segunda-feira, 18 de julho de 2022

Bandeiras

 "O que a imensa maioria dos brasileiros percebeu é que cultuar determinados valores e externar isso ao empunhar a bandeira do país não é cafona."

Guilherme Baumhardt

“O meu entendimento, em relação à bandeira nacional, a partir do dia 16 de agosto, ela vai configurar, sim, uma propaganda eleitoral. É evidente que hoje a bandeira nacional é utilizada por diversas pessoas como sendo um lado da política. Hoje a gente sabe que existe uma polarização. De um dos lados, há o uso da bandeira nacional como símbolo dessa ideologia política. Existe mal nisso? Mal nenhum. Acontece que a partir do dia 16 de agosto, no meu entendimento, isso vai configurar uma propaganda política”.

As frases acima são da juíza eleitoral Ana Lúcia Todeschini Martinez. Vieram a público pela primeira vez na semana que passou, pelas ondas da rádio Fronteira Missões, de Santo Antônio das Missões – cidade distante 530 quilômetros de Porto Alegre. Se a intenção era colocar um freio no uso de um dos símbolos nacionais durante a campanha, o tiro saiu pela culatra. Gente que simpatiza com o atual presidente, mas até hoje não havia sequer cogitado a possibilidade de externar o apoio, decidiu “colocar o bloco na rua”. Não será surpresa se a partir de agora passarmos a ver mais verde e amarelo nas cidades.

Vou usar a manifestação da juíza apenas como ponto de partida para outra reflexão. Não deixa de ser impressionante (e ao mesmo tempo revelador) que tenhamos uma falha total de foco em situações semelhantes. A bandeira de um país (que os norte-americanos ostentam em frente às suas casas ou em adesivos nos carros) deveria ser motivo de orgulho – quando tratamos de nações livres, que carregam valores com os quais nos identificamos. Mas, no Brasil, o culto à bandeira virou motivo de debate e, pasmem, até de censura.

Alguns dirão que a culpa é do “bolsonarismo”. Pergunto: quantas bandeiras eram vistas em manifestações e comícios, por exemplo, do PT, desde que o partido se tornou um dos protagonistas nacionais? Havia um mar vermelho. Nada de verde e amarelo. Salvo engano meu, não havia qualquer proibição neste sentido. O que existia era uma preferência.

Pelo mesmo vermelho, aliás, que dava cor às bandeiras da extinta União Soviética e da China. É curioso: há um ataque de pelancas com o ressurgimento do amor pela bandeira brasileira, mas não há espanto quando partidos políticos, congressistas ou no meio acadêmico, por exemplo, símbolos como a foice e o martelo sejam venerados, mesmo que eles estejam associados aos regimes mais sanguinários da história moderna (estimativas apontam para 100 milhões de mortes provocadas pelas “ditaduras do bem”).

Algumas eleições atrás a turma da “canhota” até tentou recuperar o espaço perdido. Tarde demais. Soou falsa uma valorização repentina das cores que são símbolo da pátria brasileira, ainda mais misturadas ao vermelho. O eleitorado não comprou a ideia. Talvez porque todo mundo já saiba que o lobo mau aparece fantasiado de vovozinha.

O que a imensa maioria dos brasileiros percebeu é que cultuar determinados valores e externar isso ao empunhar a bandeira do país não é cafona. E nada tem a ver com o regime militar brasileiro, encerrado há quase 40 anos, mas que permanece vivo e como uma ameaça constante apenas na cabeça dos militontos esquerdistas. É muito mais do que isso. Citei os Estados Unidos, mas poderia elencar aqui o Reino Unido, onde a população chama carinhosamente a bandeira de “Union Jack” (especula-se que a origem esteja na palavra “jacket” – jaqueta em inglês –, depois que o rei Charles II defendeu a ideia de que a bandeira deveria ser usada como uma jaqueta nas embarcações reais, mas há outras versões).

Voltando ao caso da juíza. Nesta sexta-feira, o pleno do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul cortou o problema pela raiz. Para a maioria dos desembargadores, o uso da bandeira não configura propaganda eleitoral. Sim, parece um tanto óbvio. E, de fato, é. Mas a manifestação formal e oficial é importante para colocar um ponto final no assunto. Bem, ao menos até que o STF seja provocado sobre o tema. Vai saber o que pensam, por exemplo, um Alexandre de Moraes ou um Gilmar Mendes. Toc toc toc...


Correio do Povo

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