Michel de Montaigne: o inventor do ensaio e o filósofo da inconstância humana

 


Quem foi

Michel Eyquem de Montaigne (28 de fevereiro de 1533 – 13 de setembro de 1592) foi um filósofo, escritor e magistrado francês do Renascimento. Nascido e morto no Castelo de Montaigne, em Saint-Michel-de-Montaigne, é considerado o criador do gênero literário ensaístico e um dos fundadores do moralismo francês.

Humanista, cético e herdeiro da tradição do neopirronismo e do humanismo renascentista, Montaigne inaugurou uma forma descontínua e pessoal de escrever, que rompeu com a prosa doutrinária da época. Sua obra maior, os Ensaios (Essais), é um autorretrato intelectual e humano.

Biografia

Filho de família nobre e rica, Montaigne foi criado nos primeiros anos por uma ama de leite numa aldeia de camponeses. Sua mãe tinha ascendência de judeus portugueses. Seu pai contratou um tutor alemão que só falava latim com ele — por isso, o latim foi quase sua língua materna.

Estudou no célebre Colégio de Guiana, em Bordéus, onde teve como diretor o português André de Gouveia. Formou-se em Direito e foi magistrado em Périgueux (1554-1570) e depois em Bordéus, onde fez amizade profunda com Étienne de La Boétie.

Em 1565 casou-se com Françoise de La Chassagne, onze anos mais jovem. Tiveram seis filhos, dos quais apenas Leonor sobreviveu à infância. Foi tio materno de Santa Joana de Lestonnac.

Com a morte do pai, em 1568, herdou o título de Senhor de Montaigne e a propriedade da família, o que lhe garantiu independência financeira. Vendeu seu cargo de magistrado em 1570 e, em 1571, retirou-se para seu castelo para escrever — num período marcado pelas guerras de religião entre católicos e protestantes.

O retiro foi interrompido por missões políticas. Correspondia-se com Henrique de Navarra, futuro Henrique IV. Foi condecorado cavaleiro da Ordem de Saint-Michel por Henrique III em 1571 e cavaleiro da Câmara do Rei por Henrique IV em 1577. Chegou a ser preso por um dia na Bastilha durante uma missão de paz em Paris.

Viajou por dois anos pela Suíça, Alemanha e Itália (1580-1581), experiência registrada no Journal de Voyage, publicado apenas em 1774. Ao voltar, foi prefeito de Bordéus entre 1581 e 1585.

Os Ensaios

Montaigne levou nove anos para escrever os dois primeiros livros dos Ensaios. Foram publicados em três versões principais: os livros I e II em 1580, reeditados em 1582 e 1587; em 1588 saiu a edição com o livro III; e em 1595 a edição póstuma, organizada por Marie de Gournay e Pierre de Brach, com acréscimos manuscritos.

Os Ensaios não são um sistema filosófico, mas um exercício de auto-observação. Montaigne se pinta em toda sua complexidade — dos temas mais elevados da Antiguidade Clássica a assuntos cotidianos como a flatulência. Ao se estudar, acaba estudando o Homem em geral. Para ele, a verdade absoluta não está ao alcance humano, apenas verdades por aproximação.

A obra influenciou decisivamente a filosofia moderna ao questionar a ideia de um Eu sólido e substancial.

Filosofia: a inconstância

Para Montaigne, tudo está em movimento constante. "A própria constância não é outra coisa além de um movimento mais lânguido".

Por isso, o homem não tem coerência fixa. No capítulo "Sobre a inconstância de nossas ações", afirma que agimos conforme as circunstâncias do momento, mais do que por traços estáveis de personalidade. Daí a famosa ideia: pode haver tanta diferença dentro de uma mesma pessoa quanto entre duas pessoas diferentes.

"Somos levados como uma marionete de madeira pelos músculos de outro. Não vamos, somos levados: como as coisas que flutuam, ora suavemente, ora com violência, dependendo se a água está revolta ou serena".

Disso decorre a fluidez do julgamento, das opiniões e dos costumes: "Flutuamos entre diversas opiniões: nada queremos livremente, nada absolutamente, nada constantemente".

Montaigne, porém, não é totalmente coerente nesse ponto — o que é, aliás, montaigniano. Em "Sobre a crueldade", reconhece a existência de caráter e a possibilidade de controlar paixões como a vingança, o que sugere maior governo sobre si do que no capítulo sobre a inconstância. É dessa tensão que nasce sua reflexão sobre educação.

Educação

Crítico da educação livresca e mnemônica, Montaigne defendia um ensino voltado para a experiência e para a ação. A escola de seu tempo, dizia, exigia muito tempo e esforço decorando textos, afastando os jovens dos problemas urgentes da vida. O objetivo da educação deveria ser formar homens aptos ao julgamento, ao discernimento moral e à vida prática.

Descoberta dos restos mortais

Em novembro de 2019, o Musée d'Aquitaine, em Bordéus, anunciou que restos mortais encontrados no porão do museu um ano antes poderiam pertencer a Montaigne. A investigação, interrompida pela pandemia de Covid-19, foi retomada em setembro de 2020.

Principais obras

  • Essais (1580-1588) - edição póstuma em 1595
  • Journal de Voyage (escrito em 1580-1581, publicado em 1774)

No Brasil, entre as traduções: Os Ensaios (Companhia das Letras, 2010, trad. Rosa Freire d'Aguiar); Ensaios (Martins Fontes, 2000/2001, trad. Rosemary Costhek Abílio); e a edição integral da Editora 34 (2016, trad. Sérgio Milliet, 1032 p.).

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