Dólar cai 0,20% nesta sexta-feira, mas fecha a semana em alta de 2,04% com Fed mais duro

 Moeda norte-americana sobe 2,04% na semana e mercado reage a falas do Fed e Copom

A moeda encerra a semana com valorização de 2,04% no mercado local Foto : Valter Campanato / Agência Brasil / CP


O dólar recuou frente ao real nesta sexta-feira, 19, alinhado ao comportamento predominante da moeda norte-americana no exterior, embora alguns pares emergentes da divisa brasileira tenham apresentado depreciação moderada.


Sem indicadores domésticos relevantes e com liquidez reduzida - diante da ausência de negócios nas bolsas de Nova York e no mercado de Treasuries em razão do feriado nos Estados Unidos - investidores promoveram ajustes de posições no mercado local de câmbio. O dólar à vista encerrou o dia em baixa de 0,20%, a R$ 5,1648, após mínima de R$ 5,1332.


Declarações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), negando a intenção de mexer nos pisos constitucionais da saúde e da educação e na vinculação do salário mínimo, podem ter contribuído para a redução das perdas do dólar à tarde, embora operadores ressaltem que o giro fraco possa provocar distorções.


Com a baixa desta sexta, houve apenas uma devolução muito modesta da alta de 1,32% da quinta-feira, sob o impacto do discurso duro do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) e do desconforto com a comunicação do Comitê de Política Monetária (Copom).


A moeda encerra a semana com valorização de 2,04% no mercado local, o que eleva os ganhos acumulados em junho para 2,42%, após avanço de 1,82% em maio. No ano, as perdas, que chegaram a superar dois dígitos no início de maio, quando a taxa de câmbio rondava R$ 4,90, agora são de 5,91%.


O gestor de fundos multimercados da AZ Quest, Eduardo Aun, observa que o tom duro do Fed, reforçado pelo compromisso firme do novo presidente, Kevin Warsh, com a estabilidade de preços, é um vetor adicional de fortalecimento da moeda norte-americana.


Ele ressalta que o dólar já se encontrava em trajetória ascendente, em meio ao renovado otimismo em relação aos ativos americanos nos últimos meses, em especial por conta dos investimentos em inteligência artificial.


"Eu concordo com a leitura do mercado de alta de juros nos EUA neste ano, porque a atividade permanece resiliente, com impulso fiscal e investimentos das empresas de tecnologia. É provável ainda que a taxa de desemprego caia, o que vai aumentar a pressão inflacionária", afirma Aun, ressaltando que o acordo de ampliação do cessar-fogo no Oriente Médio tende a aumentar o apetite por ativos americanos e favorece ainda mais o dólar. "É um ambiente bem mais desafiador para o real."


Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis divisas fortes, o índice DXY operava em alta de 0,11% às 17h, aos 100,734 pontos, após máxima de 101,127 pontos, maior patamar em mais de um ano. O Dollar Index acumula ganhos de 1,93% na semana e de 1,81% em junho. Em 2026, avança 2,49%.


Na avaliação do Goldman Sachs, o tom duro do Fed é mais relevante para a dinâmica global do dólar do que o cessar-fogo no Oriente Médio, uma vez que a resolução do conflito já era, em certa medida, esperada. A avaliação é de que a mudança de postura do Fed representa a substituição de um fator positivo para o dólar - a aversão ao risco e a busca por proteção com a eclosão da guerra - por outro "ainda mais poderoso".


No caso do real, o Goldman aponta o aumento da instabilidade política, com a proximidade das eleições de outubro, como um possível indutor da "deterioração da relação entre carry e volatilidade".


O Goldman acrescenta que a postura mais "dovish" do Copom nesta semana "aumenta os riscos de menor apoio do banco central" para a moeda "em um período de maior volatilidade".


Aun, da AZ Quest, ressalta que o real passou a apresentar desempenho inferior ao de seus pares desde o Flávio Day 2.0, em 13 de maio, quando o site The Intercept Brasil revelou a relação de proximidade entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master. Ele pondera que a questão eleitoral parecia ter efeitos limitados sobre os preços dos ativos domésticos porque havia grande otimismo dos investidores estrangeiros em relação ao Brasil.


"O mercado já está preocupado com a eleição e precificando uma chance grande de Lula ser reeleito, o que traz preocupação com o futuro da política econômica e aumenta o prêmio de risco. Já vemos isso mais na curva de juros futuros", afirma Aun, ressaltando que o elevado "carrego" ainda dá algum suporte ao real, apesar do aumento dos ruídos locais e da tendência de fortalecimento do dólar no exterior.


Bolsa

O Ibovespa operou lateralizado nesta sexta-feira, sem referência das bolsas de Nova York por conta do feriado de Juneteenth e sob liquidez reduzida. Na semana, o índice acumulou queda de 1,64%, pressionado principalmente pela expectativa de alta de juros nos Estados Unidos - e que pode influenciar a política monetária brasileira - ainda em 2026. Os investidores aguardam uma nova rodada de negociações sobre o programa nuclear do Irã, após adiamento, e a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) para montar posições mais firmes.


Volátil desde cedo, o Ibovespa oscilou por uma faixa estreita, de pouco mais de mil pontos da mínima de 167.657,53 (-0,37%) pela manhã até a máxima de 168.786,54 (+0,30%) à tarde, por fim fechando aos 168.333,61 (+0,03%) pontos.


Com a queda semanal, aprofundou as perdas do mês de junho para 3,14% e limitou os ganhos do ano a 4,47%.


Em relação ao desempenho limitado do índice brasileiro nesta sexta, Bruna Centeno, sócia advisor da Blue3 Investimentos, nota que o feriado nos EUA deixou a liquidez reduzida e o compasso do investidor foi mais de espera, após a Superquarta e a quinta-feira terem sido dias de bastante movimentação.


"Como metade do fluxo vem do mercado externo e principalmente dos EUA, o feriado em NY faz com que haja menos movimento", afirma.


O giro financeiro de R$ 27,49 bilhões no Ibovespa hoje só não foi menor por conta do vencimento de opções sobre ações.


Entre as blue chips, as ações da Petrobras fecharam em direções opostas, com alta de 0,49% da ordinária e queda de 0,13% da preferencial. Já Vale subiu 1,01% e os grandes bancos, em sua maioria, caíram - com exceção de Santander Unit (+0,60%).


Principal foco dos mercados há meses, a novela envolvendo o Oriente Médio ainda parece distante de ter um final definitivo. As negociações entre EUA e Irã para tratar da questão nuclear, previstas para esta sexta, foram canceladas após intensos combates entre Israel e Hezbollah no sul do Líbano, segundo a Associated Press.


Como resultado, os contratos futuros de petróleo subiram quase 1%, com Brent a US$ 80 por barril.


Contudo, para a economista-chefe da Coface Latin America, Patricia Krause, o mercado parece entender que as conversas devem ser remarcadas - "caso contrário, haveria disruptura total e o preço do petróleo teria subido ainda mais", afirma.


Há, ainda, relatos de melhora de fluxo no Estreito de Ormuz, então a semana em termos geopolíticos foi, em geral, otimista, considera.


O presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou no período da tarde que o Irã foi derrotado militarmente. Também chamou o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, de "volátil" e diz que não pensa muito nele.

Ambas as declarações, contudo, não fizeram grande preço para a Bolsa brasileira. "O Trump precisa resolver uma questão mais urgente, o conflito com o Irã. O trade eleitoral ainda não tem força", afirma Centeno, da Blue3.


Nesta sexta-feira, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou em entrevista ao SBT News que não pretende dar fim aos pisos constitucionais da saúde e da educação, nem acabar com a vinculação do salário mínimo à inflação ou realizar uma reforma da Previdência.


A declaração foi lida por profissionais de renda fixa como contrária à ideia de ajuste fiscal e induziu uma alta mais expressiva dos juros futuros, mas não chegou a ter impacto significativo para a renda variável.


Para a sócia advisor da Blue3 Investimentos, além da questão no Oriente Médio, os investidores ficam no aguardo da ata da reunião de junho do Copom, prevista para a próxima terça-feira, 23. "Estamos naturalmente em compasso de espera pelo ponto de desdobramento de EUA e Irã, que influencia o preço do petróleo, e os próximos passos para juro. Por ora não há clareza, firmeza, para se posicionar 100%", disse.


Foi inclusive a política monetária que justifica a maior parte da queda do Ibovespa nesta semana, segundo Krause, da Coface. "A comunicação de perseguir inflação e a mudança no gráfico de pontos indicando alta de juros esse ano pelo Fed pesou", disse ela.


Juros

Os juros futuros, a partir do trecho intermediário, completaram quatro sessões seguidas de alta, em dia marcado pela liquidez fraca, dada a ausência de negócios em Wall Street e a agenda de indicadores esvaziada. O viés de alta que prevalecia pela manhã, à tarde deu lugar a avanço firme das taxas em toda a extensão da curva, na esteira de declarações do pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, e de ajuste técnico puxado por fundos locais.


No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 marcava 14,255%, de 14,246% no ajuste e 14,235% no fechamento. O DI para janeiro de 2028 tinha taxa de 14,820%, de 14,737% no ajuste e 14,700% no fechamento de quinta. O DI para janeiro de 2029 projetava 14,940%, de 14,843% (ajuste) e 14,765% (fechamento).


E a taxa do DI para janeiro de 2031 subia de 14,762% no ajuste e 14,690% no fechamento para 14,885%. Sem a referência dos Treasuries, o desconforto com o comunicado do Copom continuou pautando a curva. "Hoje [sexta-feira, 19] é um dia sem muita explicação, com o feriado nos EUA reduzindo a liquidez e sem dado econômico relevante, e os agentes esperando a ata e o RPM na semana que vem para entender melhor a visão do Copom", afirmou o economista Felipe Rodrigo de Oliveira, da MAG Investimentos.


O segmento de juros destoou do bom desempenho dos demais mercados domésticos, ainda ruminando o teor do comunicado que deu margem à interpretação de que o Copom poderia estar disposto a tolerar níveis de inflação acima da meta. Por isso, é grande a expectativa pela ata e pelo Relatório de Política Monetária (RPM) na próxima semana.


Para o economista Sérgio Goldenstein, sócio-fundador da Eytse Estratégia, nos documentos e na entrevista coletiva dos dirigentes sobre o RPM, o Banco Central vai poder corrigir a comunicação e mostrar cenários alternativos de trajetória da Selic e, com isso, o mercado vai entender que existe fundamentação técnica.


"Houve grande exagero na reação do mercado, em boa parte derivado de uma comunicação ruim", disse Goldenstein, afirmando que o Copom poderia ter usado, como já fez no passado, um cenário de Selic constante e não só a da trajetória da taxa no Boletim Focus. Com isso, uma vez corrigida a comunicação, a tendência é a curva devolver prêmios.


A partir do meio da tarde, as taxas passaram a renovar máximas, com alguns vértices flertando com a marca de 15%, caso do DI para janeiro de 2029, que chegou a 14,985%. "O maior destaque foi a fala do Flávio, com alguns pontos que vão contra o ajuste fiscal que deve ser necessário em 2027", relatou o estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren, Luis Felipe Vital.


Em entrevista ao SBT News, Flávio afirmou que, se ganhar a eleição, não pretende dar fim aos pisos constitucionais da saúde e da educação, nem acabar com a vinculação do salário mínimo à inflação ou realizar uma reforma da Previdência. Defendeu um "tesouraço" em ministérios, em custos da burocracia, mas também em impostos. A reação negativa se deu uma vez que o mercado vê em Flávio um contraponto ao expansionismo fiscal atribuído ao governo Lula, que tenta a reeleição.


Além disso, profissionais nas mesas de renda fixa comentaram que, perto do período de definição das taxas de ajuste, entre 16h10 e 16h20, houve grande atuação de fundos locais tomados em juros, "aproveitando a baixa liquidez para puxar a curva". A percepção geral é de que o volume movimentado nesta sexta foi menos da metade do giro padrão.

Estadão Conteúdo e Correio do Povo

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