quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Novas invasões bárbaras: protejam-se da volta do PT ao MEC

 PorIlona Becskeházy

| Foto: Agência Brasil

A urgência do assunto obriga a mim a manter a pausa na sequência dos artigos que explicam do que é composta uma política educacional eficaz (currículo, livros didáticos, avaliação e formação docente) para alertá-los sobre o que voltará a vigorar no País com o retorno da esquerda ao comando do estado em nível federal e dar uma singela contribuição para que possa ser salva uma pequeníssima parcela do que foi construído às custas da saúde da equipe que esteve no Ministério da Educação por estes quatro turbulentos anos de gestão Bolsonaro.

O contingente que agora vai voltar a dominar as posições de decisão e poder a partir de Brasília não é apenas uma esquerda incompetente, amiga do alheio e raivosa, mas um conjunto amorfo de milhares de pessoas com agenda própria, que ocupa cada cargo não para trabalhar, mas para obter vantagens, desde as mais simplórias como carros oficiais, diárias e passagens para visitar o mundo - sem ter que fazer a própria cama e preparar o café da manhã -, até a implementação dos imensos programas nacionais e internacionais de drenagem do erário para si e companheiros mais próximos.

Como mencionei em outro artigo, minha experiência em política pública se restringe à educação e por isso conheço bem os grupos que dominam o setor no Brasil e agora voltarão a ter a prerrogativa de destruir a capacidade de compreensão e raciocínio da população. São criaturas desprovidas do mais elementar sentimento de compaixão e respeito ao próximo, zumbis morais que só veem na escola um caixa eletrônico onde buscam seu salário e um portal de doutrinação paulofreriana das jovens mentes sob seus cuidados.

Qual a providência imediata que se pode tomar hoje para, individualmente, tentar proteger seus filhos da sanha sindicalista dominadora que já anuncia a destruição dos germes de libertação educacional plantados principalmente pela Secretaria de Alfabetização do Ministério (Sealf)?

O contingente que agora vai voltar a dominar as posições de decisão e poder a partir de Brasília não é apenas uma esquerda incompetente, amiga do alheio e raivosa, mas um conjunto amorfo de milhares de pessoas com agenda própria, que ocupa cada cargo não para trabalhar, mas para obter vantagens

Em primeiro lugar, para aqueles que estão rezando pela misericórdia divina, levem todo o seu arsenal de conexão espiritual para o lado de seu computador e salvem imediatamente todos os programas de currículo, material de ensino, avaliação e formação docente produzidos por aquela Secretaria. Você pode usar este e esse link.

Infelizmente, os cursos de formação docente ainda não estão disponíveis para download e não sei se será possível empacotá-los para tal. Se for o caso, voltamos aqui para dar-lhes o caminho que pode ajudá-los a guardar parte do enorme esforço que foi feito para tirar os brasileiros da histórica praga do analfabetismo gerado dentro da escola, o qual certamente será destruído em pouquíssimos dias.

Para quem acha que eu estou exagerando, dou um testemunho.

Lula da Silva foi eleito pela primeira vez em 2002 e tomou posse em 1º de janeiro de 2003. Antes dele, como sabemos, tínhamos como presidente o senhor Fernando Henrique Cardoso, que teve um grande Ministro da Educação durante seus dois mandatos, Paulo Renato Souza, já falecido. Paulo Renato fez algo muito importante para tentar levantar o Brasil do atoleiro educacional em que estávamos, chamando para estruturar as políticas educacionais de seu ministério, técnicos do Banco Mundial. O Banco Mundial da época, não o Banco Mundializado de hoje. À época, seus times ainda trabalhavam no sentido de estruturar estados mais eficientes e eficazes, dois atributos diferentes entre si, mas estrategicamente complementares – a combinação ideal para garantir a democracia e para salvaguardar os interesses da maioria. Ou seja, um time fadado a perder no longo prazo, como se pode constatar ao longo do tempo.

Pois bem, esses times montaram um complexo e imenso conjunto de programas, ações e sistemas de alocação e controle de recursos chamado no seu todo de Fundo de Fortalecimento da Escola (Fundescola), uma continuação, expansão e aprofundamento, nos anos 1990, do Programa Nordeste dos anos 1980.

A iniciativa envolvia formação para gestores de secretarias de educação e diretores de escola no sentido de alcançar a boa organização escolar, melhorar a infraestrutura de ensino e de fazer uma gestão não apenas racional dos recursos, mas de materializar a efetividade escolar. Infelizmente, não contou com um currículo nos moldes do que à época, os países desenovolvidos já estavam implementando, o que, em combinação com livros didáticos muito bem-feitos fez países asiáticos darem enormes saltos de efetividade educacional em cerca de apenas uma década. O que nós tivemos aqui foram os PCNs, ou Parâmetros Curriculares Nacionais, outra vergonha alheia que já começava a implantar a combinação ideologia de gênero e matemática pelas mãos de alguns malucos de esquerda que estavam – como sempre – alinhados com o PSDB que mandava no país naquele momento.

Enfim, era um excelente começo. Além do que já listei, contava com campanhas de rádio para disseminar o programa localmente e convocarem pais e professores a aderirem. Quase todos os recursos estavam disponíveis no portal do Fundescola. Imaginem: um portal na internet com tudo disponível no início dos anos 2000!

Quem quiser saber em mais detalhe, pode ler este artigo aqui ou fazer buscas a respeito do tema na internet. Minha tese conta um pouco também, pois o sucesso de Sobral, como já disse, é – em parte – um desdobramento dessa mentalidade de bem gerir recursos. A vantagem competitiva do município foi ter tomado uma decisão curricular à partida, o que o Fundescola não fez.

Quando programas governamentais dessa magnitude e competência funcionam bem há vários benefícios: furta-se menos, usa-se melhor os recursos públicos, aumentam as chances de alunos aprenderem mais, forma-se um corpo técnico mais qualificado para consolidar um círculo virtuoso pela eficácia escolar. Já deu para entender por que institutos e fundações de herdeiros destituídos das empresas das famílias, picaretas vendedores de soluções caras e de má qualidade, ladrõezinhos e ladrõezões não deixam esse tipo de programa ir para a frente e jogam sal onde eles aparecem.

Naquela ocasião, em 90 dias de governo dos companheiros sindicalistas o site foi tirado do ar e todo o material de orientação e formação para secretários e técnicos, manuais de gestão escolar e afins sumiram dentro dos registros do Governo Federal. Um deles, de um programa correlato, que ajudou Sobral a estruturar seu sistema de gestão escolar, nem teve a versão em papel transcrita para PDF, o que permitiria sua transmissão para o pessoal da #resistencia.

Aos gestores locais, pesquisadores, professores e pais que quiserem usar o material produzido pela Sealf, recomendo que corram: os vikings agora já sabem o caminho das pedras. No dia 2 de janeiro de 2023, assim que acordarem da ressaca das grandiosas festas de posse do pessoal que não gosta de fazer a própria cama, eles puxam a tomada!

Foto de perfil de Ilona Becskeházy

Ilona Becskeházy

Ilona Becskeházy, ex-secretária de Educação Básica do Ministério da Educação durante o governo Bolsonaro, é mestre e doutora em política educacional, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), respectivamente. Foi diretora executiva da Fundação Lemann, consultora educacional e comentarista de Educação na rádio CBN. **Os textos da colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.


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