terça-feira, 26 de julho de 2022

Dólar cai 2,35% e fecha abaixo de R$ 5,40 pela 1ª vez desde 11 de julho

 Divisa oscilou mais de 10 centavos entre a máxima (R$ 5,4790), na abertura, e a mínima (R$ 5,3665)



Já em baixa firme desde a abertura dos negócios, o dólar à vista aprofundou as perdas ao longo da tarde e encerrou a sessão desta segunda-feira em queda de 2,35%, cotado a R$ 5,3697 - primeiro fechamento abaixo da linha de R$ 5,40 desde 11 de julho e maior tombo em um único pregão desde 10 de março (-2,50%). A divisa oscilou mais de 10 centavos entre a máxima (R$ 5,4790), na abertura, e a mínima (R$ 5,3665).

Segundo analistas, o enfraquecimento da moeda americana no exterior, em semana de decisão do Federal Reserve, e a recuperação das commodities, na esteira de medidas de resgate ao setor imobiliário na China, abriram espaço para realização de lucros e redução de posições compradas (que ganham quando o dólar sobe) no mercado futuro. Iniciado pela manhã, esse movimento ganhou força na segunda etapa de negócios, com uma corrida por zeragem de posições turbinada pela liquidez reduzida.

Na semana passada, o dólar chegou a beliscar, nas máximas, o patamar de R$ 5,50 e encerrou a sessão de sexta-feira com valorização acumulada de 5,04% em julho. Havia, portanto, espaço para um ajuste de baixa assim que houvesse um ambiente mais ameno no exterior e arrefecimento das tensões locais, dizem operadores. "O dólar sobe muito rápido quando tem estresse, mas também cai rapidamente quando o cenário melhora. Teve uma realização forte de ganhos hoje com o mercado 'pequeno'. É muito caro carregar posição em dólar com esse CDI alto", diz o operador Hideaki Iha, da Fair Corretora.

No exterior, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de divisas fortes - trabalhou em baixa de cerca de 0,25% ao longo da sessão abaixo da linha de 106,500 pontos, com uma ligeira recuperação do euro forte alta da libra. A moeda europeia ficou um pouco menos frágil após o Banco Central Europeu surpreender e elevar a taxa de juros em 50 pontos-base na semana passada. O DXY não tombou mais porque o iene se fortaleceu após dois novos dirigentes do Banco do Japão acenarem em discurso de posse com possível mudança da política monetária expansionista.

É amplamente majoritária a expectativa de que o Fed anuncie na quarta-feira (27) um nova alta da taxa de juros em 75 pontos-base, após flerte momentâneo do mercado com a possibilidade de elevação em 100 pontos-base. As atenções estarão mais voltadas ao tom do comunicado e, sobretudo, a declarações do presidente do Fed, Jerome Powell, em entrevista coletiva.

Já há quem veja possibilidade de o BC americano amenizar o discurso contra a inflação em meio a indicadores que mostram enfraquecimento de indústria e serviços nos EUA. Na ponta oposta, o mercado de trabalho segue com desempenho robusto. Na quinta-feira (28), sai o resultado preliminar do PIB dos Estados Unidos no segundo trimestre, após retração de 1,6% no primeiro.

"O comportamento do dólar aqui vai depender muito do que o Fed fizer. Mas o cenário ainda é de dólar para cima. Pode voltar a R$ 5,50 porque temos nossas questões fiscais e políticas, com a eleição se aproximando", diz Iha, da Fair.

O dólar também caiu em bloco frente a divisas emergentes e de países exportadores de commodities. O real, que vinha apanhando mais, exibiu os maiores ganhos, seguido do peso chileno, com alta superior a 1%. As cotações do petróleo subiram, com o tipo Brent para outubro, referência para a Petrobras, em alta de 1,84%, a US$ 100,19 o barril. O minério de ferro negociado em Qingdao, na China, avançou 1,24%, após circularem informações de que o governo chinês pode lançar um fundo imobiliário de até US$ 44 bilhões para lidar com a crise das incorporadoras.

Para a economista Cristiane Quartaroli, do Banco Ourinvest, eventuais estímulos econômicos na China e a perspectiva de melhora de preços de commodities abriram espaço para uma recuperação das moedas emergentes da qual o real se beneficiou. "Além disso, melhorou a expectativa de fluxo de capital para o Brasil depois que os Estados Unidos e o Reino Único revogaram medidas restritivas a exportação de aço brasileiro. Isso ajudou a animar o mercado", diz.

A economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico, observa que o real não conseguiu aproveitar o tropeço da moeda americana lá fora na semana passada, na esteira de dados fracos de atividade nos EUA e da decisão do BCE de subir os juros em 50 pontos. O real sofreu, segundo Damico, em parte em razão da queda dos termos de troca, mas principalmente por conta do cenário político conturbado e dos riscos fiscais. "O cenário para taxa de cambio brasileira segue de alta volatilidade no curto prazo, porém continuamos vislumbrando um maior número vetores para manutenção de um nível depreciado da moeda do que de vetores de apreciação", afirma a economista, em relatório.

Ibovespa

Mesmo com a relativa fraqueza vista neste começo de semana no exterior, o forte recuo do dólar e a retração observada também nos juros futuros permitiram que o Ibovespa recuperasse desde mais cedo a linha dos 100 mil pontos, não vista em fechamento desde o último dia 8. Nesta segunda-feira, 25, oscilou entre mínima de 98.925,16, correspondente quase à abertura (98.926,28), e máxima de 100.508,09, para fechar a sessão aos 100.269,85 pontos, em alta de 1,36%.

Apesar de o desempenho dos ativos brasileiros ter refletido hoje percepção um pouco mais favorável sobre o risco doméstico, o giro financeiro na B3, ainda modesto, não deixa esquecer a cautela dos investidores: R$ 18,2 bilhões. No mês, que termina na sexta-feira para os negócios, o Ibovespa sobe 1,75%, cedendo 4,34% em 2022.

No exterior, o consenso em torno de um aumento de 75 pontos-base, e não mais de 100 pontos-base como chegou a ser precificado pelo mercado para a reunião do Federal Reserve desta quarta-feira, não deixa de ser uma boa notícia para emergentes como o Brasil. Ainda assim, as incertezas quanto à inflação global e o ajuste necessário às políticas monetárias das maiores economias continuam a recomendar cautela, apontam analistas.

Na B3, o desempenho desta segunda-feira foi puxado por setores de maior peso e liquidez, como commodities, com Petrobras em alta na casa de 4% e Vale ON, de 1,85%, enquanto os grandes bancos avançaram até 1,78% (Unit do Santander). Na ponta do Ibovespa, destaque também para PetroRio (+4,15%), logo atrás das duas ações de Petrobras, em avanços de 4,32% (ON) e de 4,67% (PN) na sessão. No lado oposto, Pão de Açúcar (-7,04%), IRB (-5,50%) e Petz (-5,07%).

"Amanhã, teremos a divulgação de dados de inflação IPCA-15, que devem repercutir as medidas adotadas pelo governo no combate à inflação, e que hoje parecem ter influenciado os juros futuros, que recuaram por toda a curva. Somam-se a isso alguns resultados importantes de balanços para sair nesta semana, como os de Petrobras e Vale, que podem funcionar como 'drive' adicional à tomada de risco", observa Leandro De Checchi, analista da Clear Corretora.

"Lá fora, a semana começou de forma negativa na Ásia, ajustando-se ainda ao desempenho de Nova York na sexta-feira. Mas veio uma boa notícia da China, a de que o governo vai colocar um pacote de estímulos a construtoras para que superem o momento complicado. Esse pacote deu algum suporte, depois, aos mercados da Europa, enquanto nos Estados Unidos há também a cautela para a decisão do Federal Reserve nesta semana, bem como o prosseguimento da temporada de resultados trimestrais", diz Leonardo Neves, especialista em renda variável da Blue3.

"Aqui, o Ibovespa conseguiu alta um pouco mais forte, impulsionado por ganhos no petróleo e no minério, o que fez Petrobras e Vale puxarem o índice, além dos grandes bancos", acrescenta.

Nesta última semana de julho, os investidores, além da decisão do Federal Reserve, seguem concentrados em fatores como o "aumento do risco de recessão global, a elevação de juros no mundo desenvolvido e a temporada de resultados das empresas listadas na bolsa americana, bem como o PIB dos Estados Unidos", aponta Antonio Sanches, analista da Rico Investimentos, destacando lá fora a expectativa pelos números de 'big techs' americanas, como Alphabet, Amazon e Apple - aqui, Vale e Petrobras.

No cenário macro, "a curva de juros americana tem consolidado a ideia de recessão nos Estados Unidos, pelo menos na cabeça do mercado. O problema é saber se o BC americano acredita nisso e vai agir em conformidade. Está todo mundo esperando agora aumento de 0,75 ponto porcentual na quarta-feira", diz Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master. "A questão também é saber quando haverá um pivô no discurso do Fed, que tem sido 'hawkish'", acrescenta o economista, antevendo a possibilidade de suavização de tom a partir da reunião de setembro, "talvez já com alguns sinais" no encontro desta semana.

Juros

Os juros futuros terminaram a segunda-feira, 25, em queda, em continuidade ao movimento de alívio de prêmios na curva já visto na sexta-feira, hoje estimulado pelo bom humor do ambiente externo e queda do dólar. O recuo, no entanto, não teve respaldo de liquidez, com investidores preferindo aguardar os eventos da semana para montar posições mais firmes. Amanhã, sai o IPCA-15 de julho e, na quarta-feira, o Federal Reserve tem reunião de política monetária.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 fechou em 13,835%, de 13,866% no ajuste de sexta-feira; a do DI para janeiro de 2024 caiu de 13,812% para 13,735%; a do DI para janeiro de 2025, de 13,265% para 13,18%; e a do DI para janeiro de 2027 fechou em 13,14%, de 13,24%.

Os vencimentos longos eram os que mais tinham espaço para devolver a alta, após a pressão recente imposta pelos receios fiscais. Não que tenham sido deixados de lado, mas hoje o clima ameno nos mercados internacionais e a agenda fraca no Brasil autorizaram alguns ajustes.

A economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Natalie Victal, destaca que, diante do noticiário escasso e níveis já muito elevados nos prêmios, a melhora do humor global acaba favorecendo a sequência do correção na curva, que, porém, se deu com volume escasso em função da agenda da semana. "Temos amanhã o IPCA-15 de julho, dado ultrarrelevante para juros, e na quarta, a reunião do Fed", afirmou.

Na pesquisa do Projeções Broadcast, a mediana das estimativa para o índice cheio é de 0,16%, ante 0,69% em junho, taxa também esperada pela SulAmérica. "A desaceleração será puxada pela deflação artificial dos preços administrados. Por isso, o mercado terá atenção total aos núcleos, serviços subjacentes e os preços que são mais inerciais", afirma Victal.

O IPCA-15 será o principal dado a ser conhecido antes do Copom da próxima semana e tem potencial para mexer com as apostas do mercado para a Selic. Talvez não para a agosto, mas quanto ao plano de voo da autoridade monetária, indicando se será possível encerrar o ciclo na semana que vem. "O balanço de riscos do BC piorou desde a última reunião. O desafio da desinflação aumentou com sinais do mercado de trabalho mais aquecido e as medidas fiscais", explicou a economista, referindo-se à PEC dos Benefícios. Ela prevê altas de 0,5 ponto porcentual em agosto e 0,25 ponto em setembro, com Selic terminal de 14%.

Lá fora, os rendimentos dos Treasuries tiveram hoje alta moderada, em dia de leilão de US$ 45 bilhões em T-Notes de 2 anos do Tesouro americano, mas que não chegaram a afetar a curva local. O mercado mantém a aposta de que o Federal Reserve não deve acelerar o ritmo de aperto do juro, aplicando nova dose de 75 pontos-base amanhã, e a grande expectativa é pelo comunicado e entrevista de Jerome Powell para projetar os próximos passos.

O mercado de juros também não se incomodou com o avanço das commodities, até porque esse desempenho ajudou o real. O dólar fechou em queda de 2,35%, aos R$ 5,3697. O pano de fundo foi a informação de que a China lançará um fundo imobiliário para ajudar o setor a resolver uma crise de dívida incapacitante, de até 300 bilhões de yuans (US$ 44 bilhões).

Agência Estado e Correio do Povo

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