Vitória do fundamentalismo

 Torna-se inegável que o Irã está saindo como o grande vitorioso desta guerra que passou a enfrentar contra Estados Unidos e Israel em 28 de fevereiro

Jurandir Soares


Torna-se inegável que o Irã está saindo como o grande vitorioso desta guerra que passou a enfrentar contra Estados Unidos e Israel em 28 de fevereiro. Porém, desde logo é preciso ressaltar que o presidente norte-americano, Donald Trump, não só fez o seu adversário sair dos combates com mais do que tinha antes, como ajudou a reforçar no poder o nefasto regime dos aiatolás.


O fim da guerra ou cessar-fogo, como queiram chamar, só terá efetividade se for assinado o acordo programado para sexta-feira, 19, em Genebra, na Suíça. Nesse acordo, mediado pelo Paquistão, ainda existem obstáculos a serem superados e o principal diz respeito a Israel. Pois Teerã condicionou a assinatura ao término dos ataques israelenses ao Líbano. E esses ataques se dão pela determinação de Benjamin Netanyahu em acabar com o Hezbollah, movimento apoiado pela República Islâmica e estabelecido em terras libanesas.


GANHOS


Dentre os ganhos do regime está o fato de ter aumentado seu apoio interno, pois mesmo setores que eram contra resolveram apoiá-lo diante da agressão externa. Então, este que era um dos objetivos dos EUA e Israel ao iniciar a guerra, mudar o regime, não aconteceu. Tampouco o sistema de mísseis do Irã, que pretendiam destruir, foi inviabilizado. Para comprovar sua eficiência, o país persa chegou a atingir uma base norte-americana no Oceano Pacífico, a 4 mil quilômetros de distância. Já o principal fator da guerra, que era a destruição do programa nuclear iraniano, também não se alterou. Será passível de uma discussão ao longo dos próximos 60 dias. E o Irã ainda conquistou algo a mais. Colocou nas negociações a liberação de fundos de investimentos que têm no exterior, avaliados, em princípio, em 25 bilhões de dólares.


ESTREITO


Ainda tem outro aspecto que não era contemplado antes da guerra: o bloqueio do Estreito de Ormuz. Parece incrível, mas os serviços de inteligência de Trump não detectaram esta possibilidade. Ou, se detectaram, Trump não lhes deu importância. Esta imprevisibilidade tem causado enormes prejuízos para os Estados Unidos e, por extensão, ao governo Trump. Assim como causa também prejuízos à maior parte do mundo.


Agora o Irã apresenta mais um ponto em que quer tirar vantagem: a cobrança de pedágio no estreito. Ou seja, um custo que ficará para múltiplos países após o fim da guerra. Outra “conquista” de Trump. Nesse ponto há uma sutileza por parte do Irã. Diz que concorda em reabrir Ormuz, só não explicita que esta reabertura corresponderá à cobrança dos navios mercantes que por ali passarem.


ISRAEL


Israel ainda pode ser o pomo da discórdia se continuar com seus ataques ao Líbano. Neste ponto, Netanyahu está sendo ingrato com quem lhe deu apoio, ou seja, Trump. Porém, a ação do Estado de Israel merece uma análise especial, a partir do começo da guerra. Há muito que Israel pretendia atacar o Irã, para acabar com seu programa nuclear. Afinal, a ameaça à sua sobrevivência está explícita nas declarações dos aiatolás, desde que assumiram o poder, em 1979: exterminar o Estado Judeu. Daí ser natural o fato de o país buscar apoio dos EUA para a tarefa de acabar com o programa nuclear iraniano.


O fato é que este objetivo não foi alcançado e Israel ainda vem perdendo prestígio internacional ultimamente, pelas mortes de civis em decorrência de suas ações no Líbano e em Gaza. Aliás, a virtual inviabilização do Estado Palestino por parte de Israel é outro fator que lhe causa perda de apoio.


RESULTADO


Com isto, o que se percebe é que a aventura conjunta de Netanyahu e Trump acabou sendo um tiro pela culatra. Além de todos os aspectos já citados como triunfos do regime iraniano, há outro fator a destacar: o temor que o Irã impôs às monarquias do Golfo Pérsico que possuem bases norte-americanas. Ao atacar aqueles países, possíveis aliados de Israel nos Acordos de Abraão, o Irã mostrou que eles estão indefesos. E sem contar com a proteção dos EUA.

Correio do Povo

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