O Tratado de Comércio e Navegação foi um acordo bilateral assinado em 19 de fevereiro de 1810 entre Portugal (sob a regência de D. João VI no Rio de Janeiro) e a Grã-Bretanha. Juntamente com o Tratado de Aliança e Amizade, ele consolidou a dependência econômica portuguesa em relação aos ingleses e moldou a estrutura comercial do Brasil no século XIX.
O acordo foi redigido com caráter perpétuo e imutável, embora houvesse uma cláusula que permitia revisão após 15 anos. Na prática, foi o preço pago pela proteção naval britânica durante a vinda da Família Real para o Brasil em 1808.
📉 O Desequilíbrio das Tarifas Alfandegárias
O ponto mais controverso do tratado foi o estabelecimento de impostos de importação (ad valorem) que privilegiavam abertamente os produtos britânicos, criando uma hierarquia desigual:
Produtos Ingleses: Taxa de 15%.
Produtos Portugueses: Taxa de 16%.
Outras Nações: Taxa de 24%.
Essa configuração fez com que as mercadorias inglesas fossem mais baratas no Brasil do que as próprias mercadorias vindas da metrópole (Portugal), garantindo o domínio britânico sobre o mercado consumidor brasileiro.
🏛️ Privilégios Jurídicos e Religiosos
O tratado resgatou e ampliou concessões históricas que garantiam aos súditos britânicos uma "nação dentro da nação":
Juiz Conservador: Os ingleses residentes no Brasil tinham direito a um magistrado exclusivo para julgar suas causas, com a justiça britânica prevalecendo sobre a portuguesa.
Liberdade de Culto: Em um império oficialmente católico, os ingleses receberam permissão para praticar sua religião (Anglicanismo), desde que seus templos não tivessem aparência externa de igreja (como torres ou sinos).
Imunidades Fiscais: Facilidades no parcelamento de impostos e proteção contra cobranças arbitrárias nas alfândegas.
🚢 Impactos Econômicos e Sociais
A abertura forçada do mercado trouxe consequências profundas para a formação econômica do Brasil:
Sufocamento da Indústria Local: A invasão de tecidos e manufaturas inglesas de baixo custo impediu o desenvolvimento de fábricas e manufaturas nacionais, que não conseguiam competir com a tecnologia da nascente Revolução Industrial.
Déficit Fiscal: Como o governo não podia aumentar o imposto de importação (preso aos 15%), restou a alternativa de taxar as exportações agrícolas em 8%, o que gerava tensão com a elite escravagista e produtora.
Controle Marítimo: O artigo 21 do tratado permitia aos ingleses controlar o transporte marítimo, limitando o comércio brasileiro com outras colônias e forçando o escoamento de riquezas para Londres.
⚖️ Críticas e Legado Histórico
Historiadores como Eduardo Galeano e Celso Furtado apontam que o Tratado de 1810 foi um instrumento de dominação colonial. Galeano destaca que a pressa na assinatura foi tamanha que erros grosseiros de tradução foram mantidos (como a palavra policy sendo traduzida como "polícia" em vez de "política").
O tratado serviu para enriquecer as cidades portuárias e a Inglaterra, enquanto o interior do Brasil permanecia subdesenvolvido e dependente. Foi apenas com a Tarifa Alves Branco, em 1844, que o Brasil conseguiu romper com essa lógica e aumentar significativamente suas receitas alfandegárias.
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