Bolsa cai e dólar sobe após críticas de Guedes a relatório da Previdência

Dólar fecha em R$ 3,89, alta de 1,15%

Além da troca de farpas entre Guedes e Maia, tensão entre EUA e Irã também abala índices

Além da troca de farpas entre Guedes e Maia, tensão entre EUA e Irã também abala índices | Foto: Marcello Casal jr / Agência Brasil / CP

A explícita insatisfação do ministro da Economia, Paulo Guedes, com o relatório da reforma da Previdência reacendeu os temores de desentendimentos entre Executivo e Legislativo e o mercado de ações trocou o otimismo pela prudência. As críticas do ministro foram rebatidas no mesmo tom pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). O deputado afirmou não ter compromisso com o governo – que chamou de "usina de crises" – mas garantiu que a reforma será votada na Câmara antes do recesso parlamentar.

Em meio à troca de farpas, o Índice Bovespa terminou o dia em queda de 0,74%, aos 98.040,06 pontos. Com esse resultado, encerrou a semana com alta de 0,22%.

O cenário internacional também não ajudou. Indicadores econômicos chineses frustraram expectativas e houve tensão com a relação entre Estados Unidos e Irã, acusado por Washington de ser o responsável pelo ataque a dois navios petroleiros na véspera.

No âmbito macroeconômico doméstico, o IBC-Br de abril abaixo do piso das estimativas trouxe desânimo para as ações, com analistas já à espera de redução das estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB) na próxima edição do Boletim Focus. "O receio do mercado se dá porque as críticas de Paulo Guedes chegam em um momento em que o processo de tramitação não está nem na metade. O mercado vinha precificando a aprovação, mas não há nada de concreto ainda. Com o cenário externo negativo e as críticas do ministro, não havia motivo para o Ibovespa se sustentar no patamar próximo dos 99 mil pontos", disse Victor Beyruti, da área de análise da Guide Investimentos.

Entre as ações do Ibovespa, as quedas mais expressivas ficaram novamente com as do setor financeiro, que reagem à proposta de restabelecimento da alíquota de 20% na Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) para os bancos. A elevação de imposto no relatório do deputado Samuel Moreira (PSDB-SP) foi um dos pontos mais atacados por Paulo Guedes. "Isso aí (o valor de R$ 913,4 bilhões anunciado) estão pegando imposto, botando imposto sobre banco. Isso é política tributária. Estão buscando dinheiro de PIS/Pasep, mexendo em fundos. Estão botando a mão no dinheiro do bolso dos outros", afirmou Guedes, ao deixar evento no Consulado-Geral da Itália.

Ao final dos negócios, Banco do Brasil ON teve queda de 1,77%, Bradesco ON perdeu 1,36% e B3 ON recuou 5,32%. Já Itaú Unibanco PN recuperou-se ligeiramente e terminou o dia praticamente estável (+0,03%).

Já as ações da Petrobras seguiram caminhos distintos, em dia de alta do petróleo no mercado internacional. As ações ordinárias da estatal, preferida por investidores estrangeiros, tiveram alta de 0,94%. Já as preferenciais, que concentram maior liquidez, recuaram 0,44%. Vale ON caiu 0,87%, alinhada aos dados negativos da China.

Dólar

O ressurgimento das tensões políticas domésticas fez com que investidores corressem ao dólar em busca de proteção ao longo da tarde desta sexta-feira. Já em alta pela manhã em meio a um movimento global de fortalecimento da moeda americana, o dólar acelerou à tarde após declarações duras do ministro da Fazenda, Paulo Guedes, sobre o parecer da reforma da Previdência apresentado na quinta-feira na comissão especial da Câmara.

Com máxima de R$ 3,9136, o dólar à vista encerrou a sessão desta sexta-feira em alta de 1,15%, a R$ 3,8991 - maior valor de fechamento em junho. Apesar de terminar a semana com alta de 0,57%, a moeda americana ainda cai 0,67% no acumulado do mês.

Em conversa com jornalistas no Rio, Guedes disse que, com seu parecer, o relator da Previdência, deputado Samuel Moreira, abortou a Nova Previdência e cedeu ao "lobby dos servidores públicos" com alteração das regras de transição. O ministro também criticou o aumento de alíquotas da Contribuição sobre Lucro Líquido (CSLL) sobre bancos e a possibilidade de que os recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) deixem de ser repassados ao BNDES e passem a engordar os cofres da Previdência.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, até então visto como interlocutor preferencial de Guedes no Congresso, saiu em defesa do relator e disse que Guedes não está sendo justo com o parlamento, que estaria "comandando sozinho a articulação pela aprovação da reforma". Para Maia, o governo é "uma usina de crises" e que "Guedes falhou" ao não respeitar o parlamento.

Maia vendeu a imagem do Congresso como fiador da reforma da Previdência em meio a atuação errática do governo Jair Bolsonaro e garantiu que a PEC vai ser votada no plenário da Câmara antes do recesso parlamentar em julho, o que pode ter ajudado a tirar pressão compradora do dólar. Há temores de que um confronto entre Guedes e o parlamento leve a uma diluição maior da reforma da Previdência no plenário da Câmara. Um divórcio entre governo e Congresso também lança dúvidas sobre o restante das reformas e abala a confiança dos investidores, justamente em um momento em a economia brasileira flerta com a recessão.

O Banco Central (BC) divulgou pela manhã que seu Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) caiu 0,47% em abril em relação a março e aumentou a pressão por uma redução de juros. Para o gerente de Câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, os ruídos políticos podem levar investidores a buscar hedge e elevar posições compradas (que ganham com a alta do dólar) no curto prazo.

"Aparentemente não vamos voltar a ver o dólar subir para R$ 4, mas pode haver uma volta da busca por proteção, empurrando a cotação para a casa de R$ 3,90", diz Galhardo.

Além da volta do espectro da crise política, o real também foi abalado nesta sexta-feira pela alta global da moeda americana, após dados mais melhores que o esperado da economia dos Estados Unidos, como vendas no varejo e produção industrial, jogarem dúvida sobre um corte iminente dos juros pelo Federal Reserve. O índice DXY - que mede o desempenho da moeda americana em relação a uma cesta de seis divisas fortes - subiu mais de 0,5% e atingiu o maior patamar em mais de duas semanas.

O dólar também avançou em relação à maioria das divisas de países emergentes e exportadores de commodities, embora tenha caído na comparação com o peso mexicano, considerado par do real.

Taxas de juros

A semana terminou com cautela no ambiente político e dólar em alta, mas os juros renovaram o fôlego de queda nesta sexta-feira, amparados principalmente pelo aumento do risco de nova recessão no País após a divulgação do IBC-Br de abril. À tarde, o mercado ensaiou realização de lucros com a piora do câmbio e críticas do ministro da Economia, Paulo Guedes, ao relatório da reforma da Previdência. As taxas chegaram a zerar o recuo e até a operar em leve alta nos vencimentos longos, mas o movimento não evoluiu, na medida em que o dólar, que chegou a superar R$ 3,91, retornou ao patamar de R$ 3,89.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2020 terminou em 6,04%, de 6,088% quinta-feira no ajuste, e a do DI para janeiro de 2021 caiu de 6,069% para 6,02%. A taxa do DI para janeiro de 2023 fechou pela primeira vez abaixo dos 7%, em 6,96%, de 7,011% quinta no ajuste. A taxa do DI para janeiro de 2025 recuou de 7,541% para 7,51%. A sessão teve volume robusto, em especial na ponta curta, onde estão concentradas as apostas para a política monetária nos próximos meses.

Às vésperas do Copom na semana que vem, a queda do IBC-Br de abril ante março, de 0,47%, informada pelo Banco Central, foi maior do que apontava o piso das estimativas (-0,40%) e colocou de vez na mesa o debate sobre uma possível recessão técnica no País. "Com a surpresa negativa do IBC-Br e dos demais dados da atividade da semana, há riscos substanciais e crescentes de termos recessão técnica no segundo trimestre", disse a economista-chefe da XP Asset Management, Isabela Guarino, em entrevista ao Broadcast ao Vivo.

Nesta sexta-feira, mais duas instituições revisaram em baixa sua estimativa para o crescimento este ano. O Itaú Unibanco cortou não somente sua previsão para 2019, de 1,0% para 0,8%, como também para 2020, de 2,0% para 1,7%. Já o JPMorgan agora espera PIB de 0,7% em 2019, ante 0,9% anteriormente, mas manteve a projeção de 2% para o ano que vem.

Nesse contexto, o pessimismo com a economia limitou uma reação mais negativa do mercado de juros aos eventos da tarde, mas ainda assim a queda das taxas perdeu ritmo com o dólar renovando máximas até R$ 3,9136 no mercado à vista em meio ainda às declarações de Paulo Guedes, retrucadas depois pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia. "O ambiente político ficou ruim e tivemos o dólar se fortalecendo mais, o que reduziu um pouco o oba-oba no mercado de juros", disse o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno.

Guedes não gostou do fato de os Estados terem ficado de fora do relatório, criticou o aumento da alíquota da CSLL aos bancos e contestou o valor de R$ 913,4 bilhões de economia divulgado pelo relator Samuel Moreira (PSDB-SP), dizendo que a economia, na verdade é de R$ 860 bilhões. "Se sair só R$ 860 bilhões de cortes, o relator está dizendo o seguinte: abortamos a Nova Previdência e gostamos mesmo da velha Previdência. Cedemos ao lobby dos servidores públicos, que eram os privilegiados", afirmou o ministro.

Maia respondeu a Guedes de forma incisiva, dizendo que o "Parlamento está tocando sozinho a reforma da Previdência", que o governo "é uma usina de crises", entre outras declarações.


Agência Estado e Correio do Povo


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