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quinta-feira, 7 de março de 2024

Conselho de Segurança da ONU expressa preocupação com situação no Haiti

 Grupo criminoso ameaça iniciar uma 'guerra civil' se o primeiro-ministro, Ariel Henry, não renunciar

Conselho de Segurança da ONU expressa preocupação com situação no Haiti 

O Conselho de Segurança da ONU expressou nesta quarta-feira preocupação com o que chamou de situação crítica no Haiti, onde o líder de um grupo criminoso ameaça iniciar uma 'guerra civil' se o primeiro-ministro, Ariel Henry, não renunciar.

As gangues que controlam a maior parte da capital, Porto Príncipe, e as estradas que levam ao resto do país, atacaram nos últimos dias locais estratégicos deste país caribenho: a academia de polícia, o aeroporto e vários presídios, dos quais milhares de prisioneiros fugiram.

Diante da onda de violência, o Conselho de Segurança fez uma reunião de emergência na tarde de hoje. 'Todos compartilharam suas preocupações', principalmente a necessidade de mobilizar o quanto antes a missão internacional de apoio à polícia, disse a embaixadora de Malta, Vanessa Frazier.

Os arredores do aeroporto Toussaint-Louverture voltaram a ser palco de confrontos entre forças de segurança e gangues na noite de terça-feira e na madrugada desta quarta-feira, segundo uma fonte policial. O líder de uma das principais gangues, Jimmy 'Barbecue' Cherizier, pediu nesta quarta-feira a renúncia do primeiro-ministro, que estava na África quando a situação atual eclodiu. 'Se Ariel Henry não renunciar, se a comunidade internacional continuar a apoiá-lo, iremos diretamente para uma guerra civil que levará ao genocídio', disse Cherizier, sancionado pela ONU.

Com o estado de emergência e o toque de recolher noturno impostos pelas autoridades, muitos moradores da capital fogem dos distúrbios carregando seus poucos pertences, enquanto outros saem de casa apenas para comprar o indispensável.'A situação está cada vez pior. A polícia nacional é impotente contra os ataques dos grupos armados. Somente uma força militar pode nos ajudar nesta situação', diz um motorista de Porto Príncipe, que não quis ser identificado.

Renúncia

No poder desde o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021, Henry deveria ter renunciado em fevereiro, mas selou um acordo de poder compartilhado com a oposição até a realização de novas eleições. Em um país sem presidente ou Parlamento, onde as últimas eleições foram realizadas em 2016, o futuro do dirigente está no ar.'Apesar de várias reuniões, ainda não fomos capazes de chegar a nenhum tipo de consenso entre o governo e os diferentes atores da oposição, o setor privado, a sociedade civil e as organizações religiosas', lamentou o presidente da Guiana, Mohamed Irfaan Ali, que assume a presidência temporária da Comunidade do Caribe (Caricom). 'Todos estão conscientes do preço do fracasso.''Pedimos ao primeiro-ministro haitiano que avance com um processo político que levará ao estabelecimento de um órgão presidencial de transição para a celebração das eleições', disse hoje a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Linda Thomas-Greenfield.

Horas depois, a Casa Branca assegurou, por intermédio de sua secretária de imprensa, Karine Jean-Pierre, que não está pressionando o dirigente haitiano a renunciar.Henry ainda não conseguiu retornar a Porto Príncipe desde que partiu para o Quênia para organizar o envio de uma missão policial multinacional apoiada pela ONU.

Ele desembarcou ontem em Porto Rico, segundo uma porta-voz do governador da ilha caribenha. O governante, que não pôde viajar ao Haiti devido aos distúrbios no aeroporto internacional, teve sua permissão negada para pousar na vizinha República Dominicana. 'Os governos do Haiti e Estados Unidos consultaram, de maneira informal, a República Dominicana sobre a possibilidade de que a aeronave que transportava o primeiro-ministro Henry de volta ao seu país pudesse ter feito uma escala indefinida em território dominicano', disse um comunicado oficial lido pelo porta-voz Homero Figueroa nesta quarta-feira.'Nas duas ocasiões, o governo dominicano comunicou a impossibilidade de tal escala sem receber um plano de voo definido', acrescentou.'Não existe uma alternativa realista' à missão internacional, afirmou em Genebra o chefe da área de direitos humanos da ONU, Volker Türk.

Insustentável

Devido aos ataques de gangues, o governo haitiano declarou estado de exceção e toque de recolher noturno na capital no fim de semana, em vigor até esta quarta-feira. Volker Türk, alertou em Genebra que a situação no Haiti se tornou 'mais do que insustentável', com 1.193 pessoas mortas pela violência de gangues armadas desde o início de 2024. Em meio à violência, crise política e a anos de seca, cerca de 5,5 milhões de haitianos (aproximadamente metade da população) necessitam de assistência humanitária externa.

O apelo da ONU para financiar 674 milhões de dólares (3,3 bilhões de reais na cotação atual) este ano para ajudar o Haiti, o país mais pobre das Américas, mal conseguiu arrecadar 2,5%.Os distúrbios desde a última quinta-feira levaram pelo menos 15 mil pessoas a fugir das áreas mais afetadas de Porto Príncipe, segundo a ONU, que começou a distribuir alimentos e produtos de primeira necessidade.

Na tarde de hoje, a associação dos hospitais privados do país pediu ajuda às organizações de saúde presentes no Haiti, diante da situação crítica. A insegurança ameaça suas instalações e seus profissionais, e 'a escassez grave de material médico essencial, combustível e oxigênio' limita a sua capacidade de atendimento, alertou.Após meses de atrasos, o Conselho de Segurança da ONU aprovou em outubro o envio ao Haiti de uma missão policial multinacional liderada pelo Quênia, mas a implantação da mesma foi adiada pela Justiça queniana e pela falta de financiamento.

A polícia do Haiti, que conta com um número reduzido de efetivos, tem que lidar com sequestros, franco-atiradores em telhados e estupros. O secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou-se em janeiro 'consternado' com 'o nível assombroso' de violência das gangues que dominam o país.Segundo as Nações Unidas, o número de homicídios mais do que duplicou em 2023, com quase 5.000 pessoas mortas, incluindo 2.700 civis.

AFP e Correio do Povo

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