O perigo que se esconde nessas vitrines de cristal líquido é muito mais profundo do que o simples estelionato financeiro: é o sequestro cognitivo da nossa juventude.
Por Oscar Bessi
O espetáculo da opulência digital brasileira atingiu um novo patamar de surrealismo. O "arrasta pra cima" encontrou seu destino: as grades da Polícia Federal. É fascinante observar como a estética do sucesso nas redes sociais, regada a bebidas caras, carros importados e dentes de uma brancura radioativa, conseguiu camuflar tão bem o cheiro de pólvora e o mofo do narcotráfico. Nossos novos "modelos de vida" descobriram a alquimia moderna: transformar o pó da droga no brilho de milhões de seguidores, lavando não apenas dinheiro em rifas forjadas, mas a própria moralidade sob filtros do Instagram. Em um país onde a fome ainda é realidade, a facilidade com que esses prestidigitadores do crime erguem impérios de fachada é um insulto à inteligência — e um triunfo da desinformação. Eles não vendem produtos; vendem a ilusão de que a riqueza é um evento espontâneo, recompensa para quem sabe sorrir para a lente, enquanto o caixa dois do crime organizado opera nos bastidores da ostentação.
O perigo que se esconde nessas vitrines de cristal líquido é muito mais profundo do que o simples estelionato financeiro. O pior é o sequestro cognitivo da nossa juventude. Assistimos, quase inertes, a uma geração inteira que consome esse lixo tóxico como se fosse nutrição intelectual, aspirando a ser o próximo influenciador de sucesso sem passar pelo esforço hercúleo do estudo ou do trabalho honesto. O modelo de felicidade vendido por esses criminosos de luxo é a armadilha perfeita para mentes em formação, que enxergam no lifestyle do crime a única saída viável em um mundo que parece não oferecer mais nada além de curtidas. Enquanto as bibliotecas das casas brasileiras são substituídas por suportes de celular com ring lights, o conteúdo que molda o caráter dos nossos jovens torna-se cada vez mais ralo, desprovido de qualquer senso crítico. Isso os deixa vulneráveis a qualquer espertalhão que saiba manipular um algoritmo com a mesma destreza com que um doleiro manipula contas em paraísos fiscais.
VÁCUO INTELECTUAL
A cultura rasa das redes sociais criou um ecossistema onde o pensamento é um estorvo; a reflexão, um erro de sistema. Vivemos a era da velocidade sem destino. O scroll infinito impede que qualquer ideia crie raízes, com o hábito da leitura soterrado sob uma avalanche de dancinhas e frases de efeito motivacional escritas por quem mal sabe conjugar um verbo. Sem filtro ético e sem a possibilidade de exercer o pensar, a sociedade torna-se terreno fértil para a manipulação. A leitura, essa atividade arcaica que exige silêncio e introspecção, foi atropelada pelo consumo frenético de imagens que não dizem nada, mas gritam muito alto. É nesse vácuo intelectual que os criminosos de colarinho digital prosperam.
O risco é consolidarmos uma sociedade de autômatos, uma massa de manobra conduzida por algoritmos viciados e criminosos que aprenderam a codificar o caos social. Quando o crime organizado se alia à influência digital, torna-se mais difícil de combater do que qualquer cartel tradicional. Estamos delegando a educação ética dos nossos filhos a algoritmos opacos que priorizam o engajamento sobre a verdade. Se não resgatarmos a capacidade de crítica e o valor do conhecimento sólido, continuaremos a ser plateia e financiadores involuntários de um teatro do absurdo, onde o crime — se tiver bons filtros e trilha sonora chiclete — vira o sonho de consumo de uma nação desorientada. As algemas da PF? Mero detalhe técnico em um país cuja alma já está presa, há tempos, na tela de um celular.
Correio do Povo
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