A guerra mais longa

 A questão básica que fica é saber por quanto tempo ainda se estenderá o conflito na Ucrânia, que já superou em tempo de duração as duas grandes guerras mundiais

Jurandir Soares


A guerra na Ucrânia chegou nesta quinta-feira, 11, a 1.569 dias, ou mais de quatro anos e três meses. Com isto, já dura mais do que a Primeira Guerra Mundial, travada de 1914 a 1918. Porém, em meio aos debates sobre a extensão, veio uma colocação de que ela já supera os seis anos da Segunda Guerra Mundial. Isto porque a guerra na Ucrânia já teria começado em 2014, quando a Rússia invadiu o país e anexou a Crimeia. Ou seja, estaria com o dobro de tempo.


CONTINUIDADE


O que é pior é que não se vislumbra um término para este conflito. E isto se dá, de parte da Rússia, porque quer levar adiante a política expansionista de Vladimir Putin, cujo objetivo maior é restaurar a antiga União Soviética. Ou seja, ter todos os países do entorno sob o domínio da Rússia. E de parte da Ucrânia, porque não quer entregar parte de seu território, sabendo que este seria um primeiro passo para Putin, mais adiante, avançar sobre o restante.


Na linha de raciocínio da Ucrânia está a Polônia, que entende que seria a próxima vítima de Putin. Justamente por isto, tem tratado de se equipar com os mais modernos armamentos. Para isto decidiu destinar 5% do seu PIB para a Defesa. O primeiro ministro da Polônia, Donald Tusk, alertou a Otan de que deve tomar a sério a ameaça de um ataque russo em solo protegido pela Aliança Atlântica. E o perigo mais iminente para isto está nos artefatos que a Rússia lança contra a Ucrânia, mas que caem em países vizinhos, membros da Otan, como já aconteceu na própria Polônia e na Romênia.


INCONFORMISMO


Putin, seguramente, não se conforma em ver nas suas vizinhanças todo um elenco de países que eram comunistas e dominados por Moscou terem passado para o mundo democrático e capitalista, passando a fazer parte da União Europeia ou da Otan. Sendo que muitos deles fazem parte dos dois organismos. Nesta situação estão as já citadas Polônia e Romênia, com mais Bulgária, Hungria, Tchéquia, Eslováquia e Hungria. Assim como as repúblicas do Báltico: Estônia, Letônia e Lituânia.


Além disto, Putin viu países antes neutros, como Finlândia e Suécia, também passarem a fazer parte da Otan, por temor de invasão russa. Menor sorte tem alguns outros vizinhos da Rússia, que tem vontade, mas não tem suporte para passar para a área de influência do Ocidente, como Geórgia, Moldávia e Armênia, entre outros. Considerando ainda que a Belarus chegou a fazer um forte movimento em direção ao Ocidente, porém ele foi sufocado pela repressão do aliado de Putin Aleksander Lukashenko.


RECUPERAÇÃO


Assim é que a Ucrânia, apesar de todas as perdas de vidas e destruição de prédios, decidiu seguir em frente. E hoje o objetivo é recuperar não só as quatro províncias do Donbas – Lugansk, Donetsk, Kharkiv e Zaporihzia – e mais, vejam só, a Crimeia. Esta, que já está sob o domínio de Moscou, passou a ser alvo de ataques sistemáticos da Ucrânia nas últimas semanas, visando minar o acesso russo.


Tudo está dentro do quadro desta que tem apresentado inovações nos combates, como o uso maciço de drones e de mísseis. E estes são artefatos que a Ucrânia conseguiu desenvolver e aperfeiçoar durante a guerra, a ponto de ter agora dispositivos capazes de penetrar e causar estragos até 3 mil quilômetros dentro do território russo.


GEOPOLÍTICA


Outro fator que pesa muito nesta guerra é a manutenção do quadro geopolítico que se estabeleceu após o término da União Soviética, em 1991. E a Ucrânia é hoje o ponto chave para manutenção deste quadro. Sua derrota poderá desencadear, como se viu, o primeiro passo de uma retomada de poder regional por parte de Moscou. Assim, não é sem razão que a Europa segue dando todo o respaldo possível a Kiev. E com a devida crítica a Donald Trump por ter tirado os Estados Unidos deste processo. A questão básica que fica é saber por quanto tempo ainda se estenderá esta guerra, que já superou em tempo de duração as duas grandes guerras mundiais.

Correio do Povo

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