terça-feira, 27 de outubro de 2020

Após manhã volátil, dólar fecha com leve queda em R$ 5,61

 Apesar de aversão a risco no exterior, Bolsa limitou a perda do dia a 0,24%



O dólar operou de lado ante o real nos negócios da tarde, após uma manhã volátil, enquanto investidores aguardam desdobramentos sobre o pacote de estímulos nos Estados Unidos, cada vez menos provável de ser aprovado antes das eleições, e da agenda de reformas fiscais do Brasil, que está parada e só deve andar em novembro. A moeda americana subiu no exterior, pressionada também pelo aumento de casos de coronavírus ao redor do mundo, mas aqui ficou mais comportada, segundo operadores, por conta de um movimento de realização de ganhos após as valorizações recentes, em ritmo mais forte que outros emergentes. No ano, o dólar acumula alta de 40%.

No fechamento, o dólar à vista terminou a segunda-feira de baixo volume de negócios em queda de 0,26%, cotado em R$ 5,6151. No mercado futuro, o dólar com liquidação em novembro, que vence na sexta-feira, cedia 0,12% às 17h, cotado em R$ 5,6160.

Os estrategistas do Rabobank, Mauricio Une e Gabriel Santos, relatam que o clima no mercado nestes dias é basicamente de espera que as eleições, aqui e nos EUA, destravem decisões fiscais importantes. "Esperando e torcendo pelo melhor", destacam em relatório.

Em Washington, a expectativa é pelas medidas para estimular a economia. No Brasil, por medidas que mostrem controle de gastos e como vai ser o financiamento do novo programa social do governo.

Os dois economistas do Rabobank observam que o governo brasileiro tem dado declarações positivas sobre a responsabilidade fiscal, mas faltam avanços concretos. Com isso, a curva de juros a termo segue mais inclinada e o real desvalorizado.

Nesta segunda-feira, houve nova reunião de negociações entre a presidente da Câmara dos Representantes em Washington, Nancy Pelosi, e o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, mas sem avanços concretos. Pelosi disse estar otimista, afirmou que as partes precisam chegar a um acordo "o mais rápido possível", mas mencionou divergências entre republicanos e democratas para isso, como em um plano de testes nacionais para o coronavírus.

"A esta altura, alcançar um acordo antes das eleições parece improvável, se não completamente impossível", avalia a economista-chefe da corretora americana Stifel, Lindsey Piegza. Com isso, além do dólar em alta, as bolsas em Nova Iorque caíram mais de 2% e o petróleo fechou em forte queda.

Além do impasse nas negociações, a economista da Stifel destaca que os Estados Unidos tiveram dois dias seguidos de recordes diários de casos de coronavírus. Assim, entra no radar a possível adoção de mais medidas de distanciamento social nos estados americanos, como vem crescentemente adotando a Europa. Nesta segunda, na Alemanha, a chanceler Angela Merkel anunciou novas medidas de restrição e alertou para a piora do cenário econômico.

Ibovespa

O Ibovespa não resistiu à tarde ao aprofundamento das perdas em Nova Iorque e acabou cedendo a linha dos 100 mil pontos no pior momento do dia, chegando a 99.761,84 na mínima desta segunda-feira, saindo de máxima a 101.783,79, com abertura aos 101.259,86 pontos. Ao final, o índice da B3 mostrava leve baixa de 0,24%, aos 101.016,96 pontos, bem moderada se comparada a recuo que chegou a 2,29% (Dow Jones) em Nova Iorque, com perdas na Europa de até 3,71% (Frankfurt) na mesma sessão. Assim, o Ibovespa emendou a segunda perda, após quatro ganhos seguidos.

O desempenho positivo do setor elétrico e, especialmente, de bancos assegurou alguma resiliência à B3, em dia de queda nas ações de commodities (Petrobras PN -1,56% e Vale ON -1,50%), assim como para as ações de shoppings (Multiplan -4,29%) e do segmento de viagens e turismo (CVC -4,25%), os mais diretamente afetados pelas restrições a movimento associadas à pandemia. Enfraquecido, o giro financeiro totalizou R$ 21,9 bilhões e, no mês, o ganho do Ibovespa está agora em 6,78%, com perda no ano a 12,65%.

A aversão a risco no exterior foi o quadro de fundo para os negócios desde a manhã, em meio à segunda onda de Covid-19 na Europa - pico de infecções na França e novo estado de emergência na Espanha - e com a eleição nos EUA batendo à porta no início da próxima semana.

Mantém-se a percepção de que a contagem de votos pode ser colocada em questão como último recurso do presidente Donald Trump, caso se confirmem pesquisas que dão vantagem de 9 pontos ao adversário, Joe Biden. A massiva votação antecipada observada este ano pode ter efeito dual: por um lado, assegurar maioria de votos imune a questionamentos, caso se confirme liderança com folga, um "landslide"; e, por outro, um processo de apuração que tende a se alongar.

Neste ambiente conflagrado, a primeira vítima é o pacote de estímulos nos EUA, que deve ficar mesmo para depois de 3 de novembro, após idas e vindas nas expectativas do mercado nas últimas semanas. Chefe da assessoria econômica da Casa Branca, Larry Kudlow "sinalizou que o ímpeto acabou, e não deu nenhuma razão para otimismo de que um acordo será alcançado este ano", observa em nota Edward Moya, analista de mercado da OANDA em Nova Iorque.

Por aqui, além da expectativa positiva para os balanços do terceiro trimestre, a atenção se volta nesta semana para o comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom), ao final da reunião, na quarta-feira - espera-se algum sinal quanto a eventual aumento da Selic em 2021, ante o encurtamento de prazos e a elevação de custos para o financiamento da dívida pública, com R$ 643 bilhões em vencimentos no primeiro quadrimestre.

"A inflação se tornou um ponto de atenção do nosso lado, com a leitura da última sexta-feira, acima do esperado para o IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo -15), contribuindo para puxar o DI um pouco mais para cima. No exterior, há armas fiscais e monetárias para combater a crise, e os recentes PMIs da zona do euro, Alemanha, Reino Unido, acima do esperado, mostram isso. Nos EUA, ainda há expectativa para novo pacote, mesmo que leve mais tempo. Aqui, não temos o fiscal, e o monetário já não está tendo tanto efeito - se tiver inflação, o bicho pode pegar", observa Rafael Bevilacqua, estrategista-chefe da Levante Ideias de Investimento.

Nesta segunda-feira, a relativa recuperação do setor bancário observada recentemente contribuiu para moderar as perdas do Ibovespa. Nesta segunda, destaque para Santander (+3,74%) e Bradesco PN (+1,24%) - apesar da recente busca por ações com desconto, o setor ainda permanece muito atrasado no ano, com perdas que chegam a 34,90% (BB ON) em 2020.

Juros

Os juros começaram a semana com viés de queda e à espera da agenda importante de eventos, que tem como destaque a decisão do Copom na quarta-feira. O mercado mantém o consenso de apostas em torno da manutenção da Selic em 2% e quer ver haverá algum ajuste na linguagem do comunicado em relação ao forward guidance, segundo o qual o Copom não pretende reduzir o grau de estímulo monetário se cumpridas determinadas condições.

As taxas chegaram a ter baixa mais firme pela manhã, mas perderam ritmo à tarde, alinhadas ao aumento da cautela global, por sua vez alimentada pelas preocupações com a segunda onda de covid-19 nos Estados Unidos e na Europa e redução nas perspectiva de fechamento de um acordo para o pacote fiscal norte-americano antes da eleição em 3 de novembro.

Após a forte alta das taxas na sexta-feira, em reação ao IPCA-15 de outubro, o mercado encontrou algum espaço para reduzir prêmios, num movimento técnico estimulado pela ausência de condutores fortes para os negócios.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 encerrou em 3,43%, de 3,475% no ajuste de sexta-feira, e a do DI para janeiro de 2023 caiu de 4,92% para 4,88%. O DI para janeiro de 2025 terminou com taxa de 6,60%, de 6,625% no ajuste anterior. A do DI para janeiro de 2027 passou de 7,474% para 7,43%.

Na avaliação de profissionais, embora o mercado possa ter exagerado no "sell-off" da sessão anterior, é fato que as estimativas para a inflação estão piorando, ainda que ainda não a ponto de ameaçar as metas, e num cenário fiscal desafiador. "A questão fiscal está batendo à porta em meio a um conjunto de pressões inflacionárias represadas, como visto no IGP-M", disse o operador de renda fixa da Nova Futura André Alírio. Ele lembra que, enquanto o IGP-M pode fechar o ano com alta em torno de 20%, as projeções para o IPCA em 2020 estão perto de 3%.

Na avaliação Goldman Sachs, o prêmio embutido na curva após a reação negativa ao IPCA-15 deixou os retornos interessantes para aplicar, na medida em que o banco vê a ancoragem das expectativas abaixo das metas como sinal de que a precificação de altas para a Selic pode estar superestimada. "Mantemos nossa recomendação de venda no DI para janeiro de 2022", afirma a instituição, em relatório.

Para quarta-feira, o mercado não vê alteração para o nível da taxa básica. Resta saber se haverá alguma mudança na comunicação diante da piora das estimativas de inflação e falta de solução para o financiamento do Renda Cidadã em 2021, o que mantém em risco a regra do teto de gastos, a despeito da defesa do mecanismo feita pelas autoridades nas últimas semanas.

Para o Banco Fibra, o Copom não deve alterar o forward guidance, mas sim retirar do comunicado a referência a "espaço remanescente" para utilização da política monetária. "A despeito dos atuais ruídos, é muito prematuro o comitê alterar a prescrição dado que não houve efetivamente alteração do regime fiscal", diz o relatório, assinado pelo economista-chefe Cristiano Oliveira.


Agência Estado e Correio do Povo

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