sábado, 4 de junho de 2022

Dólar destoa do exterior e cai 0,20% no dia, mas fecha semana com alta de 0,85%

 Moeda norte-americana encerrou sessão cotado a R$ 4,77



Apesar do sinal predominante de alta da moeda norte-americana no exterior, na esteira de dados fortes de geração de emprego nos Estados Unidos, o dólar apresentou bastante instabilidade no mercado doméstico de câmbio na sessão desta sexta-feira. Segundo operadores, entrada de fluxo estrangeiro (comercial e financeiro) e desmonte parcial de posições defensivas no mercado futuro, em meio à redução dos temores de que o governo opte por decretar estado de calamidade, serviram de contrapeso à aversão ao risco.

Com trocas de sinal ao longo do dia, a divisa chegou a correr até a máxima de R$ 4,8320 pela manhã. A mínima, a R$ 4,7762, veio já na reta final da sessão. No fim do dia, o dólar à vista era cotado a R$ 4,7787, em baixa de 0,20%. A moeda fecha a semana valorização bem modesta, de 0,85%, interrompendo uma sequência de três semanas de queda expressiva, quando desceu do patamar de R$ 5,05 para operar ao redor de R$ 4,80.

Segundo apuração do Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), o ministro Paulo Guedes prometeu, ao presidente Jair Bolsonaro, em reunião na quinta-feira à noite, que apresentará uma solução para amenizar a alta dos preços de combustíveis na tentativa de evitar a decretação de estado de calamidade do País - medida aventada pela ala política do governo e que abriria espaço para subsídio aos combustíveis e aumento do Auxílio Brasil.

A economista Cristiane Quartaroli, do Banco Ourinvest, observa que provável fluxo de recursos para o País nesta sexta, em meio a ambiente positivo para commodities com a reabertura da China, tirou pressão sobre a taxa de câmbio. "As moedas emergentes e o real ainda devem se beneficiar pela perspectiva de que a China possa contribuir para melhora do crescimento mundial. Existe uma aparente entrada de fluxo que contribuiu para a queda do dólar hoje", afirma.

Lá fora, o dólar subiu em relação seus pares, especialmente o iene e a libra esterlina, com o índice DXY voltando a ser negociado acima da linha dos 102 pontos. A moeda americana também avançou frente à ampla maioria de divisas emergentes e de países exportadores de commodities, mas com ganhos bem modestos. O real, que vinha apanhando mais que seus pares nos últimos dias, nesta sexta apresentou o melhor desempenho. Além da moeda brasileira, o peso chileno também se apreciou ante o dólar.

A semana foi dominada pelos debates em torno do ritmo de ajuste da política monetária norte-americana, em meio a dados de atividade e à divulgação nesta sexta pela manhã do relatório de emprego (payroll) nos EUA em maio. Foram criadas 390 mil vagas no mês passado, acima das expectativas (328 mil). A taxa de desemprego ficou estável em 3,6%. Já o salário médio por hora avançou 0,3% em relação a abril, ligeiramente abaixo da previsão (+0,4%), amenizando em parte as pressões geradas pela geração de empregos.

"O relatório de emprego mostra que a atividade americana está forte. Existe um temor grande de como o mercado pode reagir a esse choque de redução de estímulos nos Estados Unidos, que não tem precedente histórico", afirma o economista Rodrigo Marcatti, CEO da Veedha Investimentos.

Começa a perder força a perspectiva de que o Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano), adote uma pausa no processo de elevação de juros em setembro, após ter promovido duas altas consecutivas da taxa básica em 50 pontos-base (em junho e julho). O prolongamento da guerra na Ucrânia, que completou 100 dias, e as sanções ao óleo russo pela União Europeia mantêm os preços do petróleo em ascensão, o que aumenta os riscos inflacionários globais. O petróleo para agosto tipo Brent, referência para Petrobras, fechou em alta de 1,79%, a US$ 119,72 o barril, tendo ultrapassado a marca de US$ 120 ao longo do pregão.

Após a vice-presidente do BC norte-americano, Lael Brainard, dizer na quinta-feira que considera "improvável uma pausa no processo de ajuste monetário", a presidente do Fed de Cleveland, Loreta Mester, afirmou nesta sexta que poderá haver "facilmente" um aumento de 50 pontos-base da taxa básica americana em setembro. "Preciso de evidências robustas para ter certeza de que a inflação atingiu o pico", disse Mester, que julga apropriado elevar os juro em 0,50 ponto em cada uma das duas próximas reuniões do Fed.

"A criação de empregos foi impressionante. E houve ganhos salariais. São sinais de que o mercado de trabalho americano continua forte. A inflação está pressionada e o mercado pode precificar um prolongamento da alta dos juros americanos", diz o economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, que não acredita, porém, que o Fed será muito agressivo no ajuste da política monetária.

Taxas de juros

Os juros futuros fecharam a sexta-feira em leve baixa, corrigindo parcialmente as altas das últimas sessões, principalmente na ponta longa, que vinha subindo mais. O sinal de queda foi definido à tarde, depois que o mercado absorveu o choque com o relatório de emprego nos Estados Unidos, que pressionou a curva dos Treasuries e também as commodities.

O risco fiscal continuou no radar, mas o surgimento de alternativas a uma possível decretação do estado de calamidade, que poderia abrir a torneira dos gastos em ano eleitoral, traz algum alento aos investidores.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 fechou a etapa regular em 13,425%, de 13,440% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2024 caiu de 13,046% para 13,025%. O DI para janeiro de 2025 encerrou com taxa de 12,435%, de 12,455% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2027 terminou com taxa de 12,31%, de 12,355% quinta-feira. No balanço da semana, pelos DIs janeiro de 2027 e janeiro de 2024, a curva ganhou 15 pontos-base em inclinação.

A sexta-feira foi de alguma volatilidade no mercado de juros. Pela manhã, oscilaram majoritariamente com sinal moderado de alta, em meio à reação negativa dos ativos globais ao relatório de emprego norte-americano. A leitura é de que o mercado de trabalho apertado pode pressionar ainda mais a inflação, exigindo um ciclo de aperto dos juros mais agressivo pelo Federal Reserve.

Os juros dos Treasuries subiram, com a taxa da T-Note de dez anos tocando 2,98%, mas à tarde desacelerou a 2,94%, ajudando a encorajar uma correção em baixa na curva local, a despeito da manutenção firme do avanço nos preços do petróleo, que estão mais perto dos US$ 120.

O estrategista-chefe de renda fixa da Necton Investimentos, Felipe Beckel, atribui a virada das taxas a um ajuste técnico, com investidores trocando posições em NTN-B por prefixados. Segundo Beckel, as implícitas subiram muito nas últimas semanas com o fluxo negativo de notícias para Brasil e avanço nos preços do petróleo, enquanto no DI a curva está próxima das máximas do ano. Com a maioria das implícitas rodando a 6,5% e a curva do DI invertida, ele vê certa disfuncionalidade, o que naturalmente puxa um ajuste. "Quando tem certa irracionalidade em precificação, é natural que tenha uma virada e, neste sentido, o câmbio também favorece a desmontagem de posições", explicou.

Patricia Pereira, gestora de renda fixa da MAG Investimentos, viu algum alento no noticiário relacionado à possibilidade de adoção do estado de calamidade, que liberaria gastos fiscais no ano eleitoral, com a sinalização de Guedes para Bolsonaro, mas acredita que o assunto voltará a tona em algum momento.

A chance de aprovar a tempo uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para abrir caminho a medidas de combate à alta no preço dos combustíveis, como alternativa à calamidade e proposta por aliados do governo, na visão da gestora, é pequena. "É certo que Lira (presidente da Câmara, Arthur Lira) está correndo com a pauta no primeiro semestre, mas acredito que não dará tempo de aprovar a PEC antes do recesso", disse, lembrando que no segundo semestre os parlamentares vão se dedicar ao processo eleitoral.

Bolsa

O Ibovespa encerrou a semana acumulando perda de 0,75% no intervalo, vindo de ganhos nas três anteriores, com destaque para o avanço de 3,18% na semana passada. Nesta sexta-feira, em sessão também negativa nos mercados da Europa e de Nova York, fechou em baixa de 1,15%, aos 111.102,32 pontos, entre mínima de 110.935,15 e máxima de 112.391,83, da abertura, após ter encerrado a quinta-feira no maior nível desde 20 de abril. Nestas três primeiras sessões de junho, teve perda de 0,22%, mostrando ganho no ano de 5,99%. Enfraquecido, o giro desta sexta-feira foi de R$ 21,1 bilhões.

"Em sexta-feira com feriados na China, em Hong Kong e no Reino Unido houve menor liquidez global, numa semana que parecia a caminho de ganhos, aqui como em Nova York, até o dia de hoje. Sexta é o dia de não 'fazer bobagem', um dia que costuma ser de maior acomodação mesmo", diz Bruno Madruga, head de renda variável da Monte Bravo Investimentos, após uma quinta-feira em que o avanço do setor de tecnologia havia contribuído para as bolsas, aqui e fora.

Virada a página da quinta-feira, "houve hoje em Nova York um movimento bem pesado nas ações de techs, puxado pelas da Tesla e que se estendia a outros grandes nomes do setor, como Apple, Meta, Alphabet, Microsoft - e com avanço na curva de juros nesta sexta uma combinação típica de aversão a risco. Depois do payroll de maio, divulgado pela manhã, parte do mercado reavalia a possibilidade de um aumento mais forte nos juros americanos", diz Romero de Oliveira, head de renda variável da Valor Investimentos, referindo-se à chance de o BC dos Estados Unidos recolocar sobre a mesa aumento de 0,75 ponto porcentual na taxa de juros de referência, acima, portanto, do meio ponto já precificado pelo mercado.

"O Ibovespa acompanhou o dia ruim no exterior, mas, no Brasil, os ruídos políticos sobre a possibilidade de crédito extraordinário para subsidiar o diesel contribuem para a queda do mercado", acrescenta Oliveira, mencionando estratagemas em discussão no Planalto, como a possibilidade de adoção de situação de calamidade.

Nesta sexta, a leitura sobre a geração de vagas no mercado de trabalho dos Estados Unidos em maio - acima do esperado, mas com revisão significativa de resultados anteriores - reforçou as dúvidas sobre o grau de ajuste necessário à política monetária americana, ante a inflação. Uma leitura menor do payroll de maio ajudaria a tirar parte da pressão sobre o Federal Reserve, no momento em que o mercado de trabalho americano tem se mostrado mais apertado, situação em que a renda salarial tende a responder, em algum momento, a uma dificuldade maior para o preenchimento de vagas disponíveis.

"O último relatório de emprego mostrou um crescimento mais lento do emprego e uma inflação potencialmente mais branda, mas ainda mantém a porta aberta para o Fed continuar com sua campanha de alta das taxas de juros muito além do verão no hemisfério norte", observa em nota Edward Moya, analista da Oanda em Nova York. Ele acrescenta que "a moderação do crescimento econômico está acontecendo, mas não rápido o suficiente para sinalizar uma mudança de rumo pelo Fed". "O consumidor pode estar perdendo a batalha contra a inflação, mas os gastos não vão se enfraquecer tão rapidamente", aponta o analista.

Por outro lado, a recente reabertura da economia na China tem contribuído para a recuperação das commodities, em especial minério de ferro e petróleo, aos quais a B3 têm exposição. Assim, os ganhos recentes em Vale e siderurgia deram lugar nesta sexta a uma correção moderada, em dia negativo para os setores e ações de maior peso e liquidez, à exceção de Petrobras (ON +2,55%, PN +1,75%), que vinha perdendo a carona proporcionada pelo Brent nos últimos dias, movimento que levou os contratos do barril para agosto a serem negociados acima de US$ 120 na máxima desta sexta-feira.

Na semana, Petrobras ON e PN acumularam, respectivamente, leve avanço de 0,06% e perda de 1,05%, enquanto Vale ON ganhou 3,20% no mesmo intervalo. Na ponta do Ibovespa na sessão desta sexta-feira, destaque para Natura (+2,75%), à frente das duas ações de Petrobras. No lado contrário, Méliuz (-6,74%), Americanas ON (-5,83%), Yduqs (-5,59%) e Magazine Luiza (-5,53%). As perdas entre os grandes bancos chegaram nesta sexta a 1,39% (BB ON) e entre as siderúrgicas a 1,52% (Usiminas PNA). Destaque também para queda de 3,16% em Eletrobras ON e de 2,23% para Eletrobras PNB. Vale ON caiu nesta sexta 1,60%.

Agência Estado e Correio do Povo

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