Ao contrário dos imigrantes latinos, que apoiam claramente os candidatos democratas, os brasileiros que vivem nos Estados Unidos – e formam um comunidade de mais de 1,3 milhão de pessoas - ainda não se organizaram politicamente a fim de escolher um candidato nas eleições para presidente da República, que ocorrerão em novembro de 2016, disse a diretora executiva do Centro do Trabalhador Brasileiro, Natalícia Tracy.
“Está na hora de a comunidade brasileira escolher um candidato e ter uma posição de poder no plano político norte-americano”, afirmou Natalícia. Ela observou que imigrantes de países como o México e Cuba começaram o movimento em favor do fortalecimento político nos Estados Unidos muitos anos antes dos brasileiros e, por isso, têm candidatos que se elegeram a cargos políticos em diversas esferas. “Isso ajuda muito na hora em que a comunidade precisa levar suas reivindicações”, acrescentou.
O Centro do Trabalhador Brasileiro é uma organização comunitária, fundada por brasileiros, que se destina a ajudar famílias de imigrantes, especialmente as que moram na área de Boston, capital do estado norte-americano de Massachusetts. Boston e outras cidades de Massachusetts têm uma concentração de 300 mil brasileiros, a maior comunidade do país nos Estados Unidos,
“Chegou o momento de termos candidatos que lutem pelos interesses dos brasileiros não só em nível das eleições para a presidência dos Estados Unidos, como também para o Congresso, para os cargos estaduais e os municipais”, acrescentou Natalícia.
Radicado há 27 anos nos Estados Unidos, o cientista brasileiro Álvaro Lima ocupa o cargo de diretor de Pesquisas da Prefeitura de Boston. Ele considera que a comunidade de imigrantes brasileiros que vive no país tende a apoiar candidatos do Partido Democrata. Segundo ele, a simpatia pelos democratas decorre da posição política sobre imigrantes dos candidatos Hillary Clinton e Bernie Sanders, os dois que lutam para representar o partido nas eleições deste ano.
De acordo com Lima, Hillary e Sanders têm defendido para o eleitorado dos Estados Unidos a aprovação de uma nova política que permita a legalização de famílias de imigrantes. “Eles demonstram ter conhecimento das diferenças de origens entre os imigrantes e sabem identificar a posição política de cada governo da América Latina, ao contrário de Donald Trump e Ted Cruz, candidatos a representar o Partido Republicano nas eleições presidenciais, que parecem não fazer distinção entre o Brasil, a Venezuela e Cuba”, disse Lima.
Atendimento a brasileiros
O Centro do Trabalhador Brasileiro atende diariamente a pessoas que enfrentam problemas trabalhistas, de imigração, de aluguel, de trânsito e na área do consumidor. “Há dias em que chegamos a receber 20 pessoas com queixas diversas em nosso escritório”, disse Natalícia Tracy.
Ao chegar aos Estados Unidos, há mais de 20 anos, Natalícia conheceu - por meio da própria experiência - as dificuldades dos imigrantes. Ela viajou como empregada doméstica e foi submetida a excesso de horas de trabalho pela própria família que a levou. Hoje, ela acumula a função de professora da Universidade de Boston com o cargo de diretora executiva do Centro do Trabalhador Brasileiro, e uma de suas preocupações é o direito dos empregados domésticos brasileiros nos Estados Unidos. O centro recomenda, de acordo com Natalícia, que o empregado doméstico não se submeta a longas jornadas de trabalho e nem adicione às suas atividades específicas, por exemplo a limpeza de residências, a função de babá. Os advogados do centro também orientam os empregados domésticos a lutar por salário mínimo, horas extras e compensação do tempo trabalhado.
Natalícia lembrou que outro exemplo de problema apresentado por brasileiros é a ausência de carteira de habilitação para dirigir no país. Pelas leis de alguns estados, estrangeiros que não estejam legalizados não podem retirar a carteira de habilitação. De acordo com Natalícia, a falta da carteira, quando ocorre um acidente de trânsito, gera multas altas e até a possibilidade de deportação para imigrantes que não estejam documentados. "Este é um exemplo típico de que, se houvesse um político comprometido com as causas brasileiras, poderíamos levar uma reivindicação nessa área para esse político", afirmou a diretora.
Indígenas e defensores de direitos humanos nas regiões rurais foram os grupos que mais sofreram violações de direitos humanos no Brasil em 2015, segundo o diretor executivo da Anistia Internacional, Atila Roque. A entidade divulgou hoje (23) seu relatório O Estado dos Direitos Humanos no Mundo – 2015.
“Eles são extremamente invisibilizados neste país. Vivemos uma situação de enorme conflito no campo brasileiro, de grande patamar de violência, inclusive letal, contra defensores de direitos humanos, lideranças indígenas, camponeses, quilombolas, que confrontam interesses de toda ordem, desde grandes proprietários a grandes empresas mineradoras ou do agronegócio, que acabam fazendo uso da violência para impor seus interesses e isso passa praticamente desapercebido pela sociedade”.
Indíos protestam no Congresso Nacional, contra a PEC 215, que altera a demarcação de terras indígenas Marcelo Camargo/Agência Brasil
A violência no campo foi um dos pontos negativos registrados no Brasil pelo relatório anual da organização.
De acordo com a Anistia Internacional, as populações indígenas continuaram na longa espera por demarcação de suas terras indígenas no ano passado, “apesar de o governo federal contar com a autoridade legal e os meios financeiros para pôr em prática o processo”, aponta o documento.
Os ataques contra indígenas também persistiram impunemente em 2015, segundo o relatório. Um dos casos relatados no documento foi o ataque à comunidade Ñanderú Marangatú, no município de Antonio João, no Mato Grosso do Sul, no dia 29 de agosto do ano passado. Fazendeiros atacaram a comunidade, mataram um homem e deixaram mulheres e crianças feridas. Nenhuma investigação foi aberta sobre o ataque nem foram tomadas quaisquer medidas para proteger a comunidade contra novos atos de violência, de acordo com o relatório.
PEC 215
Segundo o diretor executivo da Anistia, a piora da situação dos direitos humanos no campo está associada a retrocessos na esfera legislativa. “Como vemos, por exemplo, a PEC 215[proposta de emenda à Constituição], que altera completamente a demarcação de terras, com grande perda para as populações indígenas e quilombolas e tradicionais”.
A PEC transfere do Executivo para o Congresso Nacional a palavra final sobre a demarcação de terras indígenas. Além disso, a proposta proíbe a ampliação de áreas já demarcadas, entre outros.
Calamidade, sofrimento, violência, abuso, injustiça e discriminação são algumas das palavras mais recorrentes nas 238 páginas do relatório da Anistia Internacional O Estado dos Direitos Humanos no Mundo – 2015, divulgado hoje (23). De acordo com o estudo, as políticas e mecanismos de garantia de direitos humanos regrediram em todo o planeta no ano passado. Dos conflitos armados à fome, da repressão governamental à impunidade de agentes públicos, a lista de barbáries é longa e continua crescendo, segundo a entidade.
“Termos chegado a um ponto tão baixo justamente quando a ONU [Organização das Nações Unidas] completa 70 anos, depois de sua criação exortar as nações a se unirem para ‘salvar as gerações futuras do flagelo da guerra’ e ‘reafirmar a crença nos direitos humanos fundamentais’, coloca-nos uma questão simples, mas inevitável: será o sistema de leis e instituições internacionais adequado para a urgente tarefa de proteger os direitos humanos?”, questiona o secretário-geral da Anistia, Salil Shetty, na introdução do relatório.
Crise migratória na Europa
Somando-se a mazelas já conhecidas no planeta e antigos conflitos armados internos e entre Estados, a crise de refugiados em 2015, sobretudo de sírios, evidenciou a incapacidade do sistema internacional em lidar com deslocamentos em massa e crises humanitárias.
Crise de refugiados em 2015, sobretudo de sírios, agravou violações de direitos humanos Georgi Licovski/EPA/Agência Lusa/Direitos Reservados
“O conflito sírio se tornou um exemplo da proteção inadequada de populações civis em risco e, de modo mais amplo, do fracasso sistemático das instituições em fazer valer o direito internacional”, afirma Shetty, ao enfatizar que o estudo não consegue “carregar a profundidade da tragédia que as crises de 2015 imprimiram em cada ser humano, sobretudo a crise dos refugiados, agora agravada pelo inverno no hemisfério Norte”.
Os poucos avanços e sinais de esperança em 2015, de acordo com o relatório, foram méritos da sociedade civil e dos movimentos sociais. Entre as conquistas, a Anistia Internacional destaca a presença de elementos de direitos humanos e a prestação de contas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU; as ações empreendidas em maio para impedir as remoções forçadas pelo projeto da rodovia de acesso a um porto em Mombaça, no Quênia; e a libertação de Filep Karma, prisioneiro de consciência em Papua após 65 mil mensagens de apoio do mundo inteiro.
“Essas conquistas não foram alcançadas pela benevolência dos Estados. Os governos devem permitir espaço e liberdade para que os ativistas e defensores dos direitos humanos realizem seu trabalho fundamental”, avalia o secretário-geral.
De acordo com o diretor executivo da Anistia no Brasil, Atila Roque, os dispositivos criados depois da 2ª Guerra Mundial para evitar tragédias ocasionadas nas duas grandes guerras – como o Tribunal Penal Internacional – têm sido esvaziados pelas grandes potências. “Um descompromisso que leva essas nações a não financiar os órgãos, como também, muitas vezes, a sabotar ativamente a atuação destes, com o uso do veto dos seis países no Conselho de Segurança das Nações Unidas contra ações em situações de crise humanitária.”
Para Roque, os países precisam rever esses comportamentos, e a sociedade deve pressioná-los nesse sentido.
Américas e Caribe
Nas Américas, as violações mais preocupantes em 2015, segundo a Anistia Internacional, foram as perseguições a defensores dos direitos humanos, principalmente aos que atuavam para enfrentar a corrupção ou defender direitos das mulheres e dos povos indígenas.
Sistemas de segurança e de Justiça fracos, corruptos e carentes de recursos compactuaram com as impunidades, diz o texto. De cada 100 homicídios cometidos na América Latina, por exemplo, apenas 20 resultaram em condenação.
No Brasil, o Poder Legislativo foi citado como fator de piora nos direitos humanos no ano passado pela aprovação de medidas conservadoras que atingem mulheres, jovens e indígenas, por exemplo. A violência policial, a repressão às manifestações sociais e remoções injustas provocadas pelas obras dos Jogos Olímpicos do Rio 2016 também contribuíram para o retrocesso dos direitos no país, segundo o relatório.
Apesar de a maioria das nações apoiar e ter ratificado normas e tratados internacionais de direitos humanos, em 2015 alguns países adotaram respostas militarizadas para enfrentar problemas sociais e políticos. O uso excessivo da força por agentes do Estado e as detenções arbitrárias foram registradas em vários países da região, entre eles Brasil, Venezuela e Estados Unidos. Os EUA também foram citados pela manutenção do Centro de Detenção em Guantánamo, em Cuba, e por serem o único país a realizar execuções no continente americano, com a pena de morte.
De acordo com a entidade, oito dos dez países mais violentos do mundo em 2015 são da América Latina e no Caribe. Em quatro deles – Brasil, Colômbia, México e Venezuela – se cometeu um de cada quatro homicídios violentos ocorridos no mundo.
A Anistia registrou relatos de níveis elevados de violência de gênero em países como Guatemala, Guiana, El Salvador, Jamaica, Trinidad e Tobago, entre outros. Torturas e maus tratos por policiais também foram registrados em grande escala nas Américas em 2015. O texto cita casos na Argentina, Bolívia, Brasil e México.
Apesar dos retrocessos, a região também teve iniciativas positivas de defesa dos direitos humanos em 2015, como o avanço nas conversações de paz entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARCs), e a criação de um mecanismo nacional para a prevenção da tortura e registro nacional das vítimas no Peru.
África
No continente africano, a impunidade foi uma das principais causas e força motriz de conflitos e instabilidades no ano passado, com pouca ou nenhuma responsabilização por crimes contra o direito internacional. Sob a justificativa de segurança nacional, combate ao terrorismo e manutenção da ordem pública, manifestações sociais foram interrompidas por agentes de segurança com força brutal e excessiva e prisões arbitrárias ocorreram em vários países, como Angola, África do Sul e Etiópia.
Denúncias de violência sexual e de gênero foram generalizadas no continente, e muitas crianças foram sequestradas ou recrutadas como soldados de grupos criminosos.
No entanto, a Anistia também identificou reformas e medidas positivas para os direitos humanos em diversos países africanos, como na Mauritânia, em que uma nova lei definiu a tortura e a escravidão como crimes contra a humanidade e baniu a detenção secreta.
Resultado do referendo impede o presidente da Bolívia, Evo Morales, de disputar novo mandato nas eleições de 2019 Arquivo/Roosewelt Pinheiro/Agência Brasil
O Tribunal Supremo Eleitoral da Bolívia (TSE) confirmou hoje (24) a vitória do não no referendo constitucional realizado no domingo (21), que impede o presidente Evo Morales de voltar a ser candidato nas eleições de 2019.
O não recebeu 51,31% e o sim, 48,69%, depois de apurados 99,49% dos votos, afirmou a presidenta do TSE da Bolívia, Katia Uriona, em relatório divulgado à noite .
Num país em que o voto é obrigatório, 6,5 milhões de bolivianos, mais 300 mil no exterior, foram chamados às urnas no domingo para autorizar o presidente a disputar em 2020 um quarto mandato, o que lhe permitiria ficar no poder até 2025.
Evo Morales, de 56 anos, no poder desde 2006, tinha previsto que o sim venceria com 70%.
A diretora-geral da OMS, Margaret Chan, concede entrevista, ao lado da diretora da Opas, Carissa Etienne Marcelo Camargo/Agência Brasil
A diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margaret Chan, visita hoje (24) a cidade do Recife. O estado de Pernambuco registra o maior número de casos de microcefalia possivelmente associados à infecção pelo vírus Zika –182 casos da malformação confirmados e 1.203 em investigação.
A previsão é que Margaret Chan, acompanhada da diretora da Organização Pan-Americana de Saúde e diretora regional da OMS paras as Américas, Carissa Etienne, conheça o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira. A instituição foi um dos primeiros estabelecimentos de saúde de Pernambuco a ser credenciado para atender a crianças com microcefalia.
A diretora-geral da OMS chegou ao Brasil ontem (23). Em Brasília, foi recebida pela presidenta Dilma Rousseff no Palácio do Planalto e participou de reuniões com o ministro da Saúde, Marcelo Castro, e com as demais pastas envolvidas na resposta brasileira à epidemia de Zika. O encontro ocorreu no Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres.
No início do mês, a OMS declarou emergência em saúde pública de interesse internacional em razão do aumento de casos de infecção pelo Zika em diversos países e de uma possível relação da doença com quadros de malformação congênita e síndromes neurológicas. A decisão foi tomada após reunião de um comitê de emergência em Genebra.
O Ministério da Saúde investiga pelo menos 3.935 casos suspeitos de microcefalia possivelmente associados ao vírus. Até o dia 13 de fevereiro, 508 casos foram confirmados e 837 descartados de um total de 5.280 notificações. Desde a última quinta-feira (18), a notificação de casos suspeitos de infecção pelo Zika é obrigatória no Brasil. Todos os casos suspeitos deverão ser comunicados semanalmente às autoridades sanitárias.
Professora da USP e autora do livro Atletas Olímpicos Brasileiros, Katia Rubio, diz que a educação motora na infância é fundamental para o crescimento olímpico Tânia Rêgo/Agência Brasil
Autora de uma das mais completas obras sobre a história olímpica do Brasil, a professora Katia Rubio, da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP), é defensora de uma educação motora durante a infância que coincida com a alfabetização tradicional.
“A educação física no Brasil é tratada como uma disciplina de segunda categoria nos projetos educacionais. Enquanto isso acontecer, nós corremos o risco de ser cada vez mais analfabetos motores”, destaca a especialista.
"Sem essa base inicial, que está na escola, a gente vai viver eternamente de esforços individuais", completa.
Em seu livro Atletas Olímpicos Brasileiros, a autora lista os mais de 1,7 mil atletas que o país enviou aos jogos até a última edição, em Londres, em 2012. Ganhadora da Medalha de Mérito Esportivo do Ministério do Esporte, ela evita eleger um personagem ou episódio que mais lhe impressionou entre tantas narrativas de superação e carências que formam a quase centenária história da participação do país nos jogos – iniciada em 1920, na Antuérpia.
Em entrevista à Agência Brasil, Katia afirma que o país ainda não desenvolveu uma política de Estado para o esporte, aponta reflexos das desigualdades brasileiras no desempenho olímpico e pede que os torcedores não recorram aos atletas olímpicos para compensar suas frustrações com o futebol. "O atleta olímpico não merece passar por isso."
Leia abaixo os principais trechos da entrevista com Katia Rubio:
Agência Brasil: O Brasil é um país muito marcado por diversos tipos de desigualdades. Essas desigualdades também aparecem quando a gente olha a história olímpica? Katia Rubio: O esporte no Brasil nasce aristocrático, e as brechas que a aristocracia deixava eram preenchidas por atletas ligados às Forças Armadas. Há uma tradição das Forças Armadas de preparar os atletas que chegam ao nível olímpico. Essa realidade se transforma depois da Segunda Guerra Mundial, quando efetivamente as camadas populares começam a ter acesso a instalações esportivas e passam a treinar e conquistar esses lugares. Mas ainda hoje essa desigualdade se coloca em muitas modalidades e dificulta imensamente o desenvolvimento do esporte no Brasil.
Agência Brasil: Há alguma forma de desigualdade que você destacaria? A regional e de renda? Katia: Certamente. Basta você ver o mapa olímpico brasileiro e quantos atletas temos das regiões Norte e Centro-Oeste em comparação com as regiões Sul, Sudeste e Nordeste. Essa desigualdade econômica obviamente se reflete no mapa olímpico brasileiro.
Agência Brasil: O Diagnóstico do Esporte mostrou no ano passado que há menos incentivos para que meninas pratiquem esporte. Essa desigualdade no início da formação chega até o nível olímpico? Katia: O resultado olímpico é um reflexo de uma construção histórica. Isso é inegável. As mulheres foram proibidas por lei de praticar algumas modalidades esportivas. A construção de uma atleta olímpica demanda anos de treinamento. Entre as mulheres terem oportunidade de praticar esporte e terem resultado, ainda há um longo caminho a se percorrer. Acredito que esses resultados positivos já alcançados são muito mais a prova de uma luta individual, e de uma luta de pequenos grupos, do que de uma política de Estado.
Agência Brasil: O país cresceu em número de medalhas nos últimos anos, mas ele pode ser considerado uma potência olímpica? O que falta para isso? Katia: Não. O que falta para o Brasil ser uma potência olímpica é uma política de Estado para o esporte, que ainda não existe. O que o Brasil tem até hoje são algumas políticas de governo que se fortaleceram a partir da criação do Ministério do Esporte. Mas isso ainda não é suficiente para que a gente tenha um desenvolvimento em quantidade e qualidade que possa levar o Brasil a ser considerado uma potência olímpica. O fato de sediarmos os Jogos Olímpicos não representa o desenvolvimento das condições de treinamento do atleta, e é a performance do atleta que vai de fato identificar o país como uma potência olímpica. As potências são aquelas que ao longo dos anos se afirmam entre os dez primeiros colocados nas diferentes edições olímpicas, e isso tem uma relação direta com o desenvolvimento econômico e educacional desses países.
Agência Brasil: Ter uma política de Estado, então, tem a ver com investimentos em educação? Katia: Claro que sim. A educação motora da criança poderia começar na escola junto com a educação cognitiva, e isso não acontece. A educação física no Brasil é tratada como uma disciplina de segunda categoria nos projetos educacionais. Enquanto isso acontecer, nós corremos o risco de ser cada vez mais analfabetos motores.
Agência Brasil: O que o Brasil pode fazer para conseguir progresso nas próximas edições dos jogos? Katia: Quatro anos são muito pouco. Você não forma um atleta olímpico em um ciclo olímpico. Para chegar a olímpico, o atleta precisa de 8 a 12 mil horas de treinamento. Não tem magia, não tem milagre. O que eu vejo é a necessidade de termos a educação física nas escolas desde muito cedo, para que a criança tenha a oportunidade de desenvolver suas habilidades motoras, e tendo as demais características que levam uma pessoa a se tornar atleta, chegar aos 14, 15 anos com condições de entrar no treinamento esportivo, que é o início da especialização para se tornar um atleta. Sem essa base inicial, que está na escola, a gente vai viver eternamente de esforços individuais.
Agência Brasil: Quando você diz cedo é na pré-escola mesmo? Katia: Sim, porque a história do esporte olímpico brasileiro é construída dentro de clubes, que são privados. Alguns atletas que conseguiram furar essa barreira social, chegaram a ser olímpicos. Outros tantos, inúmeros, milhares, ficaram pelo caminho justamente pela falta de apoio.
Agência Brasil: Um dos argumentos para sediar a Olimpíada era que o esporte olímpico do país cresceria e seria beneficiado. Isso aconteceu? Qual é a sua avaliação? Katia: Não aconteceu e sabíamos que isso não aconteceria. Esse discurso era falacioso. Um projeto de desenvolvimento do esporte exige mais de uma década, e não apenas alguns poucos anos para financiar uma realidade que se mostra difícil, diante de tantos problemas que temos. Foi apenas um discurso para conquistar a condição olímpica e nada mais do que isso.
Agência Brasil: Sediar a Olimpíada vai aumentar a pressão sobre os atletas brasileiros? A proximidade da torcida pode ter algum efeito negativo?
Katia: Isso depende muito do atleta. Tem atleta que é absolutamente acostumado a lidar com esse tipo de pressão. Há também a falta de uma cultura esportiva do povo, que está acostumado a assistir futebol, e acha que o esporte olímpico é como o futebol. O esporte olímpico exige conhecimento e uma educação para ele, e isso não acontece. Querer que os atletas brasileiros olímpicos satisfaçam a todas as frustrações que o futebol tem gerado para o país é absolutamente desprezível. O atleta olímpico não merece passar por isso. Nós, que lidamos com isso, sabemos tudo o que está por trás e toda a falta de incentivo e de condições para os atletas chegarem e desempenharem de igual para igual com os atletas bem preparados do mundo inteiro.
Agência Brasil: Quais expectativas as pessoas herdam do futebol e levam para o esporte olímpico que são injustas? Katia: O fato de ser um dos melhores do mundo. Mesmo diante de toda a decadência do futebol, ainda há um discurso ufanista, uma crença de que ganharemos de todos e quaisquer times que aparecerem. O esporte olímpico é muito mais do que isso. Há muitos bons atletas em semelhantes condições de rendimento, o que proporciona resultados muitas vezes desejados, mas inesperados na Olimpíada. É preciso estar preparado para isso. Todos os atletas que vem ao Brasil participar são os melhores em suas modalidades. Não existe ali ninguém que esteja em uma condição inferiorizada em relação ao outro. Antes de mais nada é preciso muito respeito com todo mundo.
Agência Brasil: A cultura do país também influencia no perfil de seus atletas? Você identifica algumas características específicas dos atletas brasileiros? Katia: Cada país tem as suas idiossincrasias, tem as suas características peculiares que levam os atletas a se desempenhar melhor em um ou outro esporte. E o Brasil não é diferente. Ter um número enorme de atletas no atletismo reflete, por exemplo, a falta de condições materiais para essas crianças habilidosas irem para outras modalidades. E o atletismo, por ser uma modalidade que exige basicamente o corpo e nada de equipamentos, justifica o número enorme de atletas tanto no feminino quanto masculino. E também no futebol. O atletismo e o futebol são as duas modalidades com o maior número de atletas na história olímpica do Brasil.
Agência Brasil: Ao longo do século 20, o Brasil teve diversos ciclos políticos diferentes e duas ditaduras. Esses períodos deixaram marcas na participação olímpica? Katia: O esporte é um microcosmo da sociedade. Toda edição olímpica reflete proximamente aquilo que acontece não apenas no país como no mundo. Se olharmos para a linha do tempo dos Jogos Olímpicos, não é difícil identificar aquilo que acontece não apenas no Brasil, mas no mundo como um todo. Guerras, Guerra Fria, a ditadura militar, a abertura política. Tudo isso se espelha no cenário olímpico brasileiro.
Agência Brasil: Muita gente ficou surpresa com a saudação militar (continência) feita por diversos atletas brasileiros no Pan [de Toronto, em 2015], mas as Forças Armadas sempre foram muito presentes na história olímpica brasileira. O papel delas foi mudando ao longo do tempo? Katia: Antigamente, quando falo das Forças Armadas, falo realmente do sujeito que entrava soldado e chegava a ser oficial. Hoje, há uma política diferenciada em que as Forças Armadas chamam atletas para se tornarem militares. São dois momentos diferentes do esporte militar. Primeiro, era o militar que se tornava atleta. Hoje, é o atleta que se torna militar. São situações distintas, o que não desmerece em nada o esforço desses atletas. É um reflexo da leitura que as Forças Armadas fazem hoje da importância de se ter um atleta de destaque nas suas corporações.
Agência Brasil: Falta reconhecimento aos atletas que não ganham medalha? Katia: Claro que sim, porque chegar à condição de olímpico já é um feito absolutamente maravilhoso. Pouca gente sabe a quantidade de atletas que ficaram entre o quarto e o nono lugar na história olímpica brasileira e que deixaram de ganhar uma medalha por uma fração segundo, por um detalhe na preparação e que são tão merecedores de destaque e de elogios quanto são os medalhistas.
Em 1830, depois de reiteradamente negar-se a aceitar os limites constitucionais fixados pelo congresso polaco, foi deposto como rei da Polónia pelo chamado Levante de Novembro. Nicolau respondeu aniquilando os insurrectos e anexando a Polônia como província russa. Teve uma política expansionista que começou com a Guerra da Criméia. Faleceu em São Petersburgo em 1855, antes que britânicos e franceses, aliados do Império Otomano na guerra, triunfassem no cerco de Sebastopol, abrindo o caminho às reformas efetuadas por seu filho Alexandre II.
Nicolau não foi educado para se tornar imperador da Rússia, uma vez que tinha dois irmãos mais velhos antes de si na linha de sucessão. Assim, em 1825, quando o seu irmão Alexandre I morreu subitamente de tifo, Nicolau viu-se no dilema de jurar lealdade ao seu segundo irmão mais velho Constantino Pavlovich ou aceitar o trono para si. Este impasse manteve-se até Constantino, que estava em Varsóvia na altura, confirmou a sua recusa do trono. Assim, a 25 de dezembro (13 no estilo antigo) do mesmo ano, Nicolau publicou o manifesto onde reclamava o trono para si. Esse manifesto foi nomeado de “Primeiro de Dezembro”, a data oficial em que o reinado de Nicolau I se iniciou. Nesta altura, uma conspiração foi organizada por militares para o retirar do trono e tomar o poder para eles. Esta situação levou à Insurreição Decembrista a 26 de dezembro (14 em estilo antigo) de 1825 que Nicolau conseguiu reprimir com sucesso.
Imperador e princípios
A Nicolau faltava-lhe por completo a educação espiritual e intelectual dos seus irmãos mais velhos. Ele via o seu papel simplesmente como o de um autocrata paternal que deveria manter o seu povo controlado com todos os meios necessários. Tendo passado pelo trauma da Insurreição Decembrista, Nicolau I estava determinado a ter um braço de ferro com a Sociedade russa. A Terceira Secção da Chancelaria Imperial continha um grande ramo de espiões e informadores com a ajuda dos Gendarmes, a polícia política do seu reinado. O governo exercia censura e outros tipos de controlo sobre a educação, a imprensa e ainda todas as manifestações da vida pública.
Em 1833 o ministro da educação, Sergei Uvarov, formulou o programa "Autocracia, Ortodoxia e Nacionalidade" que se tornou no guia de princípios do império. As pessoas deveriam mostrar lealdade à autoridade ilimitada do czar, às tradições da Igreja Ortodoxa Russa e, de uma forma mais vaga, à nação russa. Estes princípios levaram, falando no geral, à repressão geral e à supressão das nacionalidades não-russas e religiosas em particular. Por exemplo, o governo suprimiu as igrejas católicas gregas na Ucrânia eBielorrússia em 1839.
Nicolau não gostava da ideia de servidão e considerou aboli-la na Rússia, mas não avançou com o projeto por razões de Estado. Temia os proprietários e acreditava que eles se podiam virar contra ele se ele lhes tirasse os servos. Contudo fez alguns esforços para melhorar as condições de vida dos servos pertencentes ao Estado, com a ajuda do ministro Pavel Kiselev. Durante a maior parte do seu reinado, tentou aumentar o seu controlo sobre os proprietários de terra e outros grupos influentes da Rússia.
Cultura
A ênfase oficial sobre o nacionalismo russo contribuiu para o debate do lugar da Rússia no mundo, o significado da História Russa e a Rússia futura. Um grupo, os ocidentalizadores, acreditava que a Rússia permanecia atrasada e primitiva e apenas se poderia modernizar através da europeização. Outro grupo, os eslavófilos, favoreciam entusiasticamente os eslavos, a sua cultura e os seus costumes, mostrando desagrado para com os ocidentes e a sua cultura.
Os eslavófilos viam a filosofia eslava como a fonte da complementação russa e eram cépticos quanto ao racionalismo e materialismo ocidentais. Alguns deles acreditavam que a comuna de camponeses russa, ou Mir, oferecia uma alternativa atraente ao capitalismo ocidental e poderia tornar a Rússia numa potência social e de salvação moral, representando assim uma forma de messianismo russo.
Apesar da repressão neste período, a Rússia viu um florescer da literatura e das artes. Através dos trabalhos de Aleksandr Pushkin, Nikolai Gogol, Ivan Turgenev entre muitos outros, a literatura russa ganhou estatuto e reconhecimento internacionais. O ballet enraizou-se na Rússia após a sua importação da França e a música clássica estabeleceu-se com as composições de Mikhail Glinka.
casada com o Príncipe Frederico Guilherme de Hesse-Cassel; teve um filho que morreu pouco depois de nascer. Ela também acabou por morrer nesse dia devido a complicações no parto.