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quarta-feira, 3 de abril de 2024

EXISTO, LOGO PENSO - 03.04.24

 Por Dagoberto Lima Godoy


 


René Descartes revolucionou o pensamento ocidental com a frase “Penso, logo existo”. Não sei se o genial pensador (nas meditações que costumava fazer deitado em sua cama) terá se perguntado: “E existo, para quê?” .

Inúmeros pensadores -- religiosos, místicos ou laicos -- identificam o sentido da vida humana com a busca do bem (seja este circunscrito à vida terrena, seja projetado numa dimensão transcendental), mediante o aperfeiçoamento intelectual ou espiritual. Para a maioria das pessoas, entretanto, o objetivo de suas vidas é ser feliz, embora seja enorme a dispersão de opiniões quanto ao conceito de felicidade. Em geral, só nas situações de total desespero ou acentuado cinismo é que se vê uma pessoa negar sentido à sua existência (ou à do universo).

De qualquer forma, o que parece inerente à natureza humana é a ambição de alcançar algo que faça valer a pena viver. Então, sou levado a refletir sobre a ambição como impulso natural do homem e como ela pode determinar a qualidade de nossas vidas. O vocábulo “ambição” pode ter um sentido amplo e positivo, em linha com uma das definições registradas pelo Aurélio: “desejo ardente de alcançar um objetivo de ordem superior”. Mas, também pode ter o outro significado sugerido pelo mesmo dicionário: “desejo veemente de alcançar aquilo que valoriza os bens materiais ou o amor-próprio (poder, glória, riqueza, posição social, etc.)”. 

Os dois significados indicam como a ambição pode direcionar o sujeito aos mais altos píncaros da realização intelectual (Einstein, como exemplo) ou espiritual (Jesus Cristo ou Buda, como emblemas), ou, no sentido oposto, conduzir a pessoa a uma existência medíocre (no mínimo) ou ao fracasso (na pior hipótese).

Analiso o grau a que pode ser levada a ambição pessoal e concluo que tanto a moderação quanto o excesso levam a resultados opostos, em função da escolha dentre os focos referidos. Cobiça é a ambição desvirtuada em desejo por alvos ilícitos (a mulher do próximo, da Bíblia) ou valores fátuos (fama, glória, luxo); e ganância é a cobiça desmesurada. Não aceito limites para a ambição que é direcionada para o bem, assim como vejo a proximidade contagiosa da cobiça e da ganância com outros sentimentos vis, como inveja e avareza.

Assim, é o mesmo grau máximo de ambição que tanto pode levar à realização plena aqueles que miram o saber ou a virtude, quanto frustrar e até desgraçar os gananciosos de riqueza e poder. Para estes, não faltam advertências e condenações: religiões as mais diversas proscrevem os vícios que decorrem de tais opções equivocadas; e o mesmo fazem até materialistas (como Karl Marx, que abominou a ganância e a cobiça, embora entendendo que não constituíssem uma característica da natureza humana e sim decorrências do sistema capitalista). Do lado oposto, o exagero na moderação dos desejos pode mascarar a indolência e a falta de apetite pela vida.

Para mim está bem clara a razão de existir do ser humano, o que quer dizer, o sentido que cada um deve perceber e perseguir na própria vida. Viver sem noção de um sentido é desperdiçar a própria vida, como disse o filósofo Kierkegaard:


“A única vida desperdiçada é a de quem viveu de tal modo iludido pelos prazeres e contratempos da vida que nunca se tornou decisivamente, eternamente, consciente de si mesmo como espírito ou indivíduo.”


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