terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Brexit em baixa

 Após dois anos de Brexit, não há o que comemorar

Jurandir Soares

Este mês de dezembro assinala os dois anos do Brexit. Ou seja, da saída do Reino Unido da União Europeia. O recém empossado primeiro-ministro Rishi Sunak e seus compatriotas britânicos não têm nada a comemorar. A data transcorre em meio a paralisações dos trens, metrôs, serviços postais, enfermeiros, motoristas de ambulâncias e até mesmo de guardas de fronteiras e de aduanas. Não é preciso ressaltar que essas paralisações impactaram fortemente nas festas natalinas. Tudo isto em meio a uma economia em recessão, com inflação que bate nos 10%. Tudo muito longe de materializar a melhoria da qualidade de vida preconizada pelo Brexit, que teve o apoio do próprio Sunak.

Esta queda na economia não se dá apenas a partir dos dois anos em que o Brexit foi oficializado. Ela vem desde 2016, quando o Brexit foi aprovado em um referendo popular. Já naquela ocasião aumentaram os preços e foram reduzidos os salários. Muitas empresas começaram a deixar o solo britânico, antevendo o que viria a acontecer. E isto é refletido no fato de que antes do Brexit havia livre trânsito de pessoas e mercadorias entre o Reino Unido e a Europa. Com a separação, as empresas estabelecidas em solo britânico precisam importar componentes da Europa, pagando as respectivas taxas, que antes não eram cobradas. Além disto, o país está sofrendo hoje as mesmas consequências da guerra da Ucrânia que sofrem seus parceiros europeus.

Segundo a economista Swati Dhingra, da London School of Economics, citada pelo jornal The Guardian, “o legado mais duro do Brexit será um crescimento mais lento de salários reais e da produtividade durante a próxima década. Os trabalhadores de todos os setores e regiões devem se preparar para ajustes severos em seus proventos, enquanto a economia seguirá na procura de um ajuste ao Brexit. E isto ocorre após uma década de estancamento salarial, o que se soma a um aumento agudo do custo de vida por conta da inflação.” E segundo o instituto de pesquisa Resolution Foundation, em seu estudo The Big Brexit: an assesment of the scale of change to come from Brexit (O Grande Brexit: um cálculo da escala de mudanças que chegará com o Brexit) “os trabalhadores do setor público sentiram como seu poder aquisitivo se reduziu em 20% na última década. O mercado de trabalho perdeu mais de um milhão de trabalhadores desde o advento da Covid. Algo que impactou profundamente o consagrado serviço de saúde britânico desenvolvido pelo NHS – National Health Service, obrigado que foi a atender uma extraordinária demanda, que superava em muito sua capacidade.

Diante de todo esse quadro, Sunak se vê obrigado a enfrentar uma mobilização sindical como não era vista desde os tempos de Margaret Thatcher. Resta ver se ele terá a mesma força que teve a Dama de Ferro para enfrentar os movimentos grevistas. E para complicar um pouquinho mais, Sunak tem ainda como desafio a situação das 40 mil pessoas que só neste ano chegaram ao solo britânico cruzando o Canal da Mancha. Ou seja, algo que o Brexit se propunha a acabar, mas que continua acontecendo.


Correio do Povo

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