Para José Alexandre Scheinkman, o governo brasileiro precisa parar de intervir na economia e ampliar a presença em educação, segurança e políticas urbanas
Por Fabiane Stefano

Scheinkman: “A China é um grande sucesso, mas não é a atuação do estado que a faz ir tão bem” (Germano Lüders/EXAME)
José Alexandre Scheinkman é um dos economistas brasileiros de maior prestígio no exterior. Professor nas Universidades de Princeton e Colúmbia, nos Estados Unidos, ele é um defensor ferrenho da agenda de produtividade e diz que a excessiva regulação do Estado prejudica o investimento e o aumento do setor privado no Brasil. “Se oferecesse mais segurança regulatória, o investimento seria maior no Brasil”, disse Scheinkman a EXAME.
Nossa economia sempre dependeu do Estado. O modelo se esgotou?
Os gastos públicos aumentaram de maneira excessiva e, portanto, não há mais capacidade de investimento do governo federal, de estados e de grande parte das estatais. Precisamos de um modelo diferente de financiamento. Mas não é uma questão só do dinheiro que o governo provê. A intervenção do Estado na economia brasileira não se deu só por meio de crédito e investimento direto, foi também via regulação excessiva.
De que forma isso tem inibido a expansão da iniciativa privada no país?
Temos um sistema regula-tório que não dá segurança para quem investe no país. A regulação para uma empresa privada investir em infraestrutura, por exemplo, gera muitos custos e incertezas. Além disso, existem problemas trabalhistas — embora tenha havido uma melhora com a reforma no governo do ex-presidente Michel Temer. O Judiciário também é bastante ativo, gerando riscos como a concessão de benefícios futuros para os consumidores que contrataram produtos ou serviços. Se o Brasil oferecesse mais segurança regulatória, o investimento seria maior. Portanto, não dá para esperar que, de uma hora para a outra, o setor privado mude de comportamento diante das mesmas condições.
Historicamente, o Brasil investe pouco e, com a crise, isso caiu ainda mais…
A solução não é aumentar a taxa de investimento no Brasil, ainda que isso seja necessário. Do mesmo modo, não é só melhorar a educação, que também é fundamental. É preciso pensar nas reformas que trarão aumento da produtividade. É preciso criar um ambiente econômico no qual os insumos existentes — capital e trabalhadores — sejam empregados de maneira mais eficiente. No geral, as empresas brasileiras públicas e privadas produzem muito pouco, mesmo descontando nossa pobreza de capital e de educação.
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A China costuma ser apontada como um país em que o crescimento movido pelo Estado funciona. É um caso único?
O Estado chinês de fato intervém e financia muito, mas não há evidência de que o que ele financia faça o país crescer mais. A China se transformou numa usina de ideias e de avanços científicos. As companhias chinesas que estão na fronteira conseguiram isso por meio de investimento privado. Como o cidadão chinês poupa muito, surgiram modalidades de apoio à produção e à inovação que não dependem dos bancos estatais. A China é um grande sucesso, mas não é a atuação do Estado que a faz ser tão bem-sucedida.
Qual deveria ser o papel do Estado no Brasil?
Há coisas que só o Estado pode fazer. Há quem defenda ser possível privatizar a educação, mas os países que educam bem as crianças oferecem educação pública. A segurança pública também cabe ao Estado. Quando ele avança nessa área, a violência diminui. No Brasil, parece que o Estado desiste de certas áreas, como as dominadas pelas milícias. Política urbana é outro item importante. Temos algumas das piores cidades do mundo e isso não será resolvido pelo setor privado. Nessas questões, o Brasil precisa de mais Estado.
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