terça-feira, 6 de setembro de 2022

Dólar recua 0,59% e encerra cotado a R$ 5,15

 Moeda norte-americana fechou a semana passada com alta de 2,10%



O dólar abriu a semana em baixa no mercado doméstico de câmbio, voltando a testar o patamar de R$ 5,15, em meio ao avanço dos preços das commodities na esteira de anúncio de estímulos monetários na China. Houve relatos de entrada de fluxo externo e movimento de ajustes e realização de lucros, dado que a divisa fechou a semana passada com alta de 2,10%. Operadores ressaltam, contudo, que a ausência dos mercados americanos, fechados pelo feriado do Dia do Trabalho nos EUA, deprimiu a liquidez e deixou a formação da taxa de câmbio mais suscetível a negócios pontuais.

Afora uma alta esporádica e bem limitada nos primeiros minutos do pregão, quando registrou a máxima da sessão (R$ 5,1904), o dólar operou em baixa ao longo de toda o dia. À tarde, renovou sucessivas mínimas, flertando com rompimento do piso de R$ 5,15, ao tocar R$ 5,1507 (-0,66%). No fim, a divisa era cotada a R$ 5,1540, em baixa de 0,59%. Termômetro do apetite por negócios, o contrato de dólar futuro para outubro apresentou giro deprimido, inferior a US$ 8 bilhões.

"O que está impactando o dólar hoje é mesmo essa alta mais forte das commodities. Parece que existe um fluxo bom para a Bolsa ajudando o câmbio", afirma o analista de câmbio da corretora Ourominas, Elson Gusmão, ressaltando que a liquidez esta muito reduzida. "A única coisa que podemos prever para o câmbio é muita volatilidade. Além das questões externas, temos um período conturbado com as eleições".

No exterior, o dólar subiu em relação a moedas fortes, em especial o euro, que atingiu o menor nível em 20 anos, abalado pela crise energética na Europa. A estatal russa Gazprom interrompeu o fornecimento de gás ao continente por meio do gasoduto Nord Stream 1 por tempo indeterminado pretextando necessidade de manutenção. A Europa sofre com a combinação de perda de fôlego da atividade com inflação recorde.

O PMI Composto da zona do euro, que abrange indústria e serviços, caiu para 48,9 em agosto, o menor nível em 18 meses. As vendas no varejo na região subiram 0,3% em julho em relação a junho, abaixo do esperado (+0,4%). Na comparação anual, houve retração de 0,9%. Apesar do temor de estagflação, especula-se que o Banco Central Europeu possa anunciar, na quinta-feira, 8, alta da taxa de juros em 75 pontos-base. Também na quinta-feira o mercado vai monitorar discurso do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, para calibrar as apostas para o tamanho do ajuste monetário nos EUA.

Em relação a divisas emergentes e de exportadores de commodities, o dólar teve comportamento misto, com queda na comparação com real, rand sul-africano e o peso colombiano. Na contramão, apareciam o peso mexicano e o chileno, que reverteu os ganhos vistos mais cedo, atribuídos ao fato de a população chilena ter rejeitado, em plebiscito, a nova Constituição.

Commodities metálicas como cobre e minério de ferro apresentaram alta firme, insufladas pelo corte da taxa de compulsório bancário em 2 pontos porcentuais, para 6%, pelo Banco do Povo (PBoC, o banco central chinês). O recuo do PMI composto da China de 54 em julho para 53 em agosto alimenta a visão de perda de fôlego do gigantes asiático, embora leituras acima de 50 ainda indiquem expansão.

O economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, afirma que o desempenho da atividade na China, embora ainda positivo, dá sinais de que está perdendo força, refletindo bloqueios relacionados à política de Covid-zero e à queda do setor imobiliário. A recuperação das commodities, em particular o petróleo, contribuíram para o recuo do dólar nesta segunda, mas há certa rigidez "para baixo", com desaceleração do fluxo externo e "risco de correção dos mercados acionários nos EUA ao longo de setembro", afirma Velho.

Achatados na semana passada, os preços do petróleo subiram com força nesta segunda após o grupo que reúne países exportadores (Opep+) anunciar retomada, em outubro, dos níveis de produção de agosto - o que significa um corte de 100 mil barris por dia na oferta do óleo. O contrato do Brent para novembro - referência para Petrobrás - fechou em alta de 2,93%, a US$ 95,75 o barril.

A economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico, afirma que a moeda brasileira encontra certo suporte no aumento da internalização de recursos para exportadores. "Seguem firmes os 'drivers' sempre mencionados de diferencial de juros e, principalmente de crescimento, tendo em vista a divulgação do PIB do segundo trimestre, que sacramentou crescimento superior a 4% anualizados no primeiro semestre do ano, contra a forte desaceleração da economia global nesse período", afirma a economista, em relatório.

Taxas de juros

Os ativos domésticos resistiram à pressão negativa vinda dos mercados europeus e, no caso dos juros futuros, as taxas oscilaram ao redor da estabilidade, com viés de baixa na maior parte da sessão, mas também com liquidez comprometida pela falta da referência das bolsas americanas. Nesta segunda-feira foi feriado do Dia do Trabalho nos Estados Unidos. O eventual impacto do aumento dos preços do petróleo acabou sendo neutralizado pelo alívio no câmbio, com o real sendo beneficiado pelo avanço das commodities. Ainda, o cenário positivo para a inflação no curto prazo no Brasil ajudou a proteger a curva do mau humor no exterior.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2024 fechou em 12,82%, de 12,84% no ajuste de sexta-feira, e a do DI para janeiro de 2025 passou de 11,70% para 11,69%. O DI para janeiro de 2027 terminou com taxa de 11,45%, de 11,47%.

Como destacou o economista-chefe do Banco Original, Marco Caruso, no podcast Diário Econômico, a ausência de Wall Street deixa os preços por aqui a mercê de fluxos pontuais, mas, com o cenário externo mais negativo que o local, "tirar o gringo da equação" acaba ajudando.

Na Europa, a crise energética recrudesceu, com o corte de fornecimento de gás russo fazendo disparar o preço do combustível e contaminando as cotações do petróleo. Com isso, aumentam as pressões inflacionárias e sobre o Banco Central Europeu (BCE), que não deve, na reunião de quinta-feira (8), ter como escapar do aumento de 75 pontos-base no juro, ainda que colocando a economia em risco. "Há dois setores que espalham crise: bancário e de petróleo. A equação global segue complexa", comentou Caruso.

Além da Rússia, ajudou a puxar o petróleo para cima a decisão da Opep+ de reduzir em 100 mil barris por dia a produção a partir de outubro. Embora o mercado já trabalhasse com essa possibilidade, a confirmação do corte elevou a preocupação sobre a oferta depois da Rússia cortar o gás para a Europa. O barril do Brent, parâmetro para os preços da Petrobras, subiu quase 3%, fechando em US$ 95,75 no contrato para novembro.

O petróleo em alta traz viés inflacionário para o mundo todo, mas, sendo o Brasil exportador, o real foi uma das poucas moedas no dia a ter desempenho positivo ante o dólar, o que ajudou a ancorar a curva, especialmente quando o dólar futuro para outubro inverteu o sinal para queda no começo da tarde.

Após quatro sessões seguidas de baixa, um dia sem Nova York e com agenda doméstica esvaziada representaria, em tese, oportunidade para um movimento de realização de lucros, mas o estrategista-chefe da Necton Investimentos, Felipe Beckel, afirma que as expectativas de inflação de curto prazo bem menos pressionadas têm levado o mercado a zerar posições especulativas e a adiar ajustes. "Estou surpreso, pois olhando lá fora parece que vem mais pressão", afirmou Beckel.

No Boletim Focus desta segunda, a estimativa para o IPCA foi reduzida de 6,70% para 6,61%. Para 2023, a mediana vêm caindo paulatinamente, para 5,27%, de 5,30% na pesquisa anterior. Cada vez mais ganhando espaço no horizonte de política monetária, a mediana para o IPCA de 2024, ao contrário, subiu, de 3,41% para 3,43%. No que diz respeito à Selic, a mediana para o fim de 2022 permaneceu em 13,75%, mas o mercado agora trabalha com um espaço ligeiramente menor para os cortes em 2023, com a mediana avançando a 11,25%, de 11,00%.

Bolsa

Mesmo sem a referência de Nova York na sessão, pelo feriado do Dia do Trabalho nos Estados Unidos, o Ibovespa e o câmbio continuaram a refletir um descolamento benigno do Brasil de fatores de risco externo, que punem neste momento em especial os ativos europeus, com a aproximação do inverno no Hemisfério Norte em meio a incertezas tanto sobre o custo como sobre o nível de abastecimento de gás natural no velho continente. Nesta segunda-feira, a referência da B3 emendou o terceiro ganho em uma largada de setembro até aqui sem revés.

Entre mínima de 110.864,76 e máxima de 112.671,39 pontos, o índice fechou em alta de 1,21%, aos 112.203,35 pontos, saindo de abertura aos 110.867,93 pontos. Muito enfraquecido pelo feriado em Nova York, o giro financeiro ficou em R$ 19,4 bilhões na sessão. Em setembro, o Ibovespa avança 2,45%, colocando os ganhos do ano a 7,04%.

O desempenho das ações de commodities como petróleo e minério de ferro, em recuperação parcial de preços nesta segunda-feira, foi fundamental para que o Ibovespa subisse na abertura da semana. Ao fim, contudo, Petrobras refugou ao fechar em baixa de 0,21% (ON) e de 0,27% (PN), após ter chegado a se alinhar, ainda que a uma grande distância, ao sinal de retomada do Brent na sessão, em alta de quase 3% em Londres, a US$ 95,75 por barril para novembro. A Opep+ informou nesta segunda-feira corte de 100 mil barris por dia na oferta da commodity, na contramão da pressão ocidental por aumento de fornecimento.

"Enquanto uns sofrem, outros comemoram. O Ibovespa hoje foi fortemente beneficiado pelo mesmo fator que preocupa mercados europeus: a oferta limitada de commodities", observa Paula Zogbi, analista da Rico Investimentos, destacando o desempenho do segmento de materiais básicos na B3 nesta segunda-feira, com o IMAT em alta de 1,97% no fechamento. O dia também foi positivo para as ações com exposição à economia doméstica, com o índice de consumo (ICON) em alta de 0,94%.

Lá fora, o corte de oferta de petróleo vem em momento de muita cautela no mercado de energia, com novas interrupções no fornecimento de gás russo à Europa. A perspectiva de temperaturas mais baixas já em outubro, com o outono, traz pressão adicional sobre a inflação no continente. "Esta nova onda pode contribuir para a curva da inflação ao consumidor continuar em linha crescente no gráfico, com raízes no preço do gás natural, em disparada desde o início do ano", diz Rodrigo Simões, professor da FAC-SP especializado em economia e finanças, referindo-se aos efeitos da invasão da Ucrânia pela Rússia sobre o setor de energia.

"A zona do euro tem cenário desafiador nos próximos meses para tentar controlar este jogo de xadrez: uma combinação dura de inflação com subida de taxa de juros e diminuição da atividade econômica", acrescenta Simões. Assim, nesta segunda-feira, o sinal foi majoritariamente negativo especialmente no horário de negócios na Europa, onde as perdas nas principais praças chegaram a 2,22% (DAX, de Frankfurt).

"Houve estresse grande na Europa num dia que era pra ser tranquilo com o feriado do Dia do Trabalho nos Estados Unidos. O anúncio da Gazprom, da Rússia, de interromper o fluxo do Nordstream, que começou ainda na quinta, sexta-feira com alegação de motivos técnicos, de vazamentos, vem agora com alegação de que, se não tirarem as sanções, não mandarão o gás", diz Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master.

"Semana importante para a Europa com a decisão sobre juros do BCE (Banco Central Europeu), em que o mercado está dividido entre um aumento de 0,50 ou de 0,75 ponto porcentual para esta reunião, no momento em que o continente parece caminhar para uma recessão. As notícias de seca, de que seria a maior em 500 anos, também estão muito fortes", acrescenta o economista.

No domingo, a Alemanha, maior economia do bloco, anunciou um pacote de iniciativas para mitigar os efeitos da escalada dos custos de energia para os consumidores, mas o plano foi considerado curto demais pelo mercado. "Embora o pacote (de 65 bilhões de euros) traga algum alívio para os financeiramente mais fracos, é duvidoso que seja suficiente para compensar totalmente o impacto das contas de energia mais altas", aponta o ING, acrescentando que 65 bilhões de euros são menos de 2% do PIB alemão. "O estímulo fiscal alemão durante a pandemia, excluindo garantias, totalizou cerca de 15% do PIB", acrescenta o banco, em relatório a clientes.

Na B3, o desempenho positivo foi assegurado pelo setor de mineração e siderurgia, com Vale à frente (ON +3,66%), ainda em patamar de preço muito depreciado, a R$ 65 a ação, acumulando perda de quase 9% no ano. Nesta segunda, a alta de cerca de 4% para o minério de ferro na China (Dalian), embora ainda abaixo de US$ 100 por tonelada, contribuiu para o avanço das ações do setor, com destaque também para Gerdau (PN +1,45%) e CSN (ON +2,01%). Os grandes bancos foram outro ponto favorável do dia, com ganhos até 1,62% (Itaú PN), à exceção de BB (ON -2,12%).

Na ponta do Ibovespa nesta segunda-feira, Pão de Açúcar (+9,72%), PetroRio (+6,45%), Sul América (+3,77%) e Vale (+3,66%). No lado oposto, Positivo (-2,68%), Marfrig (-2,41%) e Banco do Brasil (-2,12%). "O mercado esteve mais esvaziado hoje por conta do feriado americano. De novidade, uma depreciação de Europa até maior do que a gente imaginava, principalmente pela inflação no preço do gás, o que causou uma deterioração dos ativos de lá", diz José Simão, sócio e head de renda variável da Legend Investimentos.

"Aqui, a gente tem ainda um pouco do reflexo positivo do PIB, que veio na semana passada. A fotografia que fica é Brasil com números um pouco melhores especialmente em relação à atividade econômica, e lá fora, dando continuidade, Europa em situação bem pior, com PMIs índices de atividade andando pra baixo, e Estados Unidos trazendo juros para ao menos 4% (ao ano) para, futuramente, ancorar as expectativas em direção à meta de inflação", acrescenta o gestor.

"Os investidores seguem preocupados com a crise energética do continente europeu devido ao corte de fornecimento de gás pela Rússia por tempo indeterminado, e também ainda receosos com a possível alta de juros, mais elevada, que será decidida na próxima reunião de política monetária do Banco Central Europeu", nesta quinta-feira, dia 8, observa Letícia Sanches, especialista em renda variável da Blue3.

Agência Estado e Correio do Povo

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