segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Guerra ao invés de Natal

 Jurandir Soares


Hoje o mundo Cristão celebra o Natal. Não deveria ser diferente na Ucrânia, onde o cristianismo é muito forte. Porém o país lembra e sente a guerra que a Rússia desencadeou contra si e que justo neste sábado, 24, completa dez meses. Período impensável pelo presidente russo Vladimir Putin quando lançou a operação em fevereiro. Na ocasião, acreditava que em dez dias ou, no máximo, duas semanas, as tropas russas chegariam a Kiev, tomariam a capital, promoveriam a deposição do presidente ucraniano Volodimir Zelensky e colocariam no seu lugar um títere de Moscou. Quando vimos pela televisão as imagens da invasão, com uma coluna de veículos de guerra russos que se estendia ao longo de 60 quilômetros, acreditávamos que isto realmente iria acontecer. Esta percepção começou a mudar logo nos primeiros dias de combate, quando se viu uma coluna de tanques russos, que pretendia invadir Kiev, ser rechaçada, batendo em retirada desordenadamente. Ali já se ouviram as primeiras manifestações de estrategistas militares no sentido de que os militares russos cometeram erros grosseiros. E assim o conflito foi se estendendo, até chegarmos a estes dez meses sem uma definição.

E o que aconteceu ao longo deste período? Não podendo entrar em Kiev, a Rússia deslocou suas forças para a região do Donbass, no Leste ucraniano, onde estão as províncias de Donetsk e Lugansk, e onde tem uma comunidade de origem russa que apoia a anexação da região por Moscou. Nunca se ficou sabendo exatamente qual o percentual dessa população, já que há outra parte que não quer perder a sua cidadania ucraniana. Assim, os combates se concentraram ao longo da costa Leste ucraniana até o Sul, onde se situa a província da Crimeia, que já fora retomada pela Rússia em 2014. Após dez meses de guerra, a cidade de Bakhmut, na região do Donetsk, continua a resistir aos ataques russos, apesar de ser atualmente o “ponto mais quente” na linha da frente, afirmou o presidente ucraniano. São “mais de 1300 quilômetros de confrontos ativos”, onde, segundo Zelensky, as forças ucranianas continuam a fazer frente aos militares russos.

E nesta quarta-feira, o presidente Zelensky fez uma das raras visitas que realizou desde que começou a guerra contra a Rússia. Foi à Casa Branca encontrar-se com o presidente Joe Biden e também ao Capitólio, onde fez um de seus costumeiros e empolgados discursos. A visita resultou num enorme reforço para as forças ucranianas. Os Estados Unidos anunciaram o envio à Ucrânia do sistema de defesa antiaéreo Patriot, considerado um dos sistemas americanos mais sofisticados contra aeronaves, mísseis de cruzeiro e mísseis balísticos. Essa remessa é considerada um avanço que pode mudar o rumo da guerra no Leste Europeu. O Patriot fará parte de um pacote de cerca de 1,85 bilhão de dólares em ajuda militar, que inclui também outras formas de defesa antiaérea como os Nasams (curto e médio alcance), Hawks (míssil terra-ar de médio alcance) e Stingers (mísseis portáteis). No total, o conjunto da ajuda militar americana já soma 21,9 bilhões de dólares. O detalhe importante é que as forças ucranianas ainda precisam ser treinadas no manuseio desses equipamentos. O que será feito em um terceiro país, e o que demandará algum tempo ainda no uso desses armamentos.

Enquanto Zelensky tenta se reforçar, Putin admite suas dificuldades. Disse nesta quarta-feira que a situação nas autoproclamadas repúblicas de Donetsk, Kherson, Lugansk e Zaporíjia é “extremamente difícil”. Ou seja, passados dez meses, Putin não conseguiu dominar nem mesmo as repúblicas que ele declarou independentes antes de iniciar a guerra. O fato é que esta guerra está desgastando todas as partes envolvidas direta ou indiretamente. Biden e Zelensky falaram em buscar um caminho para a paz. Putin também tem falado sobre isto. O problema é chegar a um consenso que agrade a todas as partes. Enquanto isto, além de passar o Natal em meio à guerra, os ucranianos terão que passar também o Ano Novo em idênticas condições.

Correio do Povo

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