Antonio Lavareda: “O controle do Orçamento pelo Executivo é um gênio que não volta para a garrafa”

 


Em análise sobre a crise do presidencialismo brasileiro, cientista político aponta que o Congresso assumiu papel irreversível na gestão de recursos e alerta para o “esgotamento” da Nova República.

PORTO ALEGRE – O cientista político e presidente do Conselho Científico do Ipespe, Antonio Lavareda, apresentou em Porto Alegre o estudo “Barômetro da Lusofonia”, mas o foco de sua análise recaiu sobre a saúde da democracia brasileira. Em entrevista ao Correio do Povo, Lavareda diagnosticou o que chama de “parlamentarismo orçamentário”, um fenômeno onde o Congresso Nacional tomou para si as rédeas das finanças públicas de forma definitiva.


O fim do presidencialismo clássico

Para Lavareda, o modelo de governança estabelecido pela Constituição de 1988 atingiu seu limite. Ele defende que as emendas de relator e a reserva de recursos pelo Legislativo são fatos consumados.

“Você não devolve esse gênio para dentro da garrafa. O problema não é o parlamento governar, mas a falta de accountability e transparência. Não sabemos como esses recursos impactam efetivamente a saúde ou a educação”, afirmou.

O cientista político destaca que o Congresso hoje não apenas controla o caixa, mas também neutraliza ferramentas históricas do Executivo, como as Medidas Provisórias (MPs), que encontram cada vez mais resistência para serem aprovadas.

Polarização e o espaço para a "Terceira Via"

Embora as pesquisas mostrem uma concentração de 80% das intenções de voto entre os campos de Lula e Bolsonaro, Lavareda identifica fissuras nessa bipolarização:

  • Eleitores Independentes: Cerca de 32% do eleitorado se define como independente.

  • Potencial de centro e direita: Existem contingentes de esquerda não-lulistas e de direita não-bolsonaristas (estes últimos em número expressivo) que podem ser atraídos por novos nomes.

  • Candidaturas alternativas: Lavareda citou movimentos como os dos governadores Ronaldo Caiado e Eduardo Leite (embora o projeto deste último na centro-esquerda não tenha prosperado) como tentativas de romper a dualidade atual.

O problema dos "Partidos Hidropônicos"

Um dos pontos mais críticos da análise de Lavareda refere-se à fragilidade das legendas brasileiras. Ele classifica as siglas como “partidos hidropônicos”: organizações que não têm raízes no solo da sociedade e sobrevivem apenas de nutrientes estatais, como o Fundo Eleitoral e as emendas parlamentares.

Essa desconexão é evidenciada por dados alarmantes: apenas 29% dos brasileiros lembram em quem votaram para deputado federal um ano após o pleito. Para o especialista, a solução passaria por uma reforma política que adotasse a lista fechada ou o voto distrital misto, visando baratear as campanhas e fortalecer a identidade partidária.


Futuro político e Eduardo Leite

Sobre o cenário gaúcho, Lavareda elogiou a trajetória de Eduardo Leite, classificando-o como um dos políticos mais preparados de sua geração. No entanto, lamentou a provável ausência do governador na disputa pelo Senado em 2026.

Para o cientista político, o próximo Senado será um ambiente de "confronto e estresse", exigindo figuras com capacidade de articulação nacional para lidar com uma crise que ele define como transversal, atingindo simultaneamente todos os Poderes da República.

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