quinta-feira, 22 de setembro de 2022

EUA "leva a sério" elevada de tom e ameaça nuclear de Putin

 Presidente da Rússia mobilizou centenas de milhares de reservistas para relançar sua ofensiva na Ucrânia



O presidente russo, Vladimir Putin, mobilizou centenas de milhares de reservistas nesta quarta-feira para relançar sua ofensiva na Ucrânia e voltou a ameaçar recorrer a armas nucleares, algo que os Estados Unidos "levam a sério". A mobilização de reservistas gerou manifestações improvisadas em pelo menos 38 cidades russas e a detenção de pelo menos 1.332 pessoas. Estas seriam as maiores manifestações na Rússia desde o anúncio da ofensiva de Moscou na Ucrânia, em fevereiro.

Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, atacou diretamente a Rússia, membro permanente do Conselho de Segurança, dizendo que Moscou "violou descaradamente" a Carta das Nações Unidas. Biden também criticou Putin pela ameaça velada de recorrer a armas nucleares. O presidente americano alertou que "uma guerra nuclear não pode ser vencida e nunca deve ser travada". Horas antes, em mensagem à nação, Putin disse que estava pronto para utilizar "todos os meios" disponíveis em seu arsenal para combater o Ocidente, que acusou de querer "destruir" a Rússia. "Não é um blefe", garantiu.

A mobilização anunciada por Putin foi descrita na Europa como uma "admissão de fraqueza" por parte e Moscou, cujo exército tem sofrido derrotas militares das mãos das forças ucranianas. Os ministros das Relações Exteriores da União Europeia (UE) se reunirão em caráter de urgência nesta quarta-feira em Nova York para debater o tema da Ucrânia. Novas sanções serão discutidas, segundo o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell.

Evitando anunciar uma mobilização geral, temida por milhões de russos, Putin declarou uma mobilização "parcial", considerada "urgente e necessária". De acordo com o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, 300.000 reservistas serão convocados inicialmente.

"Não à guerra"

Um sinal de preocupação entre os cidadãos russos é que os sites das companhias aéreas ficaram saturados após o discurso de Putin e uma petição online contra a mobilização já coletou 230.000 assinaturas.

Mais de 1.300 pessoas foram presas nas manifestações contra a mobilização de reservistas de Putin, segundo a OVD-Info, uma organização especializada em contagens de prisões. Em Moscou, jornalistas da AFP testemunharam pelo menos 50 prisões em uma das principais estradas da capital russa. Em São Petersburgo, a segunda maior cidade da Rússia, um ônibus inteiro de pessoas detidas era conduzido pela polícia.

Os manifestantes gritavam: "Não à guerra!", "Não à mobilização!". "Todo mundo está com medo. Sou pela paz e não quero ter que atirar. Mas é muito perigoso sair agora, caso contrário haveria muito mais pessoas", disse Vassili Fedorov, um manifestante em São Petersburgo.

Alina Skvortsova, 20, espera que os russos comecem a "entender" a natureza da ofensiva na Ucrânia. "Quando eles realmente entenderem, vão às ruas, apesar do medo."

Referendos "ilegítimos"

O presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, afirmou que não acredita que a Rússia recorreria a armas nucleares. "Não acho que essas armas serão usadas. Não acho que o mundo vá deixar isso acontecer", disse o presidente, segundo trechos de uma entrevista ao canal alemão Bild TV.

Já o comandante-chefe do exército ucraniano, Valery Zalujny prometeu "destruir" os russos que chegarem ao território ucraniano para lutar, incluindo aqueles que serão mobilizados após a ordem de Putin.

Por seu lado, a China pareceu tomar certa distância ao pedir um cessar-fogo e respeito territorial dos Estados, uma referência à planejada anexação de parte da Ucrânia pela Rússia. A Turquia, por sua vez, condenou os referendos de anexação "ilegítimos" anunciados pela Rússia, alertando que estes "não serão reconhecidos pela comunidade internacional". Confrontado com as dificuldades de sua ofensiva na Ucrânia, que está entrando em seu oitavo mês, Putin tenta retomar a iniciativa.

Transferência de prisioneiros

Antes do chamado à mobilização parcial, os "referendos" de anexação foram anunciados na terça-feira nas regiões da Ucrânia controladas por Moscou, a serem realizados de 23 a 27 de setembro.

A doutrina militar russa prevê a possibilidade de recorrer a ataques nucleares caso os territórios considerados russos por Moscou sejam atacados, o que poderia ser o caso das áreas anexadas. As votações ocorrerão nas regiões de Donetsk e Lugansk, que formam o Donbass (leste), bem como nas áreas de Kherson e Zaporizhzhia, no sul. Kiev e o Ocidente criticaram essas consultas, que foram descritas como "simulacros" sem valor legal.

Os referendos seguem o padrão estabelecido em 2014, quando a Rússia anexou a península da Crimeia após um processo semelhante. Enquanto isso, dez prisioneiros de guerra (cinco britânicos, dois americanos, um marroquino, um sueco e um croata) foram transferidos da Rússia para a Arábia Saudita, como parte de um intercâmbio entre Moscou e Ucrânia.

Esta transferência foi anunciada nesta quarta-feira pelo Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita. No terreno, a mobilização russa de reservistas pode significar um fortalecimento da violência no início do oitavo mês de conflito. A Ucrânia acusou novamente a Rússia de bombardear as proximidades da usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa.

AFP e Correio do Povo

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