Equador vai às urnas em referendo sobre bases militares estrangeiras e nova Constituição; Noboa anuncia prisão de líder de gangue

 


Os equatorianos iniciaram a votação neste domingo (16) em um referendo crucial, convocado pelo presidente Daniel Noboa para reforçar sua ofensiva contra o crime organizado com apoio dos Estados Unidos. Quase 14 milhões de eleitores, em um país marcado por uma escalada de violência que contrasta com sua tranquilidade há uma década, decidem sobre o retorno de bases militares estrangeiras — proibidas desde 2008 —, a elaboração de uma nova Constituição, o fim do financiamento estatal a partidos políticos e a redução no número de congressistas. A consulta ocorre em meio a tensões regionais, como os bombardeios americanos a barcos supostamente envolvidos no tráfico de drogas no Caribe e no Pacífico.A votação, obrigatória, começou às 8h locais (10h de Brasília) e se estende até as 17h (19h em Brasília). "Que esta jornada nos ratifique que a democracia se exerce, se honra e se defende votando", declarou Diana Atamaint, presidente do Conselho Nacional Eleitoral, ao inaugurar o pleito. Noboa, de 37 anos, nascido nos EUA e com aprovação de 56% em sua gestão que vai até 2029, busca ampliar poderes para combater gangues como Los Lobos e Los Choneros, que controlam mineração ilegal e têm laços com cartéis como o Jalisco Nueva Generación.Prisão de "Pipo" Chavarría marca o diaPoucos minutos após o início da votação, Noboa anunciou no X (antigo Twitter) a captura de Wilmer Chavarría, conhecido como "Pipo", líder máximo de Los Lobos, na Espanha. "Hoje capturamos 'Pipo' Chavarría, o criminoso mais procurado da região e líder máximo de Los Lobos. O criminoso que fingiu sua morte, mudou de identidade e se escondeu na Europa", escreveu o presidente, em um golpe simbólico contra o crime transnacional. A prisão reforça a aliança de Noboa com Washington, especialmente com o governo de Donald Trump, que vê no Equador um aliado chave na luta antidrogas.Opiniões divididas: de protestos indígenas a ceticismo com bases estrangeirasA gestão de Noboa divide o país. Ana Manotoa, de 36 anos, votou em San Miguel del Común, no norte de Quito — epicentro de protestos indígenas contra o aumento do diesel —, e criticou: "Não gosto nada do que ele está fazendo. Não há saúde, não há segurança". Seu voto foi uma "rejeição ao governo", segundo ela. Já Carlos Vaca, zelador de 60 anos, tem visão mista: apoia a redução de deputados, mas rejeita a nova Constituição e as bases militares, chamando-as de "enganoso". "Militares americanos já estiveram em Galápagos e fizeram desastres durante a Segunda Guerra Mundial", lembrou.O pesquisador Luis Córdova, do Observatório Equatoriano de Conflitos da Universidade Central, vai além: "A ideia de uma base estrangeira como solução para o problema da violência é uma ingenuidade e uma mentira total". Para ele, Trump tem interesse em "acesso fácil" a pontos estratégicos como as Galápagos, a 1.000 km da costa. Noboa convocou o referendo após a Justiça bloquear medidas polêmicas, como castração química para estupradores e vigilância sem mandado judicial, por violarem direitos fundamentais.Pesquisas apontam vitória do "Sim"De acordo com a consultoria Cedatos, o "Sim" deve prevalecer com mais de 61% dos votos, dando a Noboa munição para endurecer políticas de segurança. Washington manifesta interesse em reativar a base de Manta, usada para voos antidrogas entre 1999 e 2009, enquanto aprofunda laços via acordos migratórios e comerciais. O resultado pode redefinir o Equador como hub militar americano na América Latina, mas críticos alertam para riscos à soberania em um contexto de fome social e insegurança galopante. Os resultados preliminares são esperados para esta noite.

AFP e Correio do Povo

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