Será que vai renunciar ?
CARLOS CHAGAS
ABANDONADA POR TODOS
Para
cada lado que Dilma se volte, encontra um adversário, até um inimigo.
Raras vezes um governante enfrentou situação assim. Faltando quase
quatro anos para o fim de seu mandato, a pergunta é se vai aguentar, se vai mudar ou se vai sair.
Madame
comprou briga com os presidentes da Câmara e do Senado. Renan Calheiros
e Eduardo Cunha dispõem de meios para tornar a vida e a administração
dela um inferno. Importa menos se a recíproca for verdadeira, mas a
verdade é que os comandantes do Congresso estão em guerra aberta e
declarada contra Dilma. Da devolução da medida provisória da desoneração
das folhas de pagamento à ausência num jantar no Alvorada e à recusa de
atender telefonema da presidente, Renan demonstra uma intransigência
óbvia quando declara aos jornalistas estar farto da desconsideração do
Planalto para com o Senado. Cunha já deixou clara a disposição de
rejeitar projetos do governo. O grave é que ambos contam com o apoio
maciço das respectivas bancadas, com gente até do PT.
Quanto
aos partidos, os da oposição deitam e rolam sem qualquer aceno de
entendimento com Dilma, mas salta aos olhos que ela perdeu o PMDB e
penduricalhos de sua base na votação de qualquer iniciativa do ajuste
econômico. Nesse particular, não conta com o PT inteiro e só por milagre
deixará de ser derrotada.
O
empresariado rejeita até mesmo as medidas que poderiam favorecê-lo.
Imagine-se a reação diante da extinção da desoneração das folhas de
pagamento e do anunciado imposto sobre grandes fortunas. Paulo Skaf
acaba de pôr a Fiesp em armas e as empreiteiras, se não receberem alguns
bilhões do BNDES, ampliarão denuncias premiadas e poderão envolver mais
companheiros e até seus mentores.
As
centrais sindicais, inclusive a CUT, levantaram-se contra a redução de
direitos trabalhistas proposta dias atrás, já ocuparam e mais ocuparão
os páteos das indústrias para defender o salário desemprego e as pensões
das viúvas. Se convocados para apoiar o governo, não aparecerão.
Dos
estudantes nem haverá que falar. O desemprego os atinge na moleira e a
manifestação prevista para o dia 15 em todo o país não deixará ninguém
mentir. Será essencialmente um protesto contra Dilma. A previsão é de
milhões de pessoas na rua, nas capitais e principais cidades.
O
Procurador Geral da República não quer conversa com a presidente desde
que se negou a antecipar-lhe a lista de envolvidos no escândalo da
Petrobras. O conceito de persona non grata vale para os dois lados.
No
Supremo Tribunal Federal, aumenta o número de ministros que não poupam
Dilma por deixar de indicar, desde julho do ano passado, o sucessor de
Joaquim Barbosa. Ela vem sendo acusada de desídia e de manobras pouco
éticas para permanecer desfalcada uma das Turmas da corte. Se espera
contar com os ministros que nomeou, fica a hipótese cada vez mais
remota.
Mesmo
no seu quintal, a chefe do governo não parece à vontade. Ministros se
engalfinham, assim como ministros saltam de banda, deixando claro não se
conformarem com as recentes mudanças na estratégia oficial, que era e
não é mais de beneficiar os trabalhadores e os pobres. A última paulada
nos assalariados menos favorecidos foi o corte no subsídio de luz para
cinco milhões de famílias. Nem o vice-presidente Michel Temer pode
concordar com tamanha maldade. Se comparecer a conciliábulos palacianos,
será para ficar calado.
Falta
referir outro personagem, dentro da casa da Dilma, que ao contrário de
suas aparições públicas, mais a vem censurando nas últimas semanas: o
Lula. Nem é preciso demonstrar o desgaste de um afastamento que, faz
pouco, tornou-se ostensivo.
Em
suma, a presidente encontra-se cada vez mais sozinha. Se a poeira não
baixar, ninguém garante que mantenha o poder até 2018. Está abandonada
por todos. Ou terá sido ela que os abandonou?