Algo semelhante ao que se observa na conduta da esquerda em relação a Cuba, promovendo sua iconografia e fazendo a propaganda do regime para os incautos, acontecia, até 1989, tendo a URSS como referência. Os latidos da cadelinha Laika, embarcada no seu canil espacial, causavam orgasmos múltiplos entre os admiradores do regime. Eram como babeiros que a utopia comunista amarrava ao pescoço do Ocidente: babai de inveja ante o paraíso, incrédulos capitalistas!
Pouco mais tarde, a cadelinha morreu velha e o regime de fome. A partir de então, o santuário mudou-se para Cuba e Havana para onde corações e mentes confluem em reverência. Isso ficou muito nítido durante as reuniões Fórum Social Mundial: toda menção à Ilha de Fidel era recebida pelo público com um fervor pentecostal.
Mas, assim como a URSS tinha mais de inferno que de paraíso, Cuba não é exatamente a Suíça do Caribe: após 45 anos de rigorosa aplicação da cartilha, a economia local não gera bens de consumo nas proporções mínimas necessárias, as eleições são uma farsa, as prisões políticas estão recebendo novos hóspedes, persistem a tortura e o paredón. E a Anistia Internacional brada contra tantas agressões aos direitos humanos, com a silenciosa omissão da representação brasileira na Comissão de Direitos Humanos da ONU.
É provável que você esteja contrapondo que o comunismo foi sempre assim. Nesse caso, deve ajoelhar-se com os fieis do regime e ouvir a inteira verdade: a culpa é do bloqueio ianque, graças ao qual o povo cubano, nem com pistolão, consegue adquirir ingredientes indispensáveis a uma culinária mais sofisticada, como, por exemplo, um prato para o qual se precise de uma asa de galinha. Ou, ter acesso a esses produtos exóticos da perfumaria ocidental, tipo sabonete ou pasta de dentes. Com efeito mais satânico do que a globalização só um bloqueio norte-americano, ou, pondo em outras palavras o que se deduz de tais lamúrias: quando a Meca do comunismo é enjeitada pela Meca do capitalismo a vida fica uma droga.
Infelizmente, as utopias ainda não produziram nem sepultaram todas as suas vítimas. A propaganda é o mais eficiente de seus fuzis e a sensatez do povo é a primeira de suas vítimas. A propaganda ideológica, leitor, fará com você, se for cubano, creia, sinceramente, que se suscetibilizam com o fato de terem desapropriado seus bens sem indenização e apontando contra eles os mísseis que os soviéticos instalaram na Ilha.
Assim como a aranha vai gradualmente imobilizando suas vítimas com a saliva, também a conversa marxista vai gradualmente envolvendo e paralisando as sociedades que caem em suas teias. Não há experiência marxista em que isso não tenha acontecido. Talvez seja oportuno lembrarmos por quê.
Para o marxista, a propriedade privada é o pecado original da civilização, um roubo praticado contra todos os demais. Com tal entendimento, que reprova ou impede a posse de bens, deixa de haver razão para o empenho individual indispensável ao dinamismo da atividade econômica. Não tem outro motivo, fora do marxismo, a recusa da esquerda brasileira em festejar os Quinhentos anos. Afinal, se o Descobrimento não existiu porque o Brasil era dos Índios, não haveria título de propriedade legítimo no Brasil.
Para o marxista, a História se resume em luta de classes, expressão do conflito entre oprimidos e opressores. E a economia funciona como um jogo onde se alguém ganha é porque alguém perde (tese simplista, desmentida por qualquer pessoa que tenha plantado uma bananeira). Portanto, quem faz negócios é explorador e o mercado é o covil dos piores ladrões.
Nessas condições, toda pessoa de bem haverá de estar engajada na luta sindical, política ou revolucionária contra o sistema. E passará a vida sem gerar um real de riqueza ou grama de bem de consumo para a sociedade.
O conteúdo paralisante desse falatório era, com surpreendente honestidade e clareza, exposto por Luiz Carlos Prestes quando, discursando aos jovens, advertia que, se eles tinham entre seus objetivos possuir casa, carro e certos confortos da civilização, melhor fariam se afastando dele e de seus conceitos.
Por outro lado, o comunismo comete um de seus mais graves equívocos, talvez o mais paralisante dentre todos, ao confundir igualdade com justiça. Parece possível uma corrida na qual todos alcancem simultaneamente a linha de chegada? Uma prova em que todos tirem a mesma nota? Um concurso em que todos obtenham o primeiro lugar? É claro que não. A absoluta igualdade é uma impossibilidade natural e não constitui sinônimo de justiça. Os regimes comunistas e socialistas, buscando a igualdade em nome da justiça, inibem a iniciativa individual e transferem ao Estado todas as tarefas em que as desigualdades naturais possam produzir desarranjos na ordem social igualitária que se empenham em construir.
É um nome disso, por exemplo, que:
a) extinguem o direito à propriedade privada,
b) garroteiam a natureza humana para remoldá-la no torno do igualitário, e c) concentram poder econômico nas mesmas estruturas do Estado que já detêm, pela ordem das coisas, o exercício do poder político. Em vez de justiça e igualdade, só conseguem totalitarismo e incompetência. As sofridas experiências feitas no século XX, através das quais tais conceitos não geraram um único caso de desenvolvimento econômico e democracia, deveriam ter sido suficientes para evidenciar seu equívoco fundamental. Mas não foi assim. Ainda há, hoje, quem preste atenção aos arautos do malfadado igualitarismo, que apresentam Cuba como exemplo do que propagam.
O tema da igualdade é, por certo, um dos mais desafia aqueles que se preocupam com as questões sociais. De fato, não é um assunto que se possa “deixar para lá” porque, queiramos ou não, surge quotidianamente perante nossos olhos, nossa consciência, nosso ambiente político e nossa realidade econômica.
Leio alguma dessas revistas que se debruçam sobre as exuberantes prodigalidades do beautiful people e percebo que há uma intransponível desigualdade entre o meu padrão de vida e o deles. Bilhões de pessoas, se estivessem a possibilidade de olhar para mim – para mim! -, experimentariam a mesma sensação, e isso me causa uma péssima sensação... Ao contemplar as piruetas de atleta olímpio nas barras paralelas, a fluência de um poeta repentista, o comovente desempenho de um bom ator, a virtuosidade de um pianista consagrado (e fico por aqui porque a lista é inesgotável) noto que, neles, sobram capacidades que não só me faltam como me fazem falta. Eu gostaria de tê-las. É justo isso?
E no entanto eu sei (e sei porque sei e não tenho dúvidas disso) que eu, o atleta, o ator, o bilionário, o virtuose e o poeta somos iguais. Iguais em quê? Perguntaria eu – carteiro de minhas próprias mensagens – ao Eterno Poeta. Iguais naquilo que mais conta para Aquele que não faz contas, responderia o Criador, porque os poetas, às vezes, dizem coisas assim, metafísicas, de pé – quebrado com a cadência mundana. Iguais na dignidade é a resposta certa a essa instigante pergunta.
Liberdade, igualdade e fraternidade! Berrava a burguesia francesa enquanto secionava a jugular dos cortesões, abrindo caminhos para uma nova elite em que não se viram donas de casa nem padeiros. De fato, a igualdade e a simetria dos pratos da balança servem à justiça e nos desconcerta ver o deserto e a várzea, quer estejam na natureza ou nas habilidades do corpo e do espírito.
Como se vê, o tema da igualdade é um desafio que nos cria o Criador. Ele fez certo, embora na estreiteza de nosso entendimento talvez nos sentimos tentados a lhe recomendar um melhor controle de qualidade e lhe indicássemos alguma bibliografia sobre a produção em série: a mecatrônica sobrepujando o humanismo. Imagine, leitor, o mundo que faríamos se pudéssemos fazer ou refazer! Pois é exatamente essa a medida pretensão dos marxistas-leninistas, como Fidel Castro e seus fiéis seguidores. Deus nos fez imperfeitos, incompletos, reciprocamente dependentes. E, como nos lembra Santa Catarina de Siena, a ninguém concedeu todo o necessário, para que fôssemos obrigados a usar de caridade uns com os outros. E isso é coisa bem diferente e superior.
Fonte: Livro “Cuba – A Tragédia da Utopia”, de Percival Puggina, páginas 89 à 94.
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