quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Sagasti toma posse como novo presidente do Peru após semana de caos

 Engenheiro será empossado em sessão plenária marcada para 16h00 (18h00 de Brasília)


O centrista Francisco Sagasti toma posse, nesta terça-feira, como o novo presidente do Peru com o desafio de encerrar a crise política que afeta o país andino e conduzi-lo às eleições de abril de 2021, mas com o apoio dos cidadãos indignados que derrubaram seu antecessor.

O engenheiro e acadêmico de 76 anos será empossado em sessão plenária no Congresso marcada para 16h00 (18h00 de Brasília). "Não é um momento de festa, temos muitos problemas, tragédias e dificuldades (...) É um momento para nos perguntarmos onde foi que perdemos o rumo", declarou Sagasti após ser eleito novo chefe do Congresso na segunda-feira.

Sua eleição, em votação na qual era o único candidato, fez dele automaticamente o novo presidente do Peru, o terceiro a ocupar o cargo em oito dias, um reflexo da fragilidade institucional do antigo vice-reinado espanhol.

"É uma escolha muito boa a de Francisco Sagasti como presidente", disse o analista político Augusto Álvarez Rodrich à AFP. "Sua eleição ajuda a construir um momento de estabilidade política e econômica, ele tem boas perspectivas", acrescentou.

A crise foi desencadeada em 9 de novembro pelo próprio Congresso, quando destituiu o popular presidente Martín Vizcarra (centro-direita) num processo relâmpago de impeachment, sob a acusação de suposta corrupção quando o chefe do Executivo era governador em 2014. A denúncia está sendo investigada pelo Ministério Público e a Justiça proibiu o ex-presidente de deixar o Peru por 18 meses.

No dia seguinte, o chefe do Congresso, Manuel Merino, também de centro-direita, tomou posse, mas milhares de cidadãos indignados, principalmente jovens, saíram às ruas para protestar contra o que chamaram de "golpe de Estado". Os protestos, que duraram cinco dias, foram reprimidos com violência pela polícia, deixando dois mortos e mais de cem feridos.

A bancada do centrista Partido Morado de Sagasti foi a única que votou em bloco contra a destituição de Vizcarra, o que contribuiu para que assumisse a liderança do novo governo de transição até 28 de julho de 2021, dia do bicentenário da Independência do Peru.

As eleições presidenciais e legislativas estão convocadas para o próximo dia 11 de abril.

Aprovação de Vizcarra

A eleição de Sagasti foi saudada na segunda-feira por centenas de manifestantes reunidos em frente ao prédio do Congresso, em outros pontos de Lima e em várias cidades. "Ele é uma pessoa tecnicamente preparada, o que não acontecia com o usurpador anterior. Estou mais aliviado, mas ainda não satisfeito porque há membros do Parlamento que também deveriam sair", disse à AFP Walter Núñez, ator e palhaço de 30 anos.

"Todos os jovens sentem que alcançaram uma pequena conquista, mas não é suficiente. Este presidente tem que fazer algo para manter a democracia, mas a partir de abril, das eleições, depende de nós", disse Geraldine Aldave, designer de moda de 22 anos.

Sagasti disse que as prioridades de seu mandato de oito meses serão a pandemia do coronavírus (o país acumula 930 mil infecções e 35 mil mortes), a recessão econômica, o combate à corrupção e à insegurança, além da realização de eleições limpas.

Vizcarra saudou a eleição de Sagasti depois de der denunciado a falta de "legalidade e legitimidade" de Merino. Abandonado pelo Congresso, Merino renunciou no domingo, cinco dias depois de assumir o cargo, encurralado por protestos e críticas à sua repressão.

"Quando um peruano morre, e mais ainda se é jovem, todo o Peru fica de luto. E se ele morre defendendo a democracia, a indignação se soma ao luto", afirmou Sagasti.

Imagem deve melhorar

A liderança do Congresso será assumida pela esquerdista Mirtha Vásquez, que também votou contra a destituição de Vizcarra. "Ter uma presidente de esquerda no Congresso melhorará sua imagem", disse o analista Álvarez Rodrich.

No entanto, é difícil prever o que fará um Congresso fragmentado e dominado por quatro partidos populistas durante o governo de Sagasti, após frequentes confrontos com Vizcarra e com seu antecessor Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018).

Não ficarão impunes

O Ministério Público abriu uma investigação preliminar contra Merino na segunda-feira pelas mortes dos dois manifestantes, aparentemente, nas mãos da polícia. "Essas mortes ou homicídios não ficarão impunes", prometeu a procuradora nacional, Zoraida Ávalos.

O secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, declarou-se na segunda-feira "profundamente perturbado" com a repressão policial no Peru, que terminou após a queda de Merino.

A ONU também anunciou o envio de uma missão a Lima para investigar as supostas violações dos direitos humanos.


AFP e Correio do Povo

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