sexta-feira, 20 de maio de 2022

Dólar cai 1,32% em dia marcado por perdas globais da moeda

 Moeda norte-americana encerrou sessão cotado a R$ 4,91



Após fechar em alta de 0,80% na quarta-feira, o dólar caiu mais de 1% na sessão desta quinta-feira em sintonia com o enfraquecimento da moeda norte-americana no exterior tanto em relação a divisas emergentes quanto fortes, em especial o euro. Nos momentos de maior pressão vendedora lá fora, a moeda chegou até a trabalhar abaixo da linha de R$ 4,90 e desceu até o patamar de R$ 4,88. Operadores relataram fluxo de estrangeiros para ativos domésticos, favorecidos em suposto movimento de rotação de carteiras pela alta de commodities agrícolas e metálicas, e desmonte de posições defensivas no mercado futuro.

Segundo analistas, o dólar sofreu nesta quinta com movimento global de realização de lucros, após a forte apreciação nas últimas semanas induzida pela expectativa de aceleração do processo de ajuste monetário conduzido pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).

O tropeço do dólar teria sido provocado sobretudo pela recuperação pontual do euro, na esteira de sinais da ata do último encontro de política monetária do Banco Central Europeu (BCE) de eventual aumento de juros na zona do euro no início do segundo semestre. A ata do BCE, ressaltam analistas, vem após falas duras de dirigentes da instituição nos últimos dias e a divulgação da alta de 7,4% da inflação anual da zona do euro em abril.

Afora a questão técnica, há também preocupações com uma eventual retração da economia dos Estados Unidos diante do aperto das condições financeiras. O índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes - operou em queda firme ao longo de toda a sessão, tocando 102,657 na mínima, com perdas superiores a 1% frente ao euro e a libra esterlina. A moeda norte-americana tombou também em bloco frente a divisas emergentes e de países exportadores de commodities, com destaque para o peso chileno, o real e o rand sul-africano. O Banco Central da África do Sul elevou a taxa básica de juros em 50 pontos-base, a 4,75% ao ano.

Em queda desde a abertura dos negócios no mercado doméstico, o dólar rompeu o piso de R$ 4,90 por aqui à tarde e desceu até a mínima de R$ 4,8809 (-2,04), em meio ao aprofundamento das perdas da divisa americana lá fora e a máximas do Ibovespa, que superou os 107 mil pontos. Com a piora das bolsas em NY no fim da sessão e o índice DXY se afastando das mínimas, o dólar voltou a superar R$ 4,90 e fechou a R$ 4,9168, em queda de 1,32%. Com o tombo desta quinta, o dólar já acumula perda de 2,78% na semana e passou a apresentar baixa em maio (-0,52%).

Em sua ata, o BCE afirma pode subir os juros "algum tempo" depois do fim do programa de compra de ativos, que deve terminar no início do terceiro trimestre. Isso pode significar algumas semanas ou meses após a conclusão do programa de relaxamento quantitativo (QE, na sigla em inglês). "A abordagem não impede um aumento oportuno das taxas se as condições assim o justificarem", ressalta a ata.

O economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, observa que a inflação na Europa roda na casa de 7% e já começa a crescer a expectativa de que o BCE terá que antecipar a primeira alta dos juros, esperada anteriormente para o fim do ano. "O euro vem apanhando muito já faz bastante tempo. É uma recuperação pontual hoje frente ao dólar, que acabou levando a uma queda da taxa de câmbio também por aqui", afirma Velho "Mas a tendência é de dólar forte no mundo, porque aparentemente o Fed vai ter que elevar o juro acima do neutro, com uma taxa dos Fed Funds mais para 4% que para 3%."

Para Velho, apesar de o Banco Central brasileiro ter sinalizado que pretende manter a taxa Selic em níveis elevados por mais tempo, após uma provável alta adicional em junho, o dólar não deve se situar abaixo de R$ 4,90. O economista ressalta que, além do aperto monetário nos EUA, há outros fatores externos que dão sustentação à demanda por dólares, como possível recrudescimento das tensões geopolíticas no Leste Europeu, com a recusa russa em aceitar entrada de Finlândia e Suécia na Otan, e dúvidas sobre o ritmo de crescimento da economia chinesa. "Tudo indica que o dólar é mais para cima. Só cairia se houvesse um fluxo muito grande para o Brasil, como no primeiro trimestre, o que acho muito difícil. Vamos ter eleição presidencial no segundo semestre", afirma.

Em razão da paralisação dos servidores do Banco Central, só estão disponíveis números do fluxo cambial até o dia 1º de abril, o que impede o mercado de aferir o apetite do capital externo por ativos domésticos. Dados da B3 mostram que os investidores estrangeiros ingressaram com R$ 292,865 milhões na Bolsa na sessão de terça-feira, 17. O saldo em maio, contudo, é negativo em R$ 12,403 bilhões. O ingresso líquido do estrangeiro na B3 neste ano, que já chegou a superar R$ 60 bilhões, agora em R$ 45,247 bilhões.

Para a economista Bruna Centeno, da Blue3, a ata do BCE contribuiu para um movimento parcial de recuperação do euro, mas as expectativas ainda são de dólar forte no mundo, o que vai impedir que a moeda brasileira se aprecie ainda mais. Centeno observa que a perspectiva é que o Fed seja muito mais agressivo que o BCE.

"Podemos esperar uma alta de juros na Europa no segundo semestre, mas de maneira moderada. O dólar ainda vai seguir como refúgio para os investidores", diz Bruna, para quem investidores vão buscar abrigo na moeda americana diante de quadro de inflação elevada, agravada pela guerra na Ucrânia, e revisões para baixo do crescimento global. "Há muita incerteza e a volatilidade deve continuar alta. No curto prazo, vemos um suporte para o dólar em R$ 4,90."

Taxas de juros

Os juros futuros fecharam o dia em queda, refletindo a piora na percepção de risco de recessão global traduzido na queda do rendimento dos Treasuries e de outras curvas mundo afora, que pressionou especialmente a ponta longa. Internamente, o investidor mantém no radar o noticiário em torno do projeto de desoneração do ICMS sobre combustíveis e energia elétrica.

A taxa do DI para janeiro de 2023 fechou a etapa regular em 13,28%, de 13,334% no ajuste anterior. A do DI para janeiro de 2024 caiu de 12,991% para 12,87% (mínima), e a do DI para janeiro de 2025, de 12,38% para 12,22%. O DI para janeiro de 2027 fechou com taxa de 11,985%, voltando a rodar abaixo de 12%. Na quarta-feira, o ajuste foi de 12,17%.

As taxas estiveram em baixa desde a abertura, com mínimas à tarde, quando o ambiente externo testava melhora, e mesmo com os preços do petróleo se firmado em alta na segunda etapa. Mas, no geral, a situação da covid na China e os sinais de varejo fraco emitidos pela Target e Wal-Mart continuaram alimentando aversão ao risco, na medida em que a inflação advinda dos gargalos logísticos também não dá trégua e aumenta o desafio dos BCs. A fuga para a qualidade dos títulos americanos pressionou os yields para baixo e o dólar teve queda generalizada, até ante moedas emergentes, com o câmbio aqui caindo abaixo de R$ 4,90 nas mínimas.

Na ata da sua reunião desta quinta, o BCE mostrou preocupação com a inflação alta, com alguns dirigentes considerando importante agir sem atraso indevido para demonstrar o compromisso com a estabilidade de preços. A percepção entre os analistas é de que o BCE deve começar a apertar sua taxa de juros na reunião de julho e com dose inicial mais leve.

Enquanto o BCE nem começou, a autoridade monetária brasileira já está finalizando seu ajuste e com a economia aparentemente ainda resiliente ao aumento de 10 pontos porcentuais de alta da Selic promovido até aqui. Mesmo com as expectativas de inflação ainda muito longe das metas, a percepção é de que boa parte do efeito da política monetária ainda vai entrar na economia e que a inflação em 12 meses atingirá o pico em maio.

"O BC parece satisfeito e elevou bastante a barra para estender o ciclo para além de junho", afirmou o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, para quem o Copom encerra o ciclo no mês que vem com uma dose de alta de 0,5 ponto porcentual.

O mercado também acompanha o noticiário em torno da desoneração do ICMS para diesel, energia e transporte público que, se aprovado, poderia dar alívio à inflação, com impacto de baixa hoje para as taxas de inflação implícitas. Nos cálculos da economista Andrea Angelo, da Renascença, a desoneração de 17% do ICMS em combustíveis e energia elétrica pode chegar a -105 pontos-base no IPCA. "Estamos apurando quais tipos de transporte coletivo e de serviços de telecomunicação entrarão na medida", afirmou.

Para Sanchez, porém, a proposta não deve prosperar, pela resistência dos governos estaduais, que terão de abrir mão de arrecadação. "A aprovação deste tipo de projeto cabe às assembleias legislativas e mesmo que a Câmara aprove, acredito que não passa no Senado", afirmou. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), anunciou que vai pautar o projeto na próxima semana.

Na gestão da dívida pública, o Tesouro elevou de 8 milhões para 10 milhões a oferta de LTN no leilão desta quinta, absorvida integralmente e com taxas todas abaixo do consenso, segundo a Necton. No leilão de NTN-F, mais que dobrou a oferta de 300 mil para 650 mil, vendida quase que totalmente (620 mil).

Bolsa

O dia foi majoritariamente negativo nos mercados acionários do exterior, da Ásia à Europa e aos Estados Unidos, mas o Ibovespa conseguiu retomar o sinal positivo desde a manhã, favorecido por forte ajuste no câmbio. A sessão foi marcada por avanço do euro frente ao dólar, após novos sinais de que o BCE corrigirá a política monetária para conter o avanço da inflação no velho continente.

O Ibovespa subiu 0,71%, a 107.005,22 pontos, com giro a R$ 24,8 bilhões. Entre a mínima e a máxima, a referência da B3 oscilou dos 105.760,05 aos 107.420,34 pontos (+1,10%), saindo de abertura aos 106.248,98 pontos. Na semana, sobe 0,08%, com perda no mês a 0,81% - no ano, o avanço é de 2,08%.

"O mercado ainda tem que entender qual realmente será a atitude do BC americano frente a uma inflação que é muito mais parecida com a da década de 1980 do que a vista recentemente nos Estados Unidos, e também na Europa", diz Daniel Miraglia, economista-chefe do Integral Group. "Há choques de oferta desde a covid e, agora, com a guerra na Ucrânia. Uma inflação hoje, com economia aquecida e componente de demanda também, que passa a ser indexada em preços e salários, permanecendo em alta por mais tempo", acrescenta.

Nesse contexto, "o mercado precisa entender qual será a taxa de juros nominal que fará a inflação voltar a ser palatável, e este juro nominal provavelmente será mais alto do que o visto recentemente nos Estados Unidos, embora não tão alto quanto o da década de 80", diz Miraglia. "Quanto mais rápido o Fed subir a taxa, quanto mais agressivo for, mais rápido as curvas longas se estabilizarão. Sendo uma ou outra a abordagem, os cenários são desafiadores."

Na B3, o dia foi de recuperação para as ações de commodities (Vale ON +2,66%, Petrobras PN +1,70%) e especialmente para as de mineração (CSN ON +7,20%, Usiminas PNA +5,11%, Gerdau PN +2,62%), mas o desempenho negativo do setor financeiro (Bradesco PN -0,77%, BB ON -0,58%), o de maior peso no índice, impediu que o Ibovespa fosse mais além.

Na ponta positiva, destaque, além de CSN ON, para CSN Mineração (+9,07%), ambas à frente de Méliuz (+5,64%) e de Locaweb (+5,52%). No lado oposto, Petz (-5,20%), Hapvida (-4,11%) e WEG (-3,41%). No dia seguinte à aprovação da privatização da empresa pelo Tribunal de Contas da União (TCU), Eletrobras ON e PNB fecharam em alta de 3,03% e 2,54%, respectivamente.

"Em um dia de agenda fraca, a recuperação ficou por conta da valorização das commodities, como Brent e minério de ferro, associado ao recuo dos juros futuros, que parecem ter marcado topo no início da semana e apresentam sinais de desaceleração da alta, observada nos últimos meses", observa Leandro De Checchi, analista da Clear Corretora.

"O mercado conseguiu se descolar hoje de Nova York, que ainda tentou reação no fim da tarde mas teve um dia bastante volátil. Aqui, o descolamento veio principalmente das empresas de commodities, com o minério melhorando entre a noite de ontem e o dia de hoje, o que contribuiu para a recuperação dos ativos, especialmente os associados a matérias-primas, que tinham sofrido bastante na quarta-feira", diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos, destacando também a alta do petróleo na sessão, que ajudou as ações da Petrobras (ON +0,84%).

"Além disso, o anúncio de 'buy back' recompra de ações, tanto da CSN como da CSN Mineração, em volume de 5% ou 6% da empresa, foi bastante positivo, em dia mais fraco para as ações de bancos", acrescenta Moliterno.

Agência Estado e Correio do Povo

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