CON­CI­LI­AR DE­SEN­VOL­VI­MEN­TO COM A PRE­SER­VA­ÇÃO AM­BI­EN­TAL EXI­GE COM­PRO­MIS­SOS!

(Jo­sé Gol­dem­berg, pro­fes­sor emé­ri­to da USP, O Estado de S. Paulo, 17) A nos­sa ci­vi­li­za­ção te­ve iní­cio cer­ca de 6 mil anos atrás, no Ori­en­te Mé­dio, nu­ma re­gião que é ho­je o Ira­que. Os pri­mei­ros po­vos que vi­vi­am na­que­la re­gião, os su­mé­ri­os, ba­bilô­ni­os e as­sí­ri­os, ti­ve­ram de en­fren­tar gran­des obs­tá­cu­los na­tu­rais, en­tre os quais as chei­as vi­o­len­tas e ir­re­gu­la­res dos Ri­os Ti­gre e Eu­fra­tes. Pa­ra so­lu­ci­o­nar es­ses pro­ble­mas, ti­ve­ram de cons­truir di­ques e bar­ra­gens, re­ser­va­tó­ri­os e ca­nais de dre­na­gem de pân­ta­nos e ir­ri­ga­ção que mu­da­ram a fa­ce da re­gião e o meio am­bi­en­te.
Fo­ram es­sas gran­des obras que pos­si­bi­li­ta­ram uma agri­cul­tu­ra pro­du­ti­va que le­vou à cri­a­ção de ci­da­des e im­pé­ri­os. Sem elas, no cli­ma se­co e de­sér­ti­co do Ori­en­te Mé­dio, não ha­ve­ria lí­ri­os nos cam­pos que tan­to im­pres­si­o­na­ram Je­sus há 2 mil anos, co­mo se po­de ver no Ser­mão da Mon­ta­nha em Je­ru­sa­lém, se­gun­do Ma­teus.
Sem as obras re­a­li­za­das, pro­va­vel­men­te não ha­ve­ria lí­ri­os no Ori­en­te Mé­dio. De­sen­vol­vi­men­to exi­ge a re­a­li­za­ção de obras e im­pac­tos que po­dem ser pre­da­tó­ri­os e mo­di­fi­cam a na­tu­re­za. Pre­ser­va­ção am­bi­en­tal exi­ge a ma­nu­ten­ção da na­tu­re­za. Por es­sas ra­zões, con­ci­li­ar de­sen­vol­vi­men­to – es­sen­ci­al pa­ra o bem-es­tar das po­pu­la­ções – com a pre­ser­va­ção am­bi­en­tal exi­ge com­pro­mis­sos.
Es­ta­be­le­cer os li­mi­tes dos im­pac­tos acei­tá­veis é o gran­de pro­ble­ma: se fo­rem mui­to li­be­rais, po­dem pro­vo­car da­nos ir­re­ver­sí­veis ao meio am­bi­en­te. Se fo­rem mui­to exi­gen­tes, po­dem in­vi­a­bi­li­zar as pró­pri­as obras. Es­se é o di­le­ma que en­fren­ta­mos ho­je e so­lu­ci­o­ná-lo se tor­na ca­da vez mais ur­gen­te, por­que a ação do ho­mem so­bre a na­tu­re­za – no seu con­jun­to de mais de 7 bi­lhões de pes­so­as – atin­giu um ní­vel com­pa­rá­vel à ação das for­ças ge­o­ló­gi­cas na­tu­rais (chu­vas, ven­tos, ma­res, erup­ções vul­câ­ni­cas e ou­tras).
No ca­so da po­lui­ção lo­cal, es­tes com­pro­mis­sos fo­ram ba­si­ca­men­te es­ta­be­le­ci­dos com a le­gis­la­ção am­bi­en­tal ado­ta­da na In­gla­ter­ra em 1953 – que re­sul­tou na des­po­lui­ção do Rio Tâ­mi­sa –, de­pois ado­ta­da em su­as li­nhas ge­rais no mun­do to­do, in­clu­si­ve no Bra­sil.
Nos paí­ses em de­sen­vol­vi­men­to, sua im­ple­men­ta­ção dei­xa mui­to a de­se­jar por­que têm fal­ta­do re­cur­sos pa­ra cum­prir a le­gis­la­ção. O exem­plo mais fla­gran­te é o ca­so do sa­ne­a­men­to bá­si­co (co­le­ta do li­xo e a dis­po­si­ção de es­go­tos re­si­den­ci­ais e seu tra­ta­men­to). Qua­se me­ta­de da po­pu­la­ção bra­si­lei­ra não tem aces­so a ele. A Baía de Gu­a­na­ba­ra, no Rio de Ja­nei­ro, con­ti­nua po­luí­da, bem co­mo o Rio Pi­nhei­ros, em São Pau­lo. A co­le­ta, re­ci­cla­gem e dis­po­si­ção do li­xo ur­ba­no es­tão pro­gre­din­do no Es­ta­do de São Pau­lo, mas exis­tem ain­da mi­lha­res de li­xões a céu aber­to no País.
Ou­tros pro­ble­mas ocor­rem na cons­tru­ção de usi­nas hi­dre­lé­tri­cas. Os re­ser­va­tó­ri­os ne­ces­sá­ri­os pa­ra que elas con­ti­nu­em pro­du­zin­do ener­gia nos pe­río­dos se­cos do ano po­dem inun­dar gran­des áre­as, o que im­pac­ta po­pu­la­ções e o meio am­bi­en­te lo­cal. Sem elas, con­tu­do, as ci­da­des fi­ca­ri­am no es­cu­ro. Es­te é tal­vez o me­lhor exem­plo dos con­fli­tos en­tre de­sen­vol­vi­men­to e a pre­ser­va­ção do meio am­bi­en­te e que não po­de ser so­lu­ci­o­na­do sem ar­bi­trar en­tre os in­te­res­ses dos afe­ta­dos e os dos que são be­ne­fi­ci­a­dos pe­los em­pre­en­di­men­tos.
O no­vo pro­ble­ma que sur­giu nas úl­ti­mas dé­ca­das é o do aque­ci­men­to glo­bal: a tem­pe­ra­tu­ra mé­dia do pla­ne­ta já au­men­tou mais de um grau cen­tí­gra­do des­de 1850 e con­ti­nua au­men­tan­do em ra­zão da quei­ma de com­bus­tí­veis fós­seis, que tem co­mo re­sul­ta­do a pro­du­ção dos ga­ses res­pon­sá­veis pe­lo aque­ci­men­to (glo­bal), co­mo dió­xi­do de car­bo­no, que são lan­ça­dos na at­mos­fe­ra, e o des­ma­ta­men­to.
As con­sequên­ci­as des­te aque­ci­men­to po­de­rão ser de­vas­ta­do­ras e te­mos, por­tan­to, du­as al­ter­na­ti­vas: ou nos adap­ta­mos a um mun­do mais quen­te ou to­ma­mos me­di­das pre­ven­ti­vas pa­ra evi­tar que ele se aque­ça.
O que fa­zer, en­tão? Ata­car os pro­ble­mas da po­lui­ção lo­cal que es­tão nos afli­gin­do ago­ra ou con­cen­trar no­vos es­for­ços em ten­tar re­du­zir as con­sequên­ci­as fu­tu­ras do aque­ci­men­to glo­bal?
Es­te é um fal­so di­le­ma, que foi dis­cu­ti­do des­de 1992, quan­do foi ado­ta­da a Con­ven­ção do Cli­ma no Rio de Ja­nei­ro: é ain­da pos­sí­vel evi­tar o aque­ci­men­to glo­bal to­man­do me­di­das de pre­cau­ção, is­to é, evi­tan­do au­men­tar as emis­sões de ga­ses de efei­to es­tu­fa e to­man­do me­di­das pa­ra re­du­zi-las? Ou é tar­de de­mais e pre­ci­sa­mos ado­tar me­di­das pa­ra nos adap­tar­mos a um mun­do mais quen­te? Exem­plo de adap­ta­ção se­ria cons­truir di­ques pa­ra nos pro­te­ger do au­men­to do ní­vel do mar, co­mo fez a Ho­lan­da no pas­sa­do.
A te­se do­mi­nan­te, até ago­ra, foi a de ado­tar me­di­das de pre­cau­ção e dei­xar me­di­das de adap­ta­ção pa­ra o fu­tu­ro.
Pa­ra evi­tar es­tes con­fli­tos e não fa­zer na­da são in­ven­ta­das te­o­ri­as cons­pi­ra­tó­ri­as de to­do ti­po e até ten­ta­ti­vas de ne­gar as ba­ses ci­en­tí­fi­cas do aque­ci­men­to glo­bal, que são bem es­ta­be­le­ci­das. O “ruí­do” cri­a­do pe­los as­sim cha­ma­dos “ne­ga­ci­o­nis­tas” – in­cluin­do al­guns bra­si­lei­ros mal in­for­ma­dos – é adi­ar a ado­ção de me­di­das re­la­ti­va­men­te sim­ples pa­ra en­fren­tar os pro­ble­mas, en­tres eles o de re­du­zir o des­ma­ta­men­to da Amazô­nia, que é a prin­ci­pal fon­te de emis­sões do Bra­sil. As ações ne­ces­sá­ri­as pa­ra tal, so­bre­tu­do a fis­ca­li­za­ção, são de bai­xo cus­to, co­mo já foi de­mons­tra­do pe­la re­du­ção do des­ma­ta­men­to a par­tir de 2005.
Por­tan­to, en­fren­tar o pro­ble­ma do aque­ci­men­to glo­bal não exi­ge ain­da gran­des obras, mas po­lí­ti­cas pú­bli­cas (e le­gis­la­ção re­sul­tan­te) que ori­en­tem o de­sen­vol­vi­men­to na di­re­ção cor­re­ta, in­cluin­do a ado­ção de ener­gi­as re­no­vá­veis e a so­lar em subs­ti­tui­ção à ener­gia ge­ra­da quei­man­do com­bus­tí­veis fós­seis.
Já a so­lu­ção dos pro­ble­mas de po­lui­ção lo­cal, co­mo sa­ne­a­men­to bá­si­co, exi­ge gran­des obras de en­ge­nha­ria e en­ga­ja­men­to di­re­to de au­to­ri­da­des lo­cais (pre­fei­tos e go­ver­na­do­res). É ne­les que é pre­ci­so in­ves­tir ago­ra, en­quan­to as po­lí­ti­cas pú­bli­cas sur­tem efei­tos pa­ra o fu­tu­ro.
Não há o que es­co­lher. Am­bas ações são ne­ces­sá­ri­as.


Ex-Blog do Cesar Maia


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