Cidades gaúchas já aprovaram leis que proíbem o utensílio
Prefeituras em todo o país proíbem os canudos | Foto: Guilherme Almeida
Nunca se leu tanto sobre o perigo do canudinho plástico descartado na natureza quanto nos últimos anos. A imprensa nacional e internacional vem abordando seguidamente o tema, já que a situação se agrava todos os dias com o lixo que se acumula em águas doces e mares, prejudicando a saúde do homem e dos animais. Cidades brasileiras e inclusive gaúchas já aprovam leis proibindo o canudinho plástico em bares e restaurantes.
Em Porto Alegre também foi aprovado projeto de autoria do vereador Marcelo Sgarbossa (PT), no último dia 20 de dezembro. Os comerciantes terão um ano para se adaptar, conforme emenda à proposta apresentada pelos vereadores Professor Wambert (Pros) e Mônica Leal (PP). No Rio Grande do Norte, a legislação é estadual. Está sancionada desde outubro e deverá vigorar a partir de abril.
A preocupação com a poluição causada pelos canudos é visível no mundo inteiro, tanto que o Parlamento Europeu já aprovou proposta para banir do comércio peças plásticas pequenas, leves e de uso único, como é o caso do próprio canudo e de pratos, copos e sacolinhas descartáveis.
Pequeno e pouco percebido em um primeiro momento, o canudinho descartável é um grande vilão em meio a todo o lixo que desemboca nos mares. Sua reciclagem nem sempre é lembrada como fundamental para a preservação do planeta justamente por causa do tamanho mínimo e pela falsa ideia de que um item tão "mini" não faria diferença em meio a tantos objetos descartados. A organização internacional Ocean Conservancy de defesa ambiental desmente isso.
No site Ocean Conservancy, a entidade com sede em Washington, nos Estados Unidos, mostra que o canudo foi o sétimo item mais coletado diariamente nas limpezas das praias pelo mundo em 2017. Ao longo dos últimos 30 anos, mais de 9 milhões de canudinhos foram recolhidos por voluntários. A Ocean Conservancy ainda revela que cada norte-americano usa 1,6 canudo por dia em média, costume que se popularizou com as redes de fast food que o país “exporta” para todos os continentes. A entidade também reforça que no mar os canudos representam enorme perigo para tartarugas, albatrozes e peixes.
Entre os lixos mais recolhidos nos oceanos, à frente do canudo, estão plásticos como sacolas, pratos, copos, garrafas, tampas e talheres. Entretanto, enquanto em uma rede de lanches rápidos um único copo, prato ou garrafa é entregue pelo atendente ao consumidor, o canudo fica muitas vezes disponível em caixas sobre os balcões e o cliente não se contenta em pegar só um para colocar em sua bebida. Acaba usando logo dois, três, sem contar quando leva alguns para casa e distribui para as crianças. Situação semelhante se repete em bares noturnos que criam drinks sofisticados e coloridos.
Em alguns casos o canudo acaba virando item para decorar a bebida e mais uma vez aumenta o descarte na natureza. O mais triste é que esse material feito com polipropileno ou poliestireno, basicamente um plástico que leva 400 anos para desaparecer da face da Terra, fica na mão do consumidor por quatro minutos em média e depois vai parar no mar. E nesse longo tempo vagando pelas águas vai virar comida de animais marinhos que serão mortos por sufocamento ao engolir a peça. Mesmo nos locais de reciclagem, nem as máquinas que picotam as unidades são suficientes para reduzir o risco.
O diminuto tamanho faz com que passem ilesas por alguns cortadores. Por serem muito fininhos e pequenos, os canudos muitas vezes seguem inteiros e assim vão entrando nas narinas das tartarugas, como mostrou um vídeo que viralizou nas redes sociais e ainda é lembrado após três anos de sua divulgação.
Seguidamente, as aves marinhas, assim como as tartarugas, se tornam vítimas da poluição dos canudos ao confundirem o aroma do mar e das plantas marinhas com o cheiro do plástico. Erik Zettler, ecologista microbiano do Instituto Real Holandês de Pesquisas Marítimas, declarou à BBC recentemente que o plástico acaba cheirando a peixe porque no oceano ele é rapidamente colonizado por uma fina camada de micróbios, normalmente chamada de plastisfério.
Em voos rasantes, as aves aterrissam na superfície em busca de pequenos peixes e acabam pescando pedaços de canudos e outros objetos, já caracterizados pelo cheiro de mar. Outra dificuldade, o canudinho pode potencializar o perigo para a saúde humana porque plástico em pedaços muito pequenos se desmancha ainda mais no mar à medida que bate nas pedras.
Quando chega a esse ponto de se tornar uma minúscula partícula já não sufoca os animais marinhos, mas vira microplástico e afeta o homem porque essas partículas vão parar na água encanada. A água da torneira de cidades pelo mundo inteiro está contaminada com fibras microscópicas de plástico, conforme já noticiava a Folha de S.Paulo em setembro de 2017, quando foi divulgado o resultado do levantamento da organização Orb Media.
De 159 amostras de água potável coletadas em cinco continentes, 83% continham plástico. Nesse universo, havia amostras de São Paulo. Em Porto Alegre, o Dmae já havia informado por meio de sua assessoria de comunicação que não colaborou com amostras para esse tipo de pesquisa, ressaltando também que as leis brasileiras não exigem essa avaliação.
No RS, cidade reproduzem exemplos do centro do país
O ano de 2018 marcou um momento importante na preservação ambiental no Brasil. O Rio de Janeiro foi a primeira capital do país a aplicar a lei que proíbe o canudinho plástico descartável. Já há inclusive registro de multas para o comerciante que descumprir a norma. Mas a primeira cidade a ter legislação sobre o tema foi Cotia, no interior de São Paulo.
A lei foi sancionada no final de junho, enquanto entre os cariocas a sanção veio logo depois, em 5 de julho. Em Cotia, porém, a fiscalização só começa em janeiro. Aqui no Rio Grande do Sul, no Litoral Norte, Imbé é o primeiro município onde a lei proibindo o canudo plástico passa a vigorar. A data de vigência é 1° de dezembro.
Em outros municípios gaúchos também há legislação aprovada, mas existe um prazo para que se dê início à aplicação das regras na prática. Em Santa Maria, a Câmara de Vereadores publicou a lei que proíbe o uso de canudos plásticos em bares, restaurantes, hotéis e empresas similares. Feita a sanção em setembro, a previsão é que na primeira quinzena de março a medida esteja valendo.
O estabelecimento que não cumprir a lei poderá ser multado. Em Rio Grande, na Região Sul do Estado, os estabelecimentos deverão obedecer às normas a partir de janeiro. Em Pelotas, também no Sul, a sanção ocorreu em novembro e a lei deverá vigorar em maio, considerando-se seis meses de adequação. Em Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo, a aprovação na Câmara de Vereadores se deu no início de outubro.
Ilhabela, Santos, Guarujá e Ubatuba, em São Paulo, Arraial do Cabo, no Estado do Rio, e ainda a capixaba Vila Velha e a mineira Cataguases também já têm leis assinadas por seus prefeitos proibindo o canudo plástico. Todos esses municípios, após aprovarem a medida, dão 180 dias para a efetiva vigência. Portanto, após as sanções ocorridas recentemente, entre junho e outubro, todos esses locais deverão cumprir já em 2019 a obrigação de substituir o canudinho plástico descartável por um biodegradável ou reutilizável.
Com exceção de Cotia (SP) e Cataguases (MG), as cidades do centro do país motivadas a retirar os canudos de sua rotina têm em comum a geografia. Foram erguidas à beira-mar, onde a poluição deixa os estragos mais expostos. Na Região Nordeste, paraíso dos turistas, o exemplo mais visível é o do Rio Grande do Norte, que vetou o acessório no estado inteiro. No Rio Grande do Sul, algumas características se misturam.
Imbé e Rio Grande são situadas em regiões costeiras e Pelotas tem praias de água doce. Santa Maria e Santa Cruz do Sul revelam realidades diferentes por se localizarem em meio a vales, mas nem por isso deixaram de assumir o compromisso de auxiliar na retirada dos canudos dos mares.
Os textos dos projetos votados por vereadores nas várias regiões do Brasil são semelhantes. Proíbem a venda do canudo plástico descartável em bares, restaurantes, hotéis e quiosques de praia, e geralmente exigem a substituição do material por itens degradáveis como papel ou componente similar. Outra iniciativa que vem sendo adotada é a reutilização. A indústria percebe esse nicho e já começa a fornecer o canudo de metal ou de vidro aos comerciantes. Assim como o talher, o acessório em inox, por exemplo, pode ser lavado e voltar para a mesa do cliente.
Curtindo o drink sem culpa
Em Porto Alegre, já é possível ver iniciativas de conscientização para substituir o canudo descartável, ainda que nenhuma legislação exija isso por enquanto, já que a proibição em bares e restaurantes só deverá vigorar dentro de um ano. Um desses exemplos é o Von Teese Bar, localizado no bairro Bom Fim. As proprietárias Carolina Disegna e Diovana Gheller decidiram se antecipar à necessidade de legislação e trocaram o canudinho plástico pelo de inox.
A novidade nas mesas começou em 6 de outubro, mas antes disso as duas sócias já preparavam os clientes para a mudança. Passaram a tirar o canudo descartável dos drinks e providenciavam o acessório só se alguém pedisse. A preocupação com o meio ambiente não é de agora. Carolina e Diovana lembram que há três anos são as organizadoras da Festa de Rua da Bento Figueiredo e já extinguiram há tempos os copos plásticos do evento.
Reciclagem e separação do lixo também fazem parte da rotina do bar. Embora a coleta seletiva esteja disponível e seja regulada por lei, nem todos os comerciantes obedecem. Outra iniciativa é o cuidado com encanamentos e conexões para evitar desperdício de água. “Somos contra desperdícios”, reforça Diovana.
E para “descartar os descartáveis” de vez, as proprietárias do Von Teese adotaram a empresa Sanus como fornecedora dos canudos de inox. O material é produzido por Nilvia Daniele Ferreira e Caren Nurimar Chiaramonte, que vendem seus produtos não só para bares e restaurantes como também para qualquer interessado que queira carregar seu canudinho na bolsa. Nesse caso, o produto é comprado pela página da Sanus no Facebook.
Um estojinho confeccionado em jeans leva o próprio canudo metálico e uma microescova de cerdas de nylon, que torna a limpeza mais segura e precisa, já que essa escova entra no canudo e retira os resíduos de seu interior. As duas empresárias têm tarefas diferentes na Sanus, que em latim significa “saudável”, mas têm em comum a preocupação com a preservação ambiental e a paixão pela natureza.
Nilvia, por exemplo, já trabalhou como gerente de qualidade em uma indústria de cereais no Nordeste do país e usar essa experiência para desenvolver um acessório ligado ao dia a dia dos alimentos, que fosse sustentável, tornou-se um agradável desafio. Farmacêutica por formação e com mestrado em Tecnologia de Alimentos, Nilvia decidiu engordar ainda mais o currículo e cursar a faculdade de Engenharia de Alimentos.
As ideias e projetos foram surgindo e a Sanus, além de produzir o canudo de aço inoxidável passou a oferecer ao mercado também o de boro-silicato, vidro feito de material termorresistente, com menos risco de quebrar, usado na fabricação de tubos de ensaio de laboratório. “É uma tendência mundial reduzir o consumo de plástico. Fomos nessa linha de pensamento”, assinala Nilvia. Caren, por sua vez, é quem produz os estojos que embalam os canudos, além de cuidar das vendas. De profissão, Caren é designer e estilista. A embalagem em jeans é feita a partir de tecido reaproveitado, seguindo o mesmo conceito de evitar desperdícios.
A Sanus hoje atende cinco restaurantes em Porto Alegre e também dois em Santa Maria, municípios onde já foi aprovada legislação abolindo o canudinho plástico descartável. A medida passará a vigorar em março na cidade da Região Central. “Os comerciantes de lá estão se antecipando à lei”, observa Caren. Para o consumidor pessoa física que compra pela página da Sanus no Facebook, o preço do kit de inox custa R$ 25,00. O de vidro, R$ 35,00. Os planos para melhorar o produto não param.
A escovinha de limpeza que vem junto com o canudo, por exemplo, tem um cabo de aço e cerdas de nylon. Para o futuro Nilvia já pensa em uma cerda feita a partir de esponja natural, mas admite que tudo é ainda embrionário. Para Caren, importante mesmo é o consumidor se conscientizar e substituir o canudo plástico, causador de tanta poluição. “Sempre vai ter quem opte pelo inox, pelo vidro, também muito charmoso, e vai ter quem goste do papel”, observa, alertando que o mercado e a indústria devem estar atentos a essas demandas.
Grandes grupos no ramo hoteleiro também já percebem a necessidade de mudar o hábito do canudinho descartável. Na Rede Plaza, por exemplo, o acessório foi retirado de todas as unidades do país e não somente na do Rio, onde a lei já vigora. “Tudo pelo amor e respeito à natureza”, ressaltou a empresa em nota divulgada à imprensa.
Trigo como alternativa
A professora Janete Schneider, do Senai de Estância Velha, no Vale do Sinos, orientou uma pesquisa que nasceu do afeto e das lembranças. Duas de suas alunas estavam se aproximando do final do curso de Técnico em Química e precisavam apresentar um projeto na área de produção, processo e serviço, o que corresponderia a um trabalho de conclusão.
Liandra Ely da Silva e Mariana Maciel de Araújo, ambas de 18 anos, queriam produzir algo que ajudasse a proteger os animais. “Na época elas me procuraram e se disseram chocadas com o vídeo da tartaruga”, recorda a professora, referindo-se às imagens que viralizaram em 2015 mostrando uma tartaruga com canudos introduzidos nas narinas.
Foi preciso ajuda humana para libertá-la do sufocamento. Além disso, o pai de uma das meninas comentou que na infância usava nos refrescos um canudo feito a partir da palha da cevada. Diante desses relatos, as estudantes se inspiraram e resolveram apostar na criação de um canudo feito do colmo do trigo. O colmo é aquele cabo mais grosso, que aparece logo acima da raiz. Além de ter o diâmetro perfeito, entre 3 e 4 milímetros, vai para a natureza e se desmancha rapidamente por ser orgânico. E se for engolido por animais não vai trazer prejuízos à saúde como o plástico traria.
O processo de produção não poderia ser mais simples. Inicialmente as meninas compraram trigo numa floricultura, cortaram os colmos em tamanhos de 20 centímetros e colocaram na luz ultravioleta, que esteriliza o material porque elimina fungos e leveduras. Feito isso, estava pronto o canudo, que passou por testes com líquidos quentes e frios. Só não foi testado para bebidas lácteas e sorvetes porque esses alimentos são mais densos.
O resultado ficou tão satisfatório que virou peça de exposição na Mostratec, feira de ciência e tecnologia realizada anualmente pela Fundação Liberato em Novo Hamburgo para apresentação de projetos de pesquisa de jovens cientistas do ensino médio e da educação profissional técnica de nível médio. Além disso, a iniciativa está sendo patenteada por meio do Escritório de Patentes do Senai. O processo está tramitando e enche a professora de orgulho.
As alunas também calcularam o custo dos canudos de colmo de trigo. Para o consumidor final, um pacote com 100 unidades seria vendido a R$ 25,00. A matéria-prima vem de pequenos produtores, já que o colmo tem que estar inteiro e intacto e não pode passar pelas máquinas agrícolas.
Sobre o custo, a professora Janete ressalta que se confeccionado por uma indústria o valor do canudo certamente seria muito inferior a R$ 25,00 o cento. Na pesquisa das alunas, por exemplo, o trigo foi comprado em uma floricultura a 10 centavos a unidade, preço que seria muito mais baixo se negociado diretamente entre uma empresa e um agricultor. “É uma realização orientar um trabalho como esse. Esperamos agora que uma empresa se interesse em investir”, assinala Janete.

No Von Teese Bar, em Porto Alegre, as proprietárias Diovana (E) e Carolina (D) adotaram o canudo de inox bem antes de a legislação ser aprovada. As fabricantes do produto, Caren e Nilvia, apostam na conscientização para substituir o plástico por itens de inox, vidro ou papel
Avançam iniciativas pelo mundo
A Organização das Nações Unidas publicou em sua página ONU Brasil, em junho, um alerta sobre itens descartáveis pequenos e leves, como canudos, sacolinhas e embalagens de alimentos. Quando são descartados nas ruas esses itens voam facilmente com o vento, entopem bueiros, aumentam o risco de enchentes e vão parar nos rios e mares. Pelo maior rio da Ásia, o Yangtzé, na China, passam 1.469.481 toneladas de itens plásticos.
Para o Indo, na Índia, vão 164.332 toneladas. E em um outro rio chinês, o Amarelo, há registro de 124.249 toneladas. No continente africano o egípcio Nilo computa 84.792 toneladas. Já o Níger deságua 35.196 toneladas de plástico no mar. O rio banha o próprio Níger, além de Guiné, Mali, Benim e Nigéria.
Na Europa, a Comissão Europeia (CE), braço da União Europeia, apresentou este ano uma proposta com medidas como a proibição de pequenas peças de
plástico, entre elas os canudos.
Na lista também entram cotonetes e talheres plásticos. Esses produtos, segundo o organismo, são responsáveis por 70% do lixo que vai para oceanos e praias. Recentemente, no final de outubro, o Parlamento Europeu aprovou o texto. Além disso, uma semana depois os estados-membros da União Europeia deram seu apoio oficial à iniciativa até que se adote definitivamente uma legislação.
Embaixadores de 28 países também acordaram uma posição comum sobre a proposta da Comissão. Cotonetes, pratos, bastões de balões e canudos serão proibidos e deverão ser fabricados com material mais durável. A fabricação de produtos alternativos ao canudinho plástico descartável já é realidade na Europa.
É possível comprar pela Internet canudos biodegradáveis de amido de milho fabricados pela espanhola Sorbos.A Sorbos produz canudos comestíveis e biodegradáveis feitos com açúcar, gelatina bovina e amido de milho, em um total de 24 calorias. É possível também comprar o produto aromatizado com limão, lima, morango, canela, maçã-verde, chocolate e gengibre.
Nos Estados Unidos, já é possível usar canudos feitos a partir de talos de trigo, segundo informa o Portal eCycle. A matéria-prima usada pela empresa norte-americana Hay Straws é um subproduto natural da plantação comercial de trigo. No site da empresa, um pacote com 100 canudinhos é vendido por 8 dólares, o que equivaleria a aproximadamente R$ 30,00 se considerada uma cotação a R$ 3,80.
No Brasil há a opção de canudos de papel. Uma indústria de Taboão da Serra (SP), a Fulpel, informa em seu site a distribuição e comercialização do produto desde setembro. A Compete do Brasil, com sede em São Paulo, promete para janeiro o início de sua produção de “econudos”, nome que deu aos canudinhos de papel. “Estamos comprometidos em ser uma fonte confiável de suprimento de canudos de papel no mercado de food service”, assinalou em comunicado Nelson P. Sanches, CEO da Empresa.
Possível proibição estadual e lei em Porto Alegre
Municípios pelo Brasil vêm adotando leis que proíbem o canudinho plástico descartável. Legisladores de cidades aqui no Rio Grande do Sul e nos estados de São Paulo, Rio, Espírito Santo e Minas Gerais aprovaram a iniciativa no decorrer de 2018. Em alguns locais as leis estão inclusive sancionadas e entram em vigor já em 2019. No Rio Grande do Sul, no futuro, a legislação poderá até abranger todo o Estado.
A semente desta iniciativa foi o projeto número 141/2018 de autoria da então deputada Regina Becker (PTB), que neste ano assumiu a Secretaria de Trabalho e Assistência Social do governo estadual. O texto proposto pela ex-parlamentar defendia proibir a fabricação, fornecimento, venda, compra e disponibilização do acessório. A proposta não chegou a ser apreciada na Casa porque a legislatura da deputada se encerrou, mas o tema é preocupação constante para Regina.
À pergunta sobre por que proibir especificamente o canudinho, ela cita alguns riscos a partir de dados que levantou para as justificativas de seu projeto. O tamanho de um canudinho é mínimo, mas a quantidade descartada é gigantesca, o que faz com que a poluição se dê de forma significativa. O Fórum Econômico Mundial, recordou Regina, relatou a existência de 150 milhões de toneladas métricas de plásticos nos oceanos.
Nos Estados Unidos, segundo apurou o The Last Plastic Straw, são 500 milhões de canudos usados e descartados diariamente. Especificamente sobre os canudos consumidos pelos brasileiros, Regina ressalta nas justificativas de sua proposta que se eles fossem empilhados durante um ano em um muro de 2,1 metros de altura seria possível dar uma volta completa na Terra em uma linha de mais de 45 mil quilômetros de largura.
Defensora da causa animal, Regina lembra que, em viagem aos Estados Unidos, foi conhecer a exposição da revista científica International Geographic, quando viu imagens de tubarões com canudos trancados entre os dentes e espetados nos olhos. Como nadam em alta velocidade em meio ao lixo no fundo do mar, é fácil que esses objetos atinjam os olhos. “A realidade desses bichos me deixou chocada”, acrescentou Regina, reiterando que diante da falta de consciência dos humanos, só medidas protetivas podem trazer soluções, principalmente porque as estimativas para um futuro relativamente próximo são pessimistas.
A deputada traz um dado da fundação britânica Ellen MacArthur. Caso o consumo de plástico siga no mesmo ritmo de hoje, em 2050 haverá mais plástico que peixes nos oceanos. E as maiores vítimas serão os animais. Também para Porto Alegre foi aprovada proposta de proibição dos canudinhos. O texto de autoria do vereador Marcelo Sgarbossa (PT) foi protocolado em junho na Câmara Municipal durante a Semana do Meio Ambiente, mas apreciado no dia 20 de dezembro. Apenas canudos de papel ou material biodegradável serão autorizados. Agora, a matéria vai à sanção do prefeito.
Estabelecimentos comerciais e ambulantes que mantiverem a oferta poderão ser punidos com multa, que será dobrada em caso de reincidência. Valores arrecadados deverão ser aplicados em programas ambientais. Emenda aprovada definiu que a punição começará a valer em um ano.

A professora Janete Schneider, do Senai de Estância Velha, no Vale do Sinos, orientou uma pesquisa que usa o colmo do trigo para a fabricação de canudos
Em Imbé, lei já vigora
Em Imbé, no Litoral Norte, vigora desde 1º de dezembro a lei que proíbe o fornecimento de canudos plásticos descartáveis em restaurantes, lanchonetes, bares e similares e quiosques de praia. A regra se estende também a vendedores ambulantes. Quem desobedecer à regra poderá ser multado. A lei municipal número 1.971/2018 tornou-se realidade após sugestão legislativa da vereadora Virna Alice Marciel Cruz (PT).
Na primeira autuação é feita apenas advertência por escrito e entregue uma intimação para que cesse a irregularidade. Na segunda é aplicada multa de R$ 500 e feita nova intimação. Na terceira autuação a multa dobra e passa a R$ 1 mil, além de outra intimação. Já na quarta autuação, o valor da multa salta para R$ 2 mil e o alvará do estabelecimento é cassado.
Proprietária de um quiosque há quase 40 anos, Conceição da Silva comprou canudinhos biodegradáveis, mas já percebe um aumento na despesa. Ela observa que enquanto o canudinho plástico comum, que está proibido, custa R$ 15,00 um pacote com 5 mil unidades, o biodegradável custa R$ 16,00, mas tem apenas 500 unidades.
O acessório faz falta no quiosque de Conceição principalmente na hora de servir a bebida típica de beira de praia. “Para a água de coco é bem necessário”, ressalta. Embora somente o canudo plástico esteja proibido na cidade litorânea, Conceição se antecipa e procura tirar de circulação também os copos plásticos. Deixa disponíveis em uma bandeja, ao lado do balcão, os copos de vidro que sempre agradam o consumidor na hora de degustar uma cerveja bem gelada.
Entre os clientes do quiosque está Rose de Luca, comerciante aposentada e moradora do Centro de Imbé. Sobre a proibição dos canudos, ela observa: “É uma iniciativa ecológica e sou completamente a favor”. Para Rose, todas as cidades brasileiras deveriam adotar o mesmo tipo de norma. Outro proprietário de quiosque, Glair Demarchi, é um entusiasta da lei. “Acho que vai dar certo. Tem que dar”, reforça, lembrando que, entre seus clientes, alguns já nem sentem falta de canudinhos. De qualquer modo, Demarchi providenciou canudos biodegradáveis.

Os proprietários de quiosques da praia de Imbé, como Conceição e Glair, aprovam a nova legislação,mesmo tendo que comprar canudos mais caros

Envidraçados e de frente para o mar, restaurantes de Imbé recebem consumidores que vão curtir o almoço assistindo ao movimento das ondas. Para a gerente de um deles, Camila Raupp, uma mudança de pensamento já se estabelece: “as pessoas gostam bastante quando a gente mostra que o canudo é biodegradável”. Amanda Lopes e Maicon Gomes estavam no Litoral a trabalho. São colegas em uma empresa que atua no setor de alimentos para cães e gatos.
Enquanto esperam a comida, Amanda conta que não faz uso de canudos plásticos descartáveis. Em Canoas, onde mora, costuma carregar o seu na bolsa, feito de inox. “Sou veterinária”, acrescenta, lembrando que se livrar dos canudos plásticos significa defender a vida de animais marinhos, o que ela considera fundamental. Maicon tem opinião semelhante. “Vai contribuir na luta contra a poluição.”
As providências tomadas pelo Município de Imbé para proibir o canudo plástico descartável marcam uma mudança, já que a cidade é a primeira onde a lei vigora no Rio Grande do Sul. Há um detalhe, entretanto, que preocupa comerciantes e comunidade. Um dos quiosqueiros achou estranho que o canudo biodegradável que comprou para substituir os antigos seja também de plástico, e de um plástico mais grosso. O novo material tem um componente orgânico que faz com que se desmanche em dois anos em vez de 400, mas a questão é que nesses dois anos, se esse material for parar no lixo e depois no mar, igualmente vai ser engolido por tartarugas e aves marinhas.
Entre quiosques e estabelecimentos visitados à beira-mar, nenhum havia adotado canudos de papel, inox ou vidro. O artigo primeiro da nova lei municipal diz que é proibido usar ou fornecer aos clientes canudos de plástico descartáveis, “podendo fazer uso dos canudos de material biodegradável, papel ou reutilizáveis”. Sendo assim, a regra permite o biodegradável plástico, que tem vida muito mais curta, mas ainda assim é uma ameaça aos animais no mar.
Guilherme Tavares Nunes é biólogo, doutor em Oceanografia e professor do curso de Biologia Marinha do Ceclimar/Ufrgs em Imbé. O conhecimento do professor sobre a vida marinha serviu de auxílio para a confecção da lei. “Dei algumas sugestões”, observa, referindo-se às primeiras redações do texto. Sobre o plástico biodegradável, faz ressalvas. “Ainda que esse canudo com material que acelera a decomposição seja vendido como biodegradável, ele é de plástico.” No entendimento do professor, especificamente este produto não deveria ser permitido porque de qualquer forma pode ser engolido pelos animais, ainda que dure menos tempo.
Sobre a expressão “biodegradável”, Nunes destaca que é preciso dar atenção a um detalhe. De uma forma geral, tudo é biodegradável, tudo se desmancha, ainda que leve 400 anos, como o plástico tradicional. A questão é fudamentalmente o tempo que esse material fica no ambiente. Portanto, mesmo que 2 anos representem um curtíssimo prazo frente ao plástico tradicional que dura quatro séculos, de todo modo o plástico biodegradável vai trazer impactos.
Ainda que considere que o objetivo da lei proibindo os canudos não esteja plenamente alcançado, o professor assinala que o debate é positivo e representa o começo de uma conscientização. E é justamente educação e conscientização que o procurador-geral do Município de Imbé, Rodrigo Daniel Pereda, ressalta: “Não há como extinguir ou vetar totalmente o canudo. A intenção legislativa é cada vez evoluir mais”. Pereda sinaliza a possibilidade de emendas ou projetos substitutivos caso o canudo plástico biodegradável não seja satisfatório.
Uma das empresas que fornece canudos plásticos biodegradáveis a restaurantes e bares de Imbé é a Plastsul. O sócio da empresa e diretor industrial, Willlian Niehues, confirma que o canudo biodegradável leva dois anos para se degradar. O processo, explica ele, ocorre a partir de um aditivo adicionado ao plástico que tem a tarefa de atrair bactérias. Feito isso, essas bactérias vão comer o produto. Em ambientes como os lixões, acrescenta Niehues, é possível que a degradação seja até mais rápida, já que há mais bactérias.
O diretor da Plastsul, no entanto, vai em busca de outras alternativas. Está planejando caixas coletoras de canudos para os restaurantes e lancherias que atende, à semelhança dos chamados papa-pilhas. Antes que o canudo vá parar no lixo, irá para o coletor e será devolvido à Plastsul para reciclagem. A dificuldade maior é a logística, já que a empresa catarinense, com sede em São Ludgero, próximo a Tubarão (SC), tem clientes em estados como o Pará, no Norte do país.
Por isso ainda está sendo estudada a melhor forma de recolher os canudos descartados.
A fábrica tem 8 anos e os canudos biodegradáveis foram criados há seis meses. “O problema maior não é o plástico, mas o ser humano. Tudo é uma questão de educação”, diz o diretor da Plastsul, apostando na reciclagem do material como forma de evitar danos ao planeta.
Questionado sobre se teria intenção de fabricar canudos de papel, Niehues conta que já pensou na possibilidade, mas esbarrou no custo. Enquanto uma caixa com 3 mil unidades de canudo plástico biodegradável é vendida ao comerciante por R$ 50,00, uma caixa com igual quantidade feita de papel sairia por um valor entre R$ 800,00 e R$ 900,00. Além disso, lembra Niehues, mesmo que a matéria-prima viesse de árvores de reflorestamento, outro prejuízo à natureza se apresentaria. “Eu teria que desmatar.”

Amanda e Maicon estavam no Litoral a trabalho e apoiam a nova lei. Ela conta que não faz uso de canudos plásticos descartáveis e, em Canoas, onde mora, costuma carregar o seu na bolsa, feito de inox
Oncologista esclarece sobre componentes
Um dos temores em relação ao canudo plástico descartável é a possibilidade do surgimento de doenças em função de componentes do produto. Poliestireno e polipropileno contêm bisfenol, substância que imita a atividade de hormônios como o estrógeno no organismo, o que poderia levar a doenças como o câncer.
Oncologista do Hospital Santa Rita da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, Carlos Eugenio Santiago Escovar explica que a presença de determinados componentes não significa necessariamente perigo de desenvolver câncer porque esse produto estaria distante daqueles que oferecem mais risco, os plásticos que são aquecidos em micro-ondas.
Ele observa que há pesquisas científicas que verificam os efeitos do aquecimento de embalagens de plástico nesse tipo de forno. Ressalta, entretanto, que nesses estudos foram observadas embalagens que não são apropriadas para serem colocadas no micro. E aí sim, esses plásticos impróprios, como os potes de sorvete, quando aquecidos, poderiam liberar substâncias que favoreceriam o aparecimento de câncer, embora esse processo tivesse que se repetir por décadas para que realmente trouxesse uma doença. Quanto ao canudo plástico descartável, Escovar esclarece que não haveria perigo, já que seria preciso sorver um líquido “absurdamente quente” para que o canudo afetasse a saúde.
Outro questionamento feito ao médico, que coordena o Centro de Pesquisa Novos Tratamentos em Câncer do Hospital Santa Rita, está relacionado aos pacientes. Quando em estado de saúde grave ou mais delicado, podem precisar de canudos para se alimentar. Dentro de um hospital, diz o médico, o canudo reutilizável não poderia ser adotado, já que sua esterilização total não é possível, mesmo sendo de inox. Então, o item descartável é uma necessidade. “Não se usa material que não se possa esterilizar completamente.”
O médico assinala que a educação e a mudança de postura são as melhores soluções para reverter o problema que se tornou o acúmulo de plásticos leves nos mares. Como alternativa para reduzir esse lixo, o oncologista lembrou de canudos de bambu. É também um produto descartável, mas natural, uma ideia que se aproxima de produtos já fabricados na Europa e nos EUA a partir do trigo, do amido de milho ou de algas marinhas.
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