CANGOCRACIA: ONDE TUDO FUNCIONA NA NARRATIVA - 20.01.26

 Alex Pipkin, PhD em Administração

 

Aqui, repetem com tranquilidade quase terapêutica, não há ruptura alguma. As instituições funcionam. O Estado do bem-estar segue firme. A democracia resiste.
É preciso, com certo constrangimento, concordar. Funciona, sim, na narrativa. Funciona exatamente como foi desenhada para funcionar. Não para elevar o indivíduo, nem para produzir prosperidade sustentável, mas para conservar um arranjo em que o custo é pulverizado e as vantagens se acumulam junto aos que gravitam o poder.
Esse arranjo tem nome: cangocracia. Um sistema que fala em coletividade enquanto organiza privilégios privados; que invoca direitos humanos para justificar a erosão do mérito; que prega igualdade aos governados e concede exceções aos intermediários do Estado. Em nome de alguma causa superior, sempre nobre no discurso, sempre opaca na prática, exige-se sacrifício dos muitos e oferece-se proteção aos rentistas e corruptos no poder. A linguagem é compassiva; o efeito é dependência e atraso.
Aqui, políticas públicas não são julgadas por resultados, mas por intenções proclamadas. O erro não apenas persiste. Não, ele ascende, desde que saiba se apresentar como qualidade. O fracasso econômico se transforma em nobre prova de sensibilidade social. A estagnação é vendida com muito zelo. 
Submeter o Estado à lógica elementar da realidade, ou seja, incentivos, custos, consequências, passa a ser demonizado, tratado como desumanidade.
O intervencionismo estatal cumpre, então, seu papel central dentro da cangocracia. Ele desorganiza a economia, desestimula a produção, infantiliza a cidadania e amplia o raio de influência do poder. 
Não se trata de ignorância histórica. A experiência econômica humana é vasta e clara. Trata-se de uma estratégia que troca prosperidade por controle e chama isso de justiça.
Nesse ambiente, o “grande” STF deixou de ser apenas guardião da Constituição para operar, crescentemente, como justiça seletiva, funcional aos objetivos desse arranjo. A lei não desaparece; ela é administrada. Quando a aplicação varia conforme o alvo e a conveniência, a justiça deixa de ser contrapeso e passa a ser engrenagem do perverso sistema.
A cangocracia se sustenta menos por entregar bons resultados do que por construir uma blindagem moral contra a crítica. 
Fora da narrativa coletivista, evidente que o sistema não funciona. Os dados estão à vista: crescimento pífio, serviços públicos caros e ineficientes, pobreza persistente, imoralidade sem disfarce, corrupção escancarada, e uma sociedade treinada a pedir em vez de exigir responsabilidade.
Romper com isso não começa com uma grande reforma estatal. 
Começa com a recusa individual em aceitar mentiras bem embaladas em papel vermelho. Com a singela, mas dura decisão de mudar a si mesmo, antes de querer “transformar o mundo”, de caminhar com as próprias pernas e assumir a dignidade que a tutela promete proteger enquanto asfixia. 
A experiência brasileira com essa esquerda mentirosa e irresponsável demonstra, com clareza cruel, até onde um país pode afundar quando transformam o fundo do poço em projeto.
Pior, ainda chamam isso de “governo da união e da reconstrução”, prometendo progresso e justiça social.
Mas fora da narrativa peçonhenta, a única coisa que entregam é pão ralo, picanha inexistente e, claro, cervejinha morna.


Pontocritico.com

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