noroeste e deu à planície do Norte da Chin maiores oportunidades de representação no governo. Os aprovados no exame tornaram-se uma pequena elite na oficialidade. O legado da imperatriz anda está em debate.
Sob o governo do imperador Xuangzong (que reinou de 713 a 755), os Tang atingiram o auge de sua prosperidade e esplendor, mas as falhas se acumulavam. Primeiro havia a exagerada expansão militar, terrivelmente custosa. As forças da dinastia Tang estavam em guerra nas fronteiras do Sudoeste da China e também se estenderam excessivamente ao oeste dos Pamirs. Lá foram derrotadas por exércitos árabes em 751, próximo a Samarkand. Nesse ínterim, a milicia fubing fora gradualmente transformada em uma força de guerra profissional organizada em nove divisões, em especial nas fronteiras sob o comando de um general com plenos poderes para rechaçar ataques. Alguns generais poderosos envolveram-se com a política da corte. À medida que a Corte Externa subordinada aos Seis Ministérios foi-se tornando mais ritualizada e sobrecarregada, os altos funcionários que a chefiavam como os chanceles – na verdade, delegados do imperador, governando em seu nome – foram se envolvendo cada vez mais em partidarismos mesquinhos, enquanto o imperador usava eunucos para sustentar seu controle da Corte Interna. Então, em sua velhice, Xuanzong apaixonou-se por uma bela concubina, Yang Guifei, e deixou o poder central decompor-se. Ela adotou como filho o seu general preferido, An Lushan, que se rebelou e tomou as capitais em 755. De 755 a 763, uma rebelião altamente destrutiva assolou o país. Quando o imperador abandonou sua capital e suas tropas exigiram a execução de Yang, a história de amor imperial chegou a um trágico (e eternamente) fim. O reino Tang foi restaurado nominalmente após oito anos, mas durante o próximo século e meio o poder dos Tang não voltou renascer de fato.
A derrota da rebelião de An Lushan resultou no estabelecimento de comandos militares regionais que depois se tornaram a base para um novo estrato regional da administração. Enquanto o controle sobre as regiões externas se evaporava, o regime Tang dentro da China teve de ceder poder aos militares. Não era mais capaz de governar a partir do centro com leis e instituições uniformes. A elite burocrática não conseguia sustentar procedimentos para toda a nação. Venceram o localismo e o particularismo, ea unidade nominal do Estado chinês tornou-se uma fachada sem substância.


Fonte: China – Uma Nova História, páginas 90 e 91.

O Ciclo da Mineração

Embora não tenha havido um Jack London para eternizá-la em meia dúzia de obras-primas da literatura, nem uma indústria como a de Hollywood para transformá-la num mito universal, o fato é que o Brasil não apenas teve a sua corrida do ouro como ela foi, no mínimo, tão dramática, vertiginosa e rentável quanto aquela que, em 1848, determinou a ocupação da Califórnia e a que, meio século depois, exportou para as lonjuras geladas do Alasca todos os horrores da civilização. Como em suas equivalentes norte-americanas, a febre do ouro que tomou conta do Brasil, no crepúsculo do século 17, revolucionou o país de todas as formas concebíveis: provocou um imenso desordenado êxodo populacional que esvaziou as cidades; causou enlouquecido aumento no preço dos escravos, dos rebanhos e dos víveres; forçou reformas políticas de vulto; levou milhares de índios à extinção e abriu novos caminhos de penetração, incorporando regiões até então ermas e inexploradas. Fez mais: estabeleceu a derrocada do ciclo do aç[ucar, deixando plantações entregues às ervas daninhas. Embora sua ressonância internacional seja, hoje, virtualmente nula, em seu auge a corrida do ouro brasileira revolucionou o mundo. Quase todo o metal arrancado das entranhas das Minas Gerais cruzou Lisboa apenas de passagem: as artimanhas do Tratado de Methuen, assinado em 1703, fizeram com que o minério brasileiro fosse parar na Inglaterra – e lá financiasse a Revolução Industrial da mesma forma como, um século antes, o ouro e a prata saqueados aos astecas e incas ajudaram a incrementar a revolução mercantilista.
É impossível quantificar os números da corrida do ouro de Minas Gerais: o contrabando foi, desde o início, uma regra mais constante e eficiente do que as normas para impedi-lo. Ainda assim, sabe-se com a certeza que as descobertas de 1693/94 de imediato tornaram o Brasil o maior produtor mundial de ouro da época. As estatísticas são muito mais variáveis, mas calcula-se que cerca de 840 toneladas do metal foram extraídas – sem auxílio mecânico – entre 1700 e 1799 (foram 270 toneladas entre 1752 e 1787; para fins comparativos: na década de 80, Serra Pelada produziu 350 toneladas).
A massa humana que dirigiu às minas entre 1700 e 1720 foi superior a 150 mil pessoas, das quais mais de cem mil eram escravos. Ao longo do século 18, cerca de 430 mil paulistas, cariocas, baianos, portugueses, índios e negros da Guiné ou de Angola percorreram as trilhas escabrosas que separavam o litoral do Sudeste do Brasil das serras da fortuna e da danação. “Todos os vícios tiveram morada na região das minas. Todas as paixões desencadearam-se ali; ali se cometeram todos os crimes”, escreveu o viajante francês Auguste de Saint-Hilaire, para quem os que lá estavam eram “a escória do Brasil e de Portugal”. Nas minas, matava-se por tudo e por nada. Nas minas travou-se a terrível Guerra dos Emboabas. Nas minas, mais tarde, quando o ouro ainda reinava, se descobririam diamantes – e o ciclo reiniciou, tão alucinado e voraz quanto antes. Nas minas, nasceu um gênio cuja arte eternizou - em altares, estátuas e capitéis – o esplendor de uma época de excessos e esperança. A obra do Aleijadinho e tudo o que restou dos áureos dias do Brasil.


Fonte: História do Brasil (1996), página 65.

O budismo e o Estado

A comparação entre o papel do budismo na China e do cristianismo na Europa mostra uma diferença marcante no plano político. Após a ressuscitação do poder central pelos Tang, o confucionismo foi se revigorando, sob a influência budista, para fortalecer o governo. A burocracia imperial acabaria por administrar a igreja budista com rédeas curtas.
A adaptação do budismo à maneira de ser dos chineses fica evidente, por exemplo, na educação. Como mostra Eric Zürcher (1959), o Caminho Budista era semelhante ao confucionismo no reforço da importância do comportamento moral. O aprendiz budista tinha de aprender inúmeras regras de conduta e lutar constantemente contra o pecado, o desejo e o apego. Tinha de observar as cinco regras: abster-se de matar, de roubar, de fazer sexo ilícito, de mentir e de usar tóxicos.
O sangha – ou comunidade de monges e freiras, noviços fiéis – tinha de cumprir um grande número de votos. Além disso, havia a realização de boas obras e caridade (uma ramificação que vem de tradição confuciana dos “contratos comunitários”, xiangyue, com Song e depois deles, conforme veremos.
Durante a época budista na China, de cerca de 500 a 850, o budismo não reduziu o poder do Estado como única fonte de ordem política e social. A alta cultura ainda era dominada pela elite secular dos literatos. Isso significa que a comunidade de crentes budistas era mantida rigidamente dentro de certos limites. Só depois do século VI os sangha como corporação tinham rompido seus laços com a sociedade externa. Com relação ao governo, chamavam por autonomia, livre de controle e impostos governamentais, e até incluíam as mulheres. Mais cedo ou mais tarde essa autonomia tornaria o budismo uma ameaça ao Estado.
Sob os Tang, a tendência era burocratizar o budismo com controle administrativo, concessão de títulos, venda de certificados de ordenação, compilação de um cânone budista e um sistema de sistema de exames clericais para selecionar talentos.. Os monges tinham de passar por em árduo programa de treinamento e estudo antes de ordenação. Os exames clericiais para os budistas, bem como os aplicados ao clássico metre confucionista, eram realizados pelo Ministério dos Ritos. A educação nos monastérios budistas que preparavam os monges para o sistema confuciano de exames pareciam predecessores das academias do período Song. Assim, o budismo, até o rompimento de 845, era circunscrito de forma consistente em seus esforços educacionais pela dominação mais antiga do ensino confucionista. No entanto, o budismo teria influência indireta, mais tarde, no amálgama conhecido como neoconfucionismo.
O budismo tinha prejudicado tão pouco a tradição política que o governo Tang teve relativamente poucos problemas em coibir o poder econômico dos monastérios. As várias perseguições a budistas, sobretudo no século IX, foram, em parte, uma luta para evitar o domínio de terras pela igreja e facilitar a aplicação de impostos sobre essas terras. Mas não houve luta entre igreja e Estado na China medieval comparável à que aconteceu no Ocidente.
A igreja – fosse budista ou daoísta – era praticamente incapaz de ser independente do Estado. Seus sacerdócios e templos eram muito descentralizados, dependentes da modesta contribuição local, mas sem congregações organizadas de fieis nem administrações nacionais, além de serem passivos acerca de questões políticas.
Imitando o exemplo budista, a religião daísta, diferente dos filósofos ou alquimistas, atingiu as massas com um panteão imponente e várias seitas, mas não conseguiu criar uma organização global. Os monastérios e templos daístas continuavam sendo unidades isoladas atendendo às crenças populares. Pela sua própria natureza, o daísmo não poderia se tornar uma força organizada com poder sobre a política chinesa: expressava uma alternativa ao confucionismo no domínio da crença pessoal, porém deixava o domínio da ação aos confucionistas.
Por outro lado, os daístas contribuíram para a tecnologia chinesa por meio das práticas alquímicas há muito exercidas, tanto na busca pela imortalidade quanto pela herança mais imediata da fabricação do ouro. Em suas experiências fisiológicas e químicas, descobriram elixires e pesquisaram ervas, organizando a grande farmacopeia chinesa da qual o mundo até hoje tem usufruído. Os alquimistas fizeram contribuições à tecnologia da porcelana, tintas, ligas metálicas e até outras invenções chinesas como a bússola e a pólvora. Várias de suas conquistas, conforme Joseph Weedham, eram “protociência, e não pseudociência”.


Fonte: China – Uma Nova História, páginas 88, 89 e 90.

Protesto contra reunião dos líderes do G-7, que começa neste domingo (7) na Alemanha, termina em confronto com a polícia

O apóstolo das cores, por Voltaire Schilling*

Minha mais íntima prioridade, a primeira, é que o espírito do meu avô renasça em mim e que me faça ser um cristão, um servidor de Cristo.
Vicent van Gogh, 1879-80

Não se sabe ao certo qando Théo van Gogh percebeu que por detrás das doidices e bizarrias do seu irmão Vicent, quatro anos mais velho do que ele, ocultava-se um gênio das artes. Talvez quando começaram a sua intensa correspondência, ao redor de 1872. Filhos de um pastor da igrejja holandesa reformada, nascidos nos grotões da Holanda, praticamente eram irmãos siameses: a dor de um era o sofrimento do outro. Vicent tentara de tudo na vida: de atendente de livraria a pregador evangélico. Um fracasso completo. Depois de um dos tantos desencantos amorosos que sofreu, teve um crise mística que o fez deixar Londres e embrenhar-se em Borinage, na zona carbonífera belga, para ir levar a palavra divina aos mineiros.
Lá imaginou-se Jesus, dormindo sobre palhas e mastigando pão duro, levando uma existência sofrida o mais próximo possível de uma expiação. Seus superiores acharam que aquilo era demais e o dissuadiram da carreira ministerial. Nesta ocasião, ele fez o esboço dos Comedores de Batatas (depois célebre retrato que se firmará como uma espécie de Santa Ceia dos Trabalhadores). Sim, porque em todas as ocasiões, como se fosse um possuído, ele não parava de desenhar.
Théo, por sua vez, empregado na Galeria Goupil em Paris, desde 1880 passou a sustentá-lo. Ao redor dos 30 anos, a aparência de Vicent era medonha. Seus cabelos vermelhos curtos, seus dentes estragados e suas roupas de mendigo compunham um visual de dar medo, assustador. A isso somava-se o seu temperamento esquisito. Van Gogh era um ouriço. Irritava-se com tudo e com todos, sofrendo surtos pavorosos de demência (supõe-se que resultante da sífilis e do alcoolismo), o que condenou à solidão, a expressar-se cada vez mais pelas gravuras.
Entrementes, nos campos da França assistia-se a uma revolução. Não pelas armas pelas paletas e tintas. Chamados jocosamente de !impressionistas”, uma nova geração de artistas, rompidos com a arte acadêmica, tomou as aldeias e vilarejos de assalto. Pintavam o que viam. As plantações, as flores e árvores, as nuvens, as pontes, as choupanas do povo miúdo, os camponeses empilhando o feno ou arando as terras etc. As cores, fortes ou fracas, eram dadas diretamente pela intensidade do sol ou pela ausência dele. Viviam na necessidade, alguns beiravam a miséria.
Não demorou para que Van Gogh, abandonando em 1887, o apartamento do irmão na Rua Lépic, nº54, em Montmartre, em Paris, se juntasse a esses apóstolos das cores, indo para Arles no sul da França, região onde o sol era intenso. Arrastou consigo Paul Gauguin, que antes havia se fixado em Port-Aven na Bretanha, liderando uma tribo de uns 20 artistas impressionistas. Foi então que deu-se a explosão da sua paixão pelo amarelo, cor do ouro, do trigo, a cor de Apolo.
Théo, entrementes, com pouco sucesso, fazia de tudo para vender as telas daqueles pobres loucos. Vicent transformara a pintura numa missão. Nada mais cristão para ele do que retratar os humildes e só simples em suas funções e a natureza fulgurante, viva e móvel que os cercava. Surgiu como se investido, como se um profeta pintor produzisse um Sermão da Montanha com pincel e tintas.
Anos depois do suicídio dele, ocorrido em Auvers-sur-Oise, em 29 de julho de 1890, quando pôs fima a sua vida dolorosa, seu sobrinho registrou que sua mãe, Jo Van Gogh-Bonger, a viúva de Théo (que morreu seis meses depois do irmão), tinha numa casa em que alugara em Bussum, no interior da Holanda, as paredes repletas com as obras-primas de Vicent. Hoje, somente quatro delas estariam avaliadas entre US$ 250 milhões e US$ 300 milhões! A ela é que se deve a primeira exposição de 473 obras de Van Gogh no Museu Municipal de Amsterdã, realizada em 1905. Fará um século em julho do ano vindouro. Duas mil pessoas acorreram para vê-las. Ainda riram das telas dele.

*Historiador


Fonte: Zero Hora, página 17 de 18 de julho de 2015.