segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Baixo volume de água no rio Guaíba expõe lixo e pode afetar abastecimento em Porto Alegre

 Dmae passou a monitorar manancial de captação, que está muito abaixo da média para a época do ano

Taís Teixeira


Um dos cartões postais de Porto Alegre, o Guaíba está se destacando não pela beleza, mas pelo baixo volume de água que deixa à vista todo o lixo que ficava coberto pelas águas. Entre os trechos 1 e 2, próximo  ao Anfiteatro Pôr do Sol, na orla que circunda a Usina do Gasômetro, que começa no Centro Histórico e vai até o bairro Cristal, a quantidade de resíduos é visível a olho nu, evidenciando o assoreamento - acúmulo de sedimentos (areia, terra, rochas), lixo e outros materiais levados até o leito dos cursos d'água pela ação da chuva, do vento ou do ser humano. Esse ajuntamento dá a impressão de que se formam “novas ilhas” ao longo do Guaíba. Além disso, as altas temperaturas favorecem a escassez hídrica, o que pode refletir no abastecimento de água de Porto Alegre, uma vez que o Guaíba é um dos corpos hídricos que abastecem Porto Alegre e outros municípios gaúchos.

A situação é tão grave que o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) passou a monitorar com atenção especial o manancial de captação de água bruta, na manhã de sábado. De acordo com o site da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, está em quatro centímetros, muito abaixo da média para essa época do ano. A condição dos ventos também é um fator incomum para essa época, afetando diretamente no nível do manancial.

Além disso, neste domingo, houve um aumento de 275% na turbidez. Os níveis estão em 96 Unidades Nefelométrica de Turbidez (UNT), medida diretamente relacionada com a translucidez da água. O padrão para conseguir manter a qualidade no tratamento e a potabilidade são entre 20 e 35 NTUs.

O Dmae informa que se a condição não for favorável e o nível permanecer baixando terá problemas na captação da água bruta e tratamento, devido à turbidez elevada da água. Poderá ser afetado o abastecimento dos bairros Aberta dos Morros, Belém Novo, Boa Vista do Sul, Campo Novo, Chapéu do Sol, Extrema, Hípica, Ipanema (parte), Lageado, Lami, Lomba do Pinheiro, Pitinga, Ponta Grossa, Quirinas, Restinga e São Caetano.

Atualmente, a ETA Belém Novo possui capacidade de tratamento de 1.200 litros de água por segundo, junto com as unidades de ultrafiltração (ETA compacta), para dar um upgrade na vazão. Só em 2022, o investimento foi de R$ 9 milhões para ampliar em 25% a capacidade de produção de água bruta.

 

Investimento para evitar desabastecimento 

Desde o início do ano, o Departamento tem investido em insumos de tratamento, como cloro e carvão ativado, para manter a qualidade e garantir que não haja desabastecimento. Porém, o elevado consumo e o problema na captação aumentam essa possibilidade. Caso haja problemas como falta de água, o Departamento está com equipes de plantão à disposição e caminhões-pipa. Para solicitar, é necessário entrar em contato com o subprefeito da região, Leandro Annes (51) 98613-6424.

A equipe técnica explica que existem alguns efeitos adversos às atividades em relação ao assoreamento de leito. O Departamento reforça que há diversos pontos de coleta, sendo que o assoreamento nestes locais poderá ensejar alteração nas rotinas de coleta ou mesmo a alteração do ponto. Em momentos de estiagem, como o atual, a presença de bancos de areia podem inclusive gerar zonas de concentração de matéria orgânica e poluentes que serão carreados no corpo hídrico.

De acordo com Garcia, o surgimento das ilhas não tem nenhum efeito na qualidade da água. “A redução do nível do Guaíba altera a condição como um todo. Então, é possível termos a alteração da qualidade da água bruta. A captação da zona Norte é a mais exposta a poluentes que vem de afluentes como o rio Gravataí e, por essa razão, é a região que registra com mais frequência eventos de gosto e odor".

Foto: Mauro Schaefer 

Fenômenos erosivos 

Outro ponto destacado para evitar os fenômenos erosivos que causam agravamento deste problema é pela articulação de políticas públicas que promovam a proteção das encostas ao longo dos afluentes ao Guaíba, bem como a proteção da própria orla do Guaíba. “A organização de ações integradas, especialmente nos Comitê de Bacia Hidrográfica, é uma premissa para que se construam os instrumentos que efetivamente promovam a manutenção dos corpos hídricos". 

O diretor de Gestão de Recursos Hídricos e Saneamento da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Estado do Rio Grande do Sul (Sema), Luciano Cardone, disse que o tema assoreamento requer que se pense no contexto geográfico vigente no momento. Ele cita que é preciso considerar três zonas para fazer uma análise longitudinal. “A zona de produção, onde predomina a formação de sedimentos, como areia, cascalho, argila, a zona intermediária, também chamada de zona de ,e a zona de sedimentação, na qual prevalece a  dos sedimentos. “Essa divisão demonstra que os rios são agentes de transporte e deposição de sedimentos, sendo, portanto, modeladores da paisagem”, detalha.

Justamente é na zona de sedimentação que esses depósitos “tipo ilhas” formam-se, principalmente nas porções finais onde os rios perdem a sua capacidade de transmover os sedimentos. “Isso vai acontecer, por exemplo, quando um rio encontra um lago, como no caso do rio Jacuí. As suas águas entram no Guaíba formando as ilhas do Delta do Jacuí, que é um relevo de acumulação”, especifica.

O diretor complementa dizendo que essas ilhas iniciam-se, muitas vezes, a partir de bancos de areia, como sendo ilhas embrionárias. “Então, essas porções emersas que estamos vendo no Guaíba são sim ilhas, mas também existem os bancos de areia”, afirma. Cardone destaca que esse é um comportamento normal, que faz parte da dinâmica fluvial. No entanto, ressalta que a  região hidrográfica do Guaíba é fortemente antropizada e o uso e a ocupação do solo influenciam também na quantidade de sedimentos que  recebe e, consequentemente, transporta e deposita. “Por isso a importância das matas ciliares, que ajudam na retenção de sedimentos e na estabilidade das margens”, constanta, assinalando que esse processo ocorre de modo natural na escala de tempo geológico, cujos  registros datam o início da formação das ilhas do Delta do Jacuí que remontam há 120 mil anos. 

Quanto aos impactos futuros, o gestor avalia que esse processo de deposição de sedimentos, mesmo que natural, pode ainda ser acelerado em função do uso e ocupação do solo em virtude das atividades econômicas desenvolvidas na bacia, o que não deixa de ser uma mudança ambiental. “Assim como a areia está se depositando,também se concentram os chamados sedimentos tecnogênicos, como sacos plásticos, pneus e outros contaminantes. E isso traz  prejuízos ambientais”, salienta.

Cardone reitera que a medida que o sedimento vai se concentrando, o leito vai ficando mais raso e a água acaba perdendo esse espaço. “Não acredito que haja um comprometimento que possamos chamar de significativo nem no volume, nem na disponibilidade hídrica do Guaíba”, avalia, exemplificando com o período atual de escassez de água, em que o aglomerado de sedimentos fica mais evidente. 

Alerta 

O último boletim meteorológico semanal emitido pela Sema para esta próxima semana indica que os principais rios do Estado apresentam condição de declínio ou estabilidade. As estações em condição de alerta para estiagem, que apresentaram níveis abaixo da N90 durante toda a semana foram Costa do Rio Cadeia (rio Cadeia), Barca do Caí (rio Caí), Corsan Alvorada (rio Gravataí), Rio Pardo (rio Jacuí), Dona Francisca (rio Jacuí), Passo do Mendonça (rio Camaquã), Rosário do Sul (rio Santa Maria), Manoel Viana (rio Ibicuí), Alegrete (rio Ibirapuitã), Fazenda São Jorge (rio Negro).

A estação Itaqui e Uruguaiana (rio Uruguai), Quaraí (rio Quaraí) e Passo das Pedras (rio Jaguarão) encontram-se em condição de atenção para estiagem por apresentarem níveis abaixo da N85 durante toda a semana. As demais estações monitoradas apresentaram níveis que oscilaram entre níveis muito baixos e níveis normais. Apesar das instabilidades atuarem sobre boa parte do Rio Grande do Sul no decorrer do período, as chuvas ainda ocorrem em forma de pancadas isoladas e com volumes abaixo e dentro da média climatológica na maioria das regiões gaúchas. Apenas no Nordeste gaúcho, é que as precipitações tendem a trazer acumulados acima do esperado no decorrer da semana.

Dados do Lago Guaíba

Extensão da margem: 85 km de terra na margem esquerda (sendo 70 km no Município de Porto Alegre) e 100 km na margem direita

Área: 496 km² - começa na ponta da Usina do Gasômetro, no Centro de Porto Alegre, e percorre 50 km até encontrar a Laguna dos Patos.

Largura máxima: 20 Km. Comprimento: 50 Km

Profundidade média: 2 m, chegando a 12 m no Canal de Navegação

Volume de água: 1,5 Km³ aproximado

Vazão do Lago Guaíba: 1,2 milhões de litros/segundo

Rios que formam o Guaíba:  Jacuí (84,6%), dos Sinos (7,5%), Caí (5,2%) e Gravataí (2,7%); recebe também as águas dos arroios situados às suas margens, abrangendo uma área de drenagem de 1/3 do território do Rio Grande do Sul. 

Correio do Povo

Nenhum comentário:

Postar um comentário