O Brasil participou, apesar que de forma modesta, da I GM ("A Grande Guerra") que não trouxe expressivos ensinamentos para as milenares Arte e Ciência da Guerra. Conspícuos historiadores ressaltam, entretanto, o estoicismo e a bravura (a "incredible bravery") dos combatentes que suportaram as trágicas vicissitudes de um conflito global que se supunha ser o último deles. O assunto já foi muito bem analisado por renomados exegetas como o professor Ivan Rodrigues de Faria, in "Revista do Exército Brasileiro, volume 133, 3° trimestre de 1996"' e pelo coronel Luiz Ernani Caminha Giorgis, no seu excelente livro de memorabília, "O Brasil na I Guerra Mundial- o Centenário da Grande Guerra" (Klassika - Cultura Histórica, 2014).
Após 21 anos do término da I GM, eclodiu uma outra, de dimensões totais e globais, bem mais ampla e cruenta. E o Brasil teve de se envolver na nova guerra, em face de torpedeamentos de navios mercantes nacionais, por submarinos alemães.No entreguerras, a partir de 1919, atuou junto ao Exército Brasileiro, até 1939, uma Missão Militar Francesa (relembremos que a França foi uma das nações vitoriosas da I GM), a qual nos trouxe inúmeros benefícios, particularmente quanto a novos métodos de ensino castrense. Tal Missão, no entanto, não teve ingerência na Escola Militar do Realengo nem na Escola de Formação de Sargentos. Em Realengo, foi instituída a "Missão Indígena", ou como o nome indica, "natural da terra", autóctone, nacionalista, a fim de se diferenciar da mencionada Missão Francesa (os oficiais prestavam concurso para terem a honra de integrar os quadros da dita Missão).
Outra vez, como já explicado, os torpedeamentos de navios mercantes, que quase inviabilizaram a cabotagem nacional, foi o "primus inter pares" para o Brasil declarar guerra, inicialmente contra a Alemanha e a Itália. Campanhas difamatórias contra o país e os brasileiros foram desencadeadas, máxime nos estados do Sul, onde havia focos (quistos) de nazifascismo nas populações de origem alemã e italiana. O nosso governo foi sábio ao criar, mesmo antes da guerra, unidades do Exército nas cidades sulinas de colonização alemã e italiana, com vistas à integração nacional (até hoje essas organizações militares lá se encontram). Na Itália, os alemães e fascistas tentaram, por meio da propaganda, influenciar psicologicamente a nossa tropa. Consta que diziam de nós: "Ou são bravos ou são loucos; como não podem ser bravos só podem ser loucos" (o que não deixa de ser um superlativo elogio para os nossos soldados!). Aliás, numa breve recorrência histórica, anote-se que na Guerra do Paraguai, também a propaganda adversa foi muito empregada. Os paraguaios distribuíam o jornal "Cabichui" (que em guarani quer dizer 'vespa negra'), com acerbas críticas ao Imperador Dom Pedro II, aos comandantes militares e aos soldados brasileiros, sempre explorando o viés racial (éramos tachados de "macaquitos") pela existência de negros em nosso Exército (ver publicação, fartamente ilustrada, com 94 exemplares, do "Cabichui - Periódico de la Guerra de la Triple Alianza", Edición Museo del Barro, Assunción, 1984). A propósito, na Itália, circulava o nosso jornalzinho, o "Zé Carioca", na inspiração do "Joe Carioca" de Walt Disney...
Em 1944, duas preocupações fundamentais avultaram de importância: 1) a defesa do território pátrio, em especial do estratégico 'saliente nordestino' (denominado de "Trampolim da Vitória") por causa das tropas alemãs no Norte da África; e também de nossas ilhas oceânicas, por meio de bases aeronavais. Natal era a segunda maior base aérea do mundo, somente inferior à de Nova Iorque e 2) a organização da 1ª DIE (Divisão de Infantaria Expedicionária), à base de 3 Regimentos de Infantaria, após a declaração do 'estado de beligerância' ou 'de guerra' contra a Alemanha e a Itália. O recrutamento em todos os estados da Federação foi extremamente difícil, como nos deixou narrado em importante livro, o ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra (por ilustração, afirme-se que tal recrutamento foi muito mais civilizado do que o ocorrido, por imperiosa necessidade, quando da Guerra do Paraguai - muitas vezes "a pau e corda").
As FFAA brasileiras dispunham de um efetivo de 60.000 homens e não teriam, desafortunadamente, capacidade de constituir um Corpo de Exército (3 Divisões com cerca de 70.000 homens), como de início estabelecido. A formação da 1ª DIE foi, à época, contundentemente criticada. É que ao invés de se aproveitar, por exemplo, uma Divisão já existente no Rio de Janeiro, convocaram-se tropas de MG, SP , MT e do próprio RJ, o que assaz dificultou uma melhor preparação que foi realizada na Vila Militar do Distrito Federal (RJ), onde se deu a concentração geral. As outras duas Divisões seriam formadas, posteriormente, no Nordeste e no Sul. Entretanto, essa decisão aparentemente errada, propiciou que a FEB fosse representada por gente de todos os rincões do Brasil (patrícios de diversas classes sociais, religiões, profissões e níveis culturais, com as suas virtudes, defeitos, sotaques e idiossincrasias). Tal conduta foi primacial para uma maior união, melhor dizendo, coesão dos brasileiros pelo que se pode afirmar que os nossos expedicionários foram o "verdadeiro índice do povo brasileiro"...
A tropa brasileira, a única da América do Sul a participar da guerra, ao chegar à Itália foi incorporada ao IV Corpo de Exército, do V Exército dos EUA, este ao comando do famoso general Mark Clark. O V Exército encontrava-se desfalcado, eis que 2 Corpos de Exército franceses foram transferidos para o seu país, após o desembarque aliado na Normandia ("Dia D", 6 de junho de 1944). Em decorrência dessa crítica situação, o "Destacamento FEB", à base do 6° RI, foi logo empregado no vale do rio Serchio (o armamento e equipamento foram entregues à véspera da entrada em combate). Era a Vanguarda da 1ª DIE que daria início a uma memorável arrancada rumo à 'Vitória Final' no Teatro de Operações do Mediterrâneo. Impende lembrar que a expressão "Força Expedicionária Brasileira (FEB)" só seria adotada em julho de 1945, após o retorno dos expedicionários.
O febiano marechal Humberto de Alencar Castello Branco, em seus percucientes estudos acerca da FEB, apontou 4 fases da gloriosa participação de nossa Força Expedicionária na guerra. (continua).
Coronel Manoel Soriano Neto - Historiador Militar
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