quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Mercado financeiro faz alerta ao Banco Central: “modo eleição” põe em risco as contas do País

 


Uma reunião realizada nesta quarta-feira (18), entre diretores do Banco Central (BC) e analistas de instituições financeiras deixou clara a preocupação que está na mente do mercado: a economia entrou no “modo eleição”, e isso significa um risco enorme para as contas públicas, em um momento de projeções piorando tanto para a inflação quanto para os juros e o PIB em 2022.

“No geral, todo mundo está batendo na tecla de que a eleição já começou”, resumiu um participante do encontro, que falou sob a condição de anonimato. “O viés mais negativo para o fiscal e o aumento da incerteza está se refletindo no crescimento do ano que vem sem necessariamente uma contrapartida da inflação.” Ou seja, o mercado já prevê um crescimento menor da economia, em um cenário de inflação ainda alta e taxas de juros maiores.

O BC faz reuniões periódicas, fechadas (e virtuais, nesse período de pandemia), com analistas do mercado financeiro para colher informações para a confecção do seu Relatório Trimestral de Inflação (RTI). O próximo documento será divulgado no dia 30 de setembro.

Participaram 42 analistas do encontro desta quarta-feira. Pelo BC, estavam os diretores de Política Econômica, Fabio Kanczuk, de Política Monetária, Bruno Serra, e de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos, Fernanda Guardado. Eles não respondem a perguntas, apenas ouvem o que os analistas apresentam. Ainda serão realizadas mais duas reuniões nesta semana, com outras instituições.

Segundo fontes presentes ao encontro, os analistas indicaram que a projeção mais baixa para a taxa Selic no fim do ciclo de alta iniciado este ano era de 7,5%, variando a até 8,5%. “Mas todas com viés de alta”, destacou um profissional.

Para a inflação, a expectativa para este ano ficou em torno de 7,5% e, para 2022, variam de 3,5% (centro da meta perseguida pelo BC) até um pouco acima de 4%. “Há pouca gente convencida de 3,5%, e quem se manifestou nesse sentido apontou viés para cima”, disse um dos participantes.

No âmbito fiscal, os participantes ouvidos relataram preocupação com a preservação do teto de gastos, em meio à discussão sobre as mudanças no pagamento dos precatórios e ao financiamento do Auxílio Brasil, novo nome dado ao Bolsa Família. “Sem dúvida o risco fiscal foi dominante nessa conversa, algo que todos demarcaram e que é a preocupação de todo mundo”, disse outro economista que participou do encontro. “Eu fiquei um pouco impressionado com a preocupação geral”.

Em relação ao crescimento econômico, um participante mencionou que o cenário este ano está “dado”, com projeções variando de 5% a 6%, graças ao carrego estatístico elevado, mas que o ano que vem é mais desafiador.

“Para a atividade econômica, a visão geral é de desaceleração, com crescimento entre 1% e 2% em 2022. A maioria tem perto de 2%. Na visão externa sobre atividade, estão muito preocupados com a variante Delta (do coronavírus) e seus efeitos no mundo. Esse efeito de desaceleração econômica da China pode tirar impulso das commodities”, disse outro analista.

Mas, se a visão sobre as commodities é de manutenção ou desaceleração, outros choques podem continuar incomodando a inflação de 2022, disse uma fonte. A persistência da inflação para o ano que vem foi um dos focos da discussão, com considerações dos analistas a respeito da natureza da pressão sobre serviços, se de oferta ou de demanda.

Outro ponto relevante na reunião foi a discussão sobre a política monetária nos EUA e seus potenciais efeitos negativos sobre os emergentes e, em particular, o Brasil. “A preocupação é de como o Fed vai fazer o tapering (retirada de estímulos). A visão é quase consensual de que deva começar no máximo no fim deste ano, talvez em novembro. Pode ser mais um fator para pressionar câmbio, inflação e política monetária”.

O Sul

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