quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Impotência suprema

 Frágeis, acessíveis, impotentes

Guilherme Baumhardt


Frágeis, acessíveis, impotentes. São palavras que descrevem muito bem os surpresos (e, até certo ponto, amedrontados) integrantes da Suprema Corte brasileira, na tentativa de encontrar as ruas. Claro, não no Brasil. Aqui eles vivem em uma ilha da fantasia chamada Brasília, com escolta, carros blindados e um sem-fim de assessores. Pensaram, provavelmente, que Nova York seria terreno seguro. Acabaram encontrando por lá as tias do zap, patriotas e gente disposta a dizer a eles o que não gostariam de ouvir.

A imagem de um Luís Roberto Barroso correndo para buscar refúgio em uma lojinha de bugigangas não deixa de provocar uma certa dose de satisfação. Ainda na rua, uma senhora o aborda e pergunta: “Como vai o senhor, juiz?”. Barroso responde que está bem e que está “feliz pelo Brasil”. Na sequência, ele ouve a resposta: “Mas nós vamos ganhar essa luta. Cuidado, o povo brasileiro é maior do que o Supremo. Você não vai ganhar o nosso país. Isso mesmo! Foge!”. E Barroso busca abrigo.

Figuras públicas precisam aguentar o tranco. O ônus e o bônus. Há lugares e lugares para se protestar. Guido Mantega (um dos ministros que assinam a tragédia econômica brasileira deste século) já foi alvo de manifestação dentro de um hospital. Não era hora e nem lugar. A casa de quem quer que seja também precisa ser preservada. Mas e a rua? Ou dentro de um avião, como já ocorreu com Ricardo Lewandowski? Sem problemas, desde que um mínimo de educação e respeito seja mantido – respeito, aliás, que eles, os supremos, não tiveram pela Constituição, promovendo atrocidades, especialmente nos últimos quatro anos.

Na mesma Nova York, um Alexandre de Moraes impotente ouve poucas e boas de um brasileiro. Moraes até esboça uma reação. Levanta-se da cadeira, caminha na direção dos manifestantes, mas fica por isso mesmo. Deve ser muito ruim a sensação de não poder mandar aquele sujeito calar a boca, como ele já fez tantas vezes ao bloquear as redes sociais de gente que ousou questionar decisões do STF ou do TSE. Deve trazer certo espanto ser apenas um sujeito normal, sem caneta para dar prazo e ordenar que a Polícia Federal tome o depoimento de alguém que ousou perguntar – como no caso do economista Marcos Cintra.

São ministros que aceitam tapinhas no rosto. São juízes com convicções firmes como geleia, que mudam de opinião como uma agilidade que assusta – da graça do indulto, passando pela liberdade de expressão, até chegar à prisão em segunda instância. A biruta do STF aponta cada dia para um lado, ao sabor dos ventos. A população, que deveria nutrir respeito e buscar na Suprema Corte uma espécie de reserva legal e moral, hoje dá de ombros para esta turma. E, quando tem a chance, diz a eles o que não gostariam de ouvir. Os culpados? Eles mesmos.

Por um fio

Por pouco a noite de sexta-feira não registrou um episódio lamentável. Dentro da servidão predominante em determinados setores públicos, que simplesmente dizem amém e não questionam sequer a legalidade do que vem de cima, a Brigada Militar (não é ela a culpada) tentou retirar das imediações do Comando Militar do Sul, em Porto Alegre, os manifestantes que estão ali há dias. Em caso de recusa, a tropa de choque poderia ser acionada. Já imaginaram? O batalhão de choque avançando contra idosos, pais e mães de família? Minha pergunta vai ao governador Ranolfo Vieira Jr.: o senhor não cogitou a possibilidade de interromper aquela ação? A Brigada Militar está sob seu comando! Se o governador não sabia muito bem o que dizer ou como proceder, deixo uma sugestão: bastava copiar e colar a resposta da Prefeitura de Porto Alegre, também provocada a esvaziar aquela área, mas que deu como resposta uma aula sobre liberdade e garantias de direitos fundamentais. Na história não faltam exemplos de gente que “estava apenas cumprindo ordens”.

Correio do Povo

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