Por Alex Pipkin, PhD em Administração
Todos nós sabemos, ou fazemos de conta que não sabemos. No grande Estado bondoso, o sentimentalismo vem primeiro, e as emoções sempre falam mais alto do que as consequências.
A corrupção, no Estado grande, não é um acidente moral nem um desvio ocasional. É uma condição endêmica. Ela não aparece quando algo dá errado; manifesta-se quando o sistema funciona exatamente como foi concebido para operar.
O erro persistente está em tratá-la como patologia ética, quando ela é consequência estrutural de um organismo hipertrofiado, obeso, desenhado para concentrar poder, recursos e irresponsabilidade.
O Estado grande não combate a corrupção; ele a organiza. Empilha camadas sucessivas de decisão e execução não para descentralizar, mas para dissolver autoria. Decide-se longe, executa-se fragmentado, fiscaliza-se tardiamente e responsabiliza-se quase nunca. Cada instância criada para “corrigir” a anterior funciona como blindagem adicional. A culpa se dilui antes de encontrar um nome. O dano se espalha sem encontrar dono.
Esse modelo encontra sua expressão mais acabada nos Estados ditos progressistas, no Estado de bem-estar social, cuja legitimidade repousa na distribuição e redistribuição permanente de recursos.
Quanto maior a promessa moral, maior a máquina necessária para sustentá-la. Dessa forma, torna-se mais opaca a engrenagem e, evidentemente, mais previsível se torna sua captura. Não só por perversidade individual, mas por lógica institucional.
Programas de transferência em larga escala separam pagamento de produção. Não há troca; há reivindicação. O benefício não decorre de valor criado, mas de elegibilidade declarada. A verificação é cara, imperfeita e sempre posterior ao dano. A responsabilidade evapora entre formulários, sistemas, intermediários e pareceres. O erro não tem rosto, e o prejuízo não tem autor.
Nesse ambiente, a corrupção não precisa ser engenhosa. Precisa ser persistente. Basta aprender o vocabulário correto, o ritmo da burocracia, os pontos cegos do controle. A fraude deixa de ser exceção e se torna procedimento administrativo corrente. Não exige criatividade; exige adaptação. E o Estado grande recompensa precisamente quem aprende a operar nesse terreno pantanoso.
Quanto mais se distribui e redistribui, mais pontos de captura são criados. Cada fundo, programa, convênio ou parceria amplia a superfície de contato entre poder e oportunidade. A corrupção não cresce de forma linear; ela se potencializa. Aumenta de maneira avassaladora porque passa a operar em escala, com método e previsibilidade. O sistema não colapsa apesar disso; ele incorpora o custo como parte do funcionamento.
O ritual do escândalo cumpre sempre um papel útil, preservando o mito. Aponta-se o indivíduo para salvar a estrutura. Pede-se mais controle para corrigir o que o excesso de controle produziu. Amplia-se o Estado para consertar os efeitos do Estado ampliado. A indignação é encenada com cinismo costumeiro, mas a engrenagem criminosa permanece intacta.
Um Estado menor não santifica o homem, porque os homens não são santos. Mas reduz o estrago que eles podem causar.
O Estado grande, sobretudo quando se imagina generoso, caridoso e de coração vasto, faz o oposto, pois parte da fantasia da virtude humana para erguer estruturas que só funcionariam num mundo habitado por anjos, aqueles da narrativa da “superioridade moral”.
Como anjos não existem, pelo contrário, no time vermelho, o desfecho é reincidente e conhecido.
O grande Estado do coração grande não produz justiça social, como quase todos nós sabemos.
Produz corrupção normalizada, embalada por boas intenções, administrada pela rotina e protegida pela confortável ficção de que o problema é sempre moral.
Claro que esse não é somente moral. É estrutural, tem cor, um passado glorioso e um futuro promissor.
Pontocritico.com
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