E-commerce de orgânicos transforma agricultura familiar no RS

 


O fechamento de feiras e mercados em 2020, durante a pandemia, impulsionou uma mudança silenciosa na forma como a agricultura familiar chega à mesa dos gaúchos. Hortaliças e frutas orgânicas, antes vendidas apenas em feiras agroecológicas, passaram a ser comercializadas por WhatsApp, formulários online e sites improvisados, abrindo caminho para um novo modelo de relação entre produtores e consumidores.

Crescimento do setor

No Rio Grande do Sul, estado com forte tradição agroecológica, o comércio digital garantiu renda a pequenos agricultores e consolidou uma tendência: a busca por alimentos saudáveis e de origem conhecida, aliada à praticidade da compra online. Segundo a entidade Orgânicos Brasil, o setor movimentou R$ 5,8 bilhões em 2020, crescimento de 30% sobre o ano anterior.

Com o retorno das feiras, a demanda pelo e-commerce diminuiu, mas o digital se firmou como uma porta definitiva de acesso ao mercado. Nos últimos quatro anos, dezenas de produtores familiares reorganizaram suas formas de vender, apostando em inovação e persistência.

Cestas digitais

A virada para o digital nasceu da urgência. Com a renda despencando, muitos agricultores recorreram ao WhatsApp como canal de vendas. “Esse sistema de cestas funcionou muito bem durante a pandemia. Começou como uma forma de sobrevivência”, explica Guilherme Fraga, especialista em horticultura do Sebrae-RS. Hoje, praticamente todos os produtores utilizam algum canal digital, sendo o aplicativo ainda o mais popular.

Expansão e desafios

O biólogo Leonardo Bohn, produtor orgânico, já havia criado um e-commerce em 2017, mas foi em 2020 que o negócio disparou. “As vendas aumentaram seis vezes. Chegamos a entregar 120 cestas por semana”, relembra. O crescimento, porém, trouxe novos obstáculos: manter variedade, garantir logística e lidar com oscilações de consumo.

A sazonalidade é um dos maiores desafios. “No verão cai drasticamente, no inverno também. É impossível prever”, afirma Bohn, que em 2025 deixou a atividade para assumir emprego em Brasília, enquanto o sócio seguiu com o negócio.

Gestão e logística

Para Fraga, a organização do e-commerce é um dos maiores entraves. “O pequeno produtor não tem capacidade de desenvolver plataformas próprias nem logística robusta para competir com grandes empresas”, avalia.

As dificuldades logísticas, especialmente no verão, quando hortaliças perdem qualidade rapidamente, têm levado agricultores a formar redes coletivas, ampliar a variedade de produtos por meio de parcerias e organizar cestas mais completas.

Um setor em transformação

O e-commerce de orgânicos, que começou como alternativa emergencial, consolidou-se como parte da rotina da agricultura familiar gaúcha. Entre desafios e oportunidades, o movimento mostra que a digitalização do campo é irreversível e segue moldando o futuro da produção e do consumo de alimentos no Estado.

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