A indagação que se faz é sobre o que mudou no país neste período
Por Jurandir Soares
O dia 3 de fevereiro assinalou um mês da captura do ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, pelas forças dos Estados Unidos. E a indagação que se faz é sobre o que mudou no país neste período. Não foi muita coisa, mas, para a grande maioria dos venezuelanos, ele não está fazendo falta. Pelo menos é o que dizem as pesquisas divulgadas pela revista The Economist. Segundo estas, somente 13% dos venezuelanos questionam a ação militar dos EUA para a captura do ditador. E 80% acreditam que sua situação econômica e social vai melhorar nos próximos 12 meses. Afinal, basta observar o contingente de 8 milhões de pessoas que deixaram o país nos últimos anos para se perceber o caos econômico predominante. Não surpreende, portanto, que a maioria da população esteja com esperança de dias melhores.
REGIME
O regime vigente ainda é o chavismo; porém Delcy Rodríguez, que assumiu interinamente a presidência, está buscando promover algumas mudanças. Na realidade, ela tenta se equilibrar entre as exigências feitas por Donald Trump e a fidelidade ao chavismo. Seus discursos são, majoritariamente, para consumo interno. Mesmo assim, Delcy já tomou algumas decisões marcantes, como a abertura da economia. A parte econômica começa a melhorar com o levantamento de sanções que os Estados Unidos impunham, o que ajuda a baratear muitos produtos.
PRESOS
Significativas também são a libertação de presos políticos e a criação da Comissão para a Paz e Convergência. Desde o segundo dia de mandato, Delcy Rodríguez começou a soltar os detidos pela ditadura, cujo número total é avaliado em cerca de dois mil. Apesar das várias liberações já efetivadas, segundo a ONG Foro Penal, ainda existem 711 pessoas presas por motivos políticos na Venezuela. A propósito, nesta quinta-feira se viu algo em Caracas que, desde a grande repressão de 2014, não ocorria mais: passeata de protesto. Familiares de pessoas que ainda estão presas por serem contra o regime saíram portando cartazes com fotos dos detidos.
ANISTIA
E, no mesmo dia, o Congresso, presidido por Jorge Rodríguez, irmão da presidente interina, aprovou uma lei de anistia. A norma estabelece o perdão imediato para as pessoas detidas por questões políticas, expressão de opinião ou crítica a funcionários públicos. Também determina a extinção dos processos penais relacionados a essas causas.
A aplicação compreende os “delitos” cometidos desde 1° de janeiro de 1999, quando o chavismo passou a governar. Segundo a jornalista Florantonia Singer, do jornal El País, que está em Caracas, as medidas anunciadas são tão amplas que chegam a causar incredulidade entre a população – inclusive pelo fato de o texto ter chegado à Assembleia Nacional e ter sido aprovado no mesmo dia, por unanimidade.
RECONCILIAÇÃO
Curioso que o próprio filho de Maduro, Nicolás Maduro Guerra, se mostrou favorável à lei e à pacificação. “É crucial eliminar delitos que não cabem no Estado de Direito”, disse ele, invocando a Bíblia e Nelson Mandela – a quem teve a ousadia de comparar com o pai – para justificar o perdão. “A Venezuela não aguenta mais vinganças”, destacou o filho de Maduro. Veja-se que não houve, por parte dele, nenhuma contestação à detenção do pai, que estava em pleno governo, pelas forças norte-americanas. E o que transparece é que a posição dele é a mesma do chavismo em geral, ou seja, defesa de uma reconciliação nacional. Afinal de contas, ninguém sabe do que Trump ainda é capaz, então o melhor é partir para um acordo.
FUTURO
Apesar desses avanços, tudo ainda é incerteza na Venezuela. Contudo, pelo que se observa, como a anistia é ampla, pode também ser invocada pelos chavistas para se livrarem de alguma punição. E, com isso, vai-se abrindo caminho para que, num futuro não muito distante – quem sabe em um ano – venham a ocorrer eleições presidenciais, porém com o devido acompanhamento de organismos internacionais confiáveis.
Correio do Povo
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