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sexta-feira, 15 de março de 2024

Psicológico é a vítima invisível das tragédias no Vale do Taquari

 Devastação provocou destruição de casas e impactou o comércio, mas os sobreviventes ainda buscam “paz de espírito”


Meio ano são 182 dias. Pouco, para recuperar uma cidade completamente devastada. Muito, para quem sofre desde então. Ainda que não visível, a maior perda dos sobreviventes do Vale do Taquari foi a “paz de espírito”. Não há um entrevistado que tenha conversado com a reportagem que não tenha relatado uma profunda tristeza e um evidente desanimo, além do medo frequente. “Cada vez que começa a chover, eu vou para a janela, ver se o rio não tá subindo” ou “se chove, eu não durmo a noite” são relatos comuns.

Eliana Oliveira, 38, de Muçum, teve de começar a tomar remédios para encarar o dia a ida. A jovem, que divide o mesmo pátio dos parentes, teve a casa, à margem do Rio Taquari e ao lado do cemitério, completamente inundada. “Eu não conseguia ficar aqui. Eu sentia medo, eu sentia raiva, tudo que não presta. Lembrava das pessoas mortas”, conta.


O bairro, às margens do rio e próximo ao cemitério, era um ótimo lugar para se viver, conta Cleusa Poletti, 52. Rodas de chimarrão, conversas pelo pátio. “O melhor lugar de Muçum era aqui.” Agora, a vontade é de ir embora. Quem perdeu tudo deixou o bairro, e muitos preferiram não voltar.

A região sofreu em questão de poucos meses uma série de desastres. Poucos meses antes dos desastres de setembro, um temporal de granizo destelhou uma série de casas e, após a tragédia, uma nova enchente voltou a invadir as casas em novembro. Da segunda vez, “foi o que restou”, bem como os resquícios de esperança dos moradores.

O comércio precisa de ajuda

Foi com os olhos marejados que Luiz Carlos Lorenzon, 55, contou que havia perdido tudo do seu bar. Com um bom movimento para uma quinta-feira pela manhã, o local não dava indícios de que há poucos meses não tinha quaisquer mercadorias a serem oferecidas, tampouco onde armazená-las. Da segunda enchente conseguiu preservar um pouco, mas não o suficiente. Recentemente, contou com a ajuda do Sebrae para conseguir abastecer o estoque novamente. Felizmente, os clientes fiéis permaneceram.

Clarines também contou com a ajuda do Sebrae para conseguir comprar as peças perdidas do salão, mas “do poder público, mesmo, não tive nada”, diz ela, queixando-se de que os comerciantes não ganharam a atenção devida.

O caso da família Veirich foi semelhante. O recém adquirido mercado foi inundado, até o lustre, pela água. Quem visita agora, encontra filas de prateleiras vazias e um espaço pequeno onde abrigam os produtos de pecuária que se salvaram e que ainda geram uma renda para família. Amigo da família e quem vendeu o local para Silvia Veirich, atual dona, Renato Zortea, 57, frequentemente ajuda a comerciante. Um crítico veemente da falta de atenção do poder público com os empreendedores, alega que “não precisa nem ser de graça”, bastasse um financiamento a juros reduzidos que já resolvia.

Correio do Povo

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