segunda-feira, 7 de outubro de 2019

A guru mimada - Luiz Felipe Pondé

Só há um ambiente onde o dinheiro não é o mais importante: onde ele sobra

O mundo contemporâneo é ridículo. Já sabemos disso. Cheio de ruídos, histeria e fetiches. Se a ciência é o fetiche da burguesia (Adorno), GretaThunberg é o novo fetiche dos inteligentinhos.

Não se trata de entrar nos esquemas paranoicos de quem acha que ela seja financiada pelo big business verde. Quem duvida que não se deve torrar a Amazônia é mal informado.

Muito menos se trata de achar que Emmanuel Macron queira tomar a Amazônia para construir uma
fábrica de croissant.

Na ilustração, está representado um cenário de fantasia. Há um rio volumoso que cruza toda a cena, em volta ele há bastante grama. No centro da ilustração, há uma espiral que sobe a partir da terra e sustenta um prédio semelhante a um castelo, mas com uma torre central que solta um feixe de luz. Também há uma onda de moedas e um incêndio no fundoRicardo Cammarota/Folhapress

Trata-se de perceber que a pequena menina sueca que não vai à escola (afinal,  escola para quê, né?) presta um desserviço a quem se preocupa com as condições ambientais de fato. Sua histeria raivosa clara é coisa de criança mimada.

Há aqueles que dizem que a pequena Joana D’Arc numa versão gourmet (com a diferença, entre outras, que a verdadeira Joana D’Arc foi queimada em nome do que acreditava, e Greta quer
queimar o mundo todo em nome de ter uma desculpa para não ir à escola) pensa assim (refiro-me a seu desprezo pelo crescimento econômico global) porque vive e foi educada num ambiente em que o dinheiro não era o mais importante. Risadas?

Só há um tipo de ambiente onde o dinheiro não é o mais importante. Um ambiente onde sobra dinheiro.

A pequena sueca cresceu num ambiente onde sobra dinheiro. A Escandinávia é um parque temático que produziu a Greta como sua Branca de Neve raivosa.

Proponho que ela e seus seguidores enfrentem a China no seu mimimi raivoso chique. A China vai comer com farinha essa discussão gourmet criada a pão de ló.

Um jovem, por definição, entende pouco do mundo. O que prova essa tese, entre outras coisas, é que é muito mais fácil sair em ambientes seguros xingando todo mundo do que enfrentar o dia a dia de uma adolescente comum.

Como sempre digo, os jovens que querem salvar o mundo (muitas vezes aplaudidos por pais tão infantis quanto eles) preferem salvar o mundo do que arrumar seu próprio quarto. Metaforicamente, diria que a mimada Greta é um caso paradigmático de uma civilização que elegeu o modo Nutella de ser como seu horizonte.

Infelizmente, essa criança está sendo cultuada como símbolo do que há de mais ridículo no mundo contemporâneo: uma revolta feita para o Instagram.

Outra prova é o número de Gretas que estão aparecendo por toda parte. As redes sociais, na sua ambivalência característica, serve de cultura (como no caso de cultura de bactérias) para esse crescimento genérico.

Não tenho dúvida que o crescimento econômico é uma questão séria e que seus efeitos colaterais podem nos ser perversos. O problema é que a única solução seria que a população fosse reduzida a um terço do que ela é hoje. Quem vai matar os dois terços restantes para sermos sustentáveis e fofos? Será que os seguidores da Greta topariam a empreitada?

Luiz Felipe Pondé

Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.


Folha de S. Paulo

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