segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Chile rejeita por ampla maioria projeto de Constituição

 Mais de 15 milhões de eleitores foram às urnas



Uma contundente maioria rejeitou no Chile neste domingo (4) a proposta de Constituição que buscava substituir aquela herdada da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1989) por outra com mais direitos sociais, em um resultado que superou as expectativas mais otimistas da oposição conservadora.

Mais de 15 milhões de eleitores foram convocados às urnas em um dia de alta participação devido ao voto obrigatório. Em grande parte do país, impôs-se a opção contra a nova carta magna.

Com 98,43% dos votos apurados, o "Rejeito" prevalecia com 61,9% frente aos 38,10% do "Aprovo", informou o serviço eleitoral.

O projeto mantinha uma economia de mercado, mas ambicionava consagrar um novo catálogo de direitos sociais em termos de saúde, aborto, educação e previdência, com ênfase ambiental e "plurinacionalidade" indígena.

"É uma derrota para a refundação do Chile", disse Javier Macaya, presidente do partido ultraconservador UDI, que, no entanto, não fechou as portas para outra reforma constitucional.

"Vamos continuar (...) com o processo constituinte, vamos cumprir o nosso compromisso", prometeu em coletiva de imprensa rodeado de apoiadores da rejeição que festejavam.

Surra

"Tremenda surra do rejeito sobre o aprovo. Ninguém previu essa distância de mais de 20 pontos percentuais", afirmou a socióloga Marta Lagos, fundadora do instituto de pesquisas Mori, que descreveu no Twitter o resultado como um "fracasso retumbante".

A realização do referendo sobre uma nova Constituição, após a grande revolta social de 2019 em busca de maior justiça social, teve o apoio de quase 80% do eleitorado em um plebiscito em outubro de 2020 que abriu o processo constituinte.

Dois anos depois, o "Aprovo" venceu quase exclusivamente entre a maioria dos chilenos no exterior, onde havia cerca de 100 mil eleitores registrados.

O novo texto, de 388 artigos e elaborado ao longo de um ano por uma Convenção Constitucional, consagrava um "Estado social de direitos", em resposta às reivindicações expressas nas manifestações massivas de outubro de 2019.

Os elementos que mais provocaram divisões no projeto eram a plurinacionalidade indígena, o aborto e o direito à moradia "digna" em um texto com forte ênfase ambiental, mas que mantinha o modelo de economia de mercado.

Todas as pesquisas já previam a vitória do "Rejeito", mas nenhuma com tanta folga.

"É um desastre, estou super triste. Não posso acreditar nisso. Passamos por muitas coisas na rua para terminar assim", disse à AFP María José Pérez, de 33 anos, partidária do "Aprovo", na Plaza Italia, onde centenas de pessoas se reuniram para compartilhar sua frustração.

Unidade nacional

O presidente chileno, Gabriel Boric, que havia horas antes garantido que, seja qual fosse o resultado do plebiscito, pediria "unidade nacional", se comprometeu a impulsionar um rápido novo processo constituinte.

A ex-presidente Michelle Bachelet, muito popular neste país, disse antes que se a opção "Rejeito" vencesse, "as demandas dos chilenos não serão atendidas" e um novo processo deveria ser convocado. A ex-presidente votou em Genebra, na Suíça, onde acaba de deixar o cargo de Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Os atos de encerramento da campanha na quinta-feira na capital deste país de quase 20 milhões de habitantes, geraram duas imagens muito diferentes que contrastam com as previsões.

A festa de rua "Aprovo" reuniu entre 250.000 e 500.000 pessoas, segundo os organizadores, enquanto a cerimônia de encerramento "Rejeito" consistiu em um evento de não mais de 400 pessoas em um anfiteatro em Santiago.

Marta Lagos tinha antecipado que a imagem de Santiago, onde o rejeição também acabou por vencer, não significava que a aprovação venceria porque "tem uma grande desvantagem no sul e no norte do país", áreas que sofrem violência e insegurança, acrescentou a socióloga.

Enquanto no sul há conflitos por terras reivindicadas por grupos indígenas mapuches, no norte há um fluxo incessante de imigrantes sem documentos que vivem nas ruas e que tem gerado o surgimento de máfias de traficantes de seres humanos.

AFP e Correio do Povo

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